OPINIÃO

O dia em que fui motorista de Stirling Moss

O jornalista Rui Pelejão, especialista em automobilismo e editor do site Motor24, recorda o dia em que engoliu o orgulho de condutor em nome de uma causa maior.

Já lá vão uns anos. Foi em 2004, eu era o repórter de serviço do semanário Autosport no Vila Real Historic Revival, uma prova reservada a automóveis clássicos que pretendia evocar os anos gloriosos do circuito transmontano, o primeiro circuito de velocidade realizado em Portugal no ano de 1931.

A ideia de criação do circuito partiu de um grupo de entusiastas de Vila Real, liderados por Aureliano Barriga, e uma das formas de financiar a prova inaugural foi nada menos que um original imposto sobre o bife durante as festas da cidade. Por cada quilograma de carne vendida, 40 escudos destinavam-se a financiar a prova. As três primeiras edições seriam vencidas pelos irmãos Gaspar e Vasco Sameiro, o piloto bracarense que deu o nome ao Circuito permanente de Braga. Mas seria apenas depois da Segunda Guerra Mundial que o Circuito de Vila Real atingiria enorme projeção, firmando-se, em conjunto com o Circuito da Boavista (no Porto) e o Circuito de Monsanto (em Lisboa) como um dos grandes palcos do automobilismo nacional.

Em 1966 foi criada a Comissão Permanente do Circuito de Vila Real, que apostou fortemente na internacionalização do circuito. Iniciou-se então a era dourada de Vila Real, que se prolongou até 1973, com corridas de Fórmula 3, carros de Gran Turismo e Protótipos e pilotos de renome internacional como David Piper, Ronnie Peterson, «Nicha» Cabral ou Stirling Moss, que havia gravado o seu nome no palmarés da prova em 1958.

A ideia de recriar o Circuito de Vila Real já no novo milénio partiu do antigo jornalista e piloto Francisco Santos, que conseguiu reunir em 2004 um lote apreciável de grandes automóveis ligados à história da cidade, bem como velhas glórias do automobilismo que passaram por Vila Real nos anos de ouro da prova.

Um deles era Stirling Moss, a lendária «sombra» de Fangio, cabeça de cartaz daquele Revival. Lembro-me do Adelino Dinis, também jornalista e um dos impulsionadores daquela iniciativa, me perguntar: «Queres ir buscar o Stirling Moss ao Porto?» Nem hesitei. Aqui estava uma excelente oportunidade de conhecer o piloto que o meu pai mais admirava e ter uma história diferente para contar na reportagem.

Então lá fui eu ao fim da tarde buscar o lendário Stirling Moss ao Porto, para lhe servir de chauffeur até Vila Real.

O avião aterrou já tarde e ele vinha com a sua terceira mulher, Susie Moss. Na altura tinha apenas 74 anos e alguns problemas de mobilidade que o obrigavam a recorrer a uma cadeira de rodas, que usava para o levarem aos carros de competição que ainda guiava como um mestre em encontros históricos como este.

fui assaltado por uma súbita ideia que semeou o pânico na minha normalmente inconsciente consciência: e se eu tivesse um acidente com o Stirling Moss no carro? Ali no banco de trás ia um dos maiores pilotos de todos os tempos, conhecido pelas suas épicas batalhas com Juan Manuel Fangio, Mike Hawthorn e Jack Brabham, um destemido ás do volante que sobreviveu a alguns terríveis acidentes e que, apesar de todo o seu enorme e reconhecido talento, nunca conseguiu sagrar-se Campeão do Mundo de F1.

Recordo a viagem até Vila Real como uma das mais duras de sempre. Não me lembro bem que carro era, mas devia ser um daqueles monovolumes pastelão, com muito espaço para passageiros e bagagens, mas tão divertido de guiar como uma tábua de passar a ferro. Depois começou a chover a potes e o trânsito era intenso à saída do Porto.

Mas o pior nem era isso. O pior é que fui assaltado por uma súbita ideia que semeou o pânico na minha normalmente inconsciente consciência: e se eu tivesse um acidente com o Stirling Moss no carro?

A ideia era aterrorizante e humilhante. Ali no banco de trás ia um dos maiores pilotos de todos os tempos, conhecido pelas suas épicas batalhas com Juan Manuel Fangio, Mike Hawthorn e Jack Brabham, um destemido ás do volante que sobreviveu a alguns terríveis acidentes e que, apesar de todo o seu enorme e reconhecido talento, nunca conseguiu sagrar-se Campeão do Mundo de F1, tendo sido vice-campeão quatro anos consecutivos (entre 1955 e 1958). O último título perdeu-o para Mike Hawthorn, precisamente no Circuito da Boavista em 1958, devido a um ato de cavalheirismo desportivo que lhe valeria eterna admiração dos adeptos. Moss venceu a corrida e o seu rival pelo título, Hawthorn, foi penalizado pelos comissários desportivos devido a uma manobra proibida. Foi o testemunho de Moss que ilibou Hawthorn, que veria assim confirmado o terceiro lugar na corrida, que lhe valeu os pontos suficientes para se sagrar Campeão do Mundo de F1 em vez do honesto e cavailheresco Moss.

Era essa lenda do automobilismo que ia ali atrás de mim a contar-me histórias, bem disposto, à medida que o nevoeiro da Serra do Marão se abatia sobre a estrada para que o meu pânico atingisse o red line. Acho que nunca guiei tão devagar na vida. Lembro-me que até uma Zundap e uma Renault 4 L passaram por mim, como se estivesse parado.

«Tu és um condutor muito cauteloso», disse-me a mulher. Sir Stirling não perdeu a oportunidade de exercitar o seu humor britânico: «Sim, muito cauteloso. O único risco que se corria aqui era morrer de tédio.»

Finalmente lá chegámos ao hotel em Vila Real. A Susie, simpaticamente, agradeceu-me e disse: «Tu és um condutor muito cauteloso». Sir Stirling não perdeu a oportunidade de exercitar o seu humor britânico: «Sim, muito cauteloso. O único risco que se corria aqui era morrer de tédio.»

Sorriu e piscou-me o olho.

Eu merecia esta alfinetada no meu orgulho, mas a verdade é que antes isso do que ter tido um acidente com Stirling Moss.

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Leia AQUI a história da vitória de Stirling Moss no Circuito de Monsanto (Lisboa) em 1955 — numa prova que contou com Luiz Pacheco e Mário Cesariny entre os repórteres da imprensa a cobrir o evento. Curiosidade: nenhum deles percebia o que quer que fosse de automobilismo.

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