OPINIÃO

Em 1955, o eterno segundo mais rápido do mundo foi o mais rápido em Lisboa

Foi um dos maiores pilotos de todos os tempos e, entre 1951 e 1961, competiu ao mais alto nível na primeira era dourada da F1, alcançando 16 vitórias em Grandes Prémios – mas Stirling Moss nunca conseguiu ser campeão. Em 1955 correu em Lisboa. E ganhou.

Texto de Rui Pelejão | Fotografia Arquivo DN

A 23 de julho de 1955, Stirling Moss afinava o carro para disputar a Taça Governador Civil de Lisboa. O inglês era uma estrela do automobilismo e disputava o Mundial de F1 ao volante de um Mercedes, mas o seu contrato permitia-lhe correr por outras marcas e foi ao volante de um Porsche 550 Spyder que se apresentou em Portugal.

O Circuito de Monsanto era um percurso de 5,440 metros desenhado naquele parque, que usava um troço da única autoestrada existente em Portugal e que viria dar origem à atual A5. Moss era o piloto mais cotado do grupo à partida e tinha à disposição uma evolução do chassis e do motor do Spyder, o que lhe permitiu dominar a prova, batendo o português Filipe Nogueira, a quem elogiou a técnica de curvar com o pé no travão e acelerar ao mesmo tempo.

Em 1959, Moss voltaria a Monsanto para disputar e vencer o GP de Portugal de F1, um ano depois de graciosamente ter perdido o título no GP da Boavista por causa de um gesto de cavalheirismo desportivo que o tornaria uma lenda. O rival pelo título, Mike Hawthorn tinha sido injustamente penalizado pelos comissários desportivos e foi o depoimento de Moss que lhe retirou a penalização devolvendo-lhe os pontos necessários para bater Moss nas contas do Mundial.

O Circuito de Monsanto era um percurso de 5,440 metros desenhado naquele parque, que usava um troço da única autoestrada existente em Portugal e que viria dar origem à atual A5.

O inglês ficou em segundo lugar do mundial de pilotos quatro épocas consecutivas, entre 1955 e 1958, mas nunca alcançou o título. Ficará para a história como o eterno vice-campeão ou como o homem que teve o azar de viver numa era dominada pelo argentino Juan Manuel Fangio.

Os ases do volante que pouco percebiam de automóveis
Na década de 1950, o Circuito de Monsanto, em Lisboa, e o Circuito da Boavista, no Porto, eram os dois grandes palcos de provas internacionais de automobilismo no nosso país, incluindo o GP de Portugal de F1. Nas ruas do Porto ou na floresta de Monsanto, os grandes ases internacionais como Juan Manuel Fangio, Stirling Moss, Frolain Gonzalez, Jack Brabham ou Mike Hawthorn, levavam os seus bólides ao limite, para gáudio das dezenas de milhares de espectadores que se acotovelavam para ver perigosamente de perto a perícia dos grandes volantes internacionais.

Para a imprensa da especialidade, a cobertura daquelas provas era mais do que obrigatória. Na época, a revista O Volante, a mais antiga publicação portuguesa dedicada ao automobilismo e à aviação em Portugal, contava nos seus quadros com dois intrépidos e improváveis repórteres, que nas boxes do Circuito de Monsanto, apontavam todas as notas e bebiam uns copos com os mecânicos.

«O nosso director e também o proprietário era exigentíssimo… mas só com os anúncios», escreveu Luiz Pacheco anos mais tarde. «Felizmente. Ou, decerto, não teria admitido dois sujeitos que de automobilismo nada percebiam. Poderei estar enganado: a minha só vantagem sobre o Mário era que eu sabia andar de bicicleta e ele acho que nem isso.»

O escritor Luiz Pacheco (na altura com 30 anos) e o escritor e pintor Mário Cesariny (31), que viriam mais tarde a ser famosos pelo seu papel na cultura portuguesa, eram naquela época o esteio da redação da publicação, conforme recordou Pacheco, anos mais tarde em divertida crónica, originalmente publicada no Diário Económico e depois republicada no livro Figuras, Figurantes e Figurões, de O Independente.
Aqui fica a bela história, com a devida vénia:

«Os dois ases d`O Volante»
«Será que ele ainda se lembra, como eu? Pois era aquilo um terror apanicado, que nos tolhia a ambos. Um silêncio que nos calava, constrangidos, talvez a pensar quem iria primeiro para o olho da rua. Quando chegava da imprensa Astória o novel número d’O Volante, o Mário Cesariny de Vasconcelos e eu, que éramos os esteios da Redacção daquele órgão de automobilismo, turismo e aviação (ao tempo, quase único em Portugal e o mais antigo, pioneiro do automobilismo da Velha Guarda, com prestígio internacional), percorríamos as páginas à procura da gralha, do disparate, que nos lixasse de vez. O Director, Campos Júnior, durante algum tempo ainda supus ser o autor daqueles romances históricos (Ala dos Namorados, Os Doze de Inglataerra) que lera na infância, o nosso director e também o proprietário era exigentíssimo… mas só com os anúncios. Felizmente. Ou, decerto, não teria admitido dois sujeitos que de automobilismo nada percebiam. Poderei estar enganado: a minha só vantagem sobre o Mário era que eu sabia andar de bicicleta e ele acho que nem isso. Mais: eu comprara com uns dinheiros roubados uma moto BSA 2,5, LI – 5736, ao stand do Vidal, coisa (ostentação de bens, em desmesura com os ganhos reais – fenómeno social muito em prática nos tempos que correm) que ia dando bronca.

As nossas aventuras naquele emprego maluco ainda agora me divertem. Havia, claro, quem ali percebesse de carros, era o Hélio Esteves Felgas. Nós limitávamo-nos às tarefas menos nobres, coisas de pacotilha, traduções, revisão tipográfica. E mesmo assim! Tenho contado isso: não querem acreditar-me! O Poeta Mário Cesariny e o Pacheco a fazerem a cobertura jornalística do circuito de Monsanto, na época a grande prova nacional, equivalente aos giros no autódromo; os Mil Quilómetros do Benfica, o Rally Shell e tantas mais. Não sei se alguma vez o Mário entrevistou o Fangio. Como sabia espanhol, seria ele o indicado. E como se desenrascaria? Lembro como eu fazia, em Monsanto: ia para junto das «boxes». Escutava, feito SIS, os comentários técnicos da malta. Registava. E trazia tudo para a minha reportagem. Ah, e antes que me esqueça, foram tempos esses que recordo com ternura. Havia mais companheiros: o Vítor Direito, estudante ainda; O João Alves das Neves, o José de Freitas. Acima, muito acima, o Cesariny, foi quando lhe editei o Manual de Prestidigitação e nos dávamos como irmãos.

[Luiz Pacheco, in Diário Económico de 26 de julho de 1995, e Figuras, Figurantes e Figurões, O Independente, 2004]

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Rui Pelejão, editor do site Motor 24 e autor deste texto, foi motorista de Stirling Moss décadas mais tarde. Conheça a história AQUI.

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