OPINIÃO

Mudar o mundo a rir

Atuar na rua implica lidar com a imprevisibilidade. Há quem fuja dela e quem, como o palhaço Enano, goste da liberdade que é dada ao público.

Nas praias do litoral alentejano é fácil encontrar este artista de rua, nascido em Cádis mas instalado há mais de uma década em Odemira. Quem vai assistir aos seus espetáculos nunca sabe se acaba a fazer de realizador de cinema numa peça de teatro improvisada. Ou se é admoestado por estar a fazer barulho.

Há dias, logo a abrir um dos seus serões de verão, o palhaço Enano meteu-se com três indianos que se ouviam entre o público. «Eh… Namastê. Silêncio.» Os amigos acenaram-lhe e a troca de mimos prosseguiu. Um deles foi chamado a fazer de monstro e enquanto Enano ia desfiando as suas piadas, a certa altura a minha filha murmurou-me ao ouvido: «Não achas que ele está a abusar? Parece gozar com a cultura indiana…»

Hesitei, sem saber o que responder. A eterna questão da fronteira entre humor e correção, uma fronteira que Enano não pisou, mas que aos olhos de uma adolescente estava a tornar-se difusa. Até que a certa altura o palhaço ativista, como gosta de se designar, pediu silêncio. Conseguida a atenção do público, lembrou que os campos do Baixo Alentejo estão cheios de trabalhadores indianos. Gente que acorda de madrugada para trabalhar no duro, que vive longe da família por um salário de miséria, gente que merece respeito. E pediu uma salva de palmas para todos os indianos que trabalham na região, fazendo de novo a saudação ao espetador de repente transformado em protagonista.

Naquele «Namastê» estava contida toda a profundidade filosófica da palavra. E ali, no meio de piadas sem enredo e de uma noite sem guião, meia dúzia de palavras gritadas com alma fizeram mais pelo acolhimento de imigrantes do que qualquer preleção ou medida oficial de inclusão. Houve ligação entre duas pessoas que não falavam a mesma língua, mas que se inclinaram de forma humilde um diante do outro.

Quando eu era miúda sonhava, como acho que sonhamos todos, que um dia iria ajudar a mudar o mundo. Fosse em missão de voluntariado, a descobrir a cura para uma doença qualquer ou a fazer advocacia pro bono, haveria de deixar uma impressão digital.

Só que os anos passaram e agora, que estou quase, quase a fazer 42, dou por mim a pensar que não saí da minha zona de conforto, não me dediquei à ciência e à última hora recusei Direito. E, cúmulo dos cúmulos, dedico tantas horas ao trabalho que até na vida dos amigos sou muito pouco presente.

Os Enanos desta vida dão-me esperança. Lembram-me que não é preciso gestos grandes para fazer a diferença. E que as mensagens que realmente contam, aquelas que nos tornam mais humanos, se dizem em poucas palavras. O que nos distingue, como pessoas, é a capacidade de ter palavra e de encontrar caminho para o que importa no meio do ruído e do imenso azedume que inunda as redes sociais, onde a liberdade de expressão foi confundida com maledicência.

Quando um violino é construído, num trabalho de sensibilidade e paciência, o último passo é a colocação da alma, um pedaço cilíndrico de madeira, da grossura de um lápis. O ponto de ouro da alma é o local exato de distribuição do som e encontrá-lo faz toda a diferença para que a sonoridade seja perfeita. Mudar o mundo começa com algo tão pequeno mas mágico como isso. Arrancar da alma as palavras no seu ponto de ouro, que ajudem cada pessoa a ser um universo.