Solidariedade: confortar a saudade

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Tão longe e tão perto. Em Miranda do Douro, no distrito de Bragança, trinta por cento da população jovem está emigrada. Muitos só veem a família uma vez por ano. E os descendentes, que nasceram além-fronteiras, nunca vieram sequer à terra. Mas, graças às novas tecnologias e à Associação Leque, a distância encurta-se através de um click. De Trás-os- Montes a Nova Iorque, Sidney ou Cidade do Cabo, há pais que matam saudades de filhos e avós que conhecem netos.

Sorriem, emocionam-se, conversam, veem-se. Em Picote, uma aldeia do concelho de Miranda do Douro, Isabel da Cruz, 99 anos, pode falar com a neta Ana e ver a bisneta Sofia, em direto a partir do Reino Unido, graças a um computador ligado à internet.

O encontro é virtual mas tem o poder de um abraço e foi através dele que a quase centenária viu a bisneta pela primeira vez. «A menina está muito linda», diz. Pouco depois junta-se a filha, Margarida Vale, 68 anos. E chegam mais dois tios de Ana, emigrada em Inglaterra. «Tinha saudades de a ver», diz ela, deixando a promessa de vir a Portugal quando a avó fizer 100 anos, em novembro. Seguem-se acenos e beijinhos como se de um encontro pessoal se tratasse. Isabel da Cruz tem mais dois netos emigrados, em Moçambique e Inglaterra, com quem também fala através do Skype.

Em Duas Igrejas, uma aldeia próxima, outra avó espera ansiosa por mais um contacto. Teresa de Jesus tem 82 anos, enviuvou recentemente e tem uma sobrinha-neta emigrada em França. Depressa se juntam mais quatro familiares na sala de estar da casa. Apesar de viverem noutra freguesia, ninguém quis faltar à chamada.

 

Comunicar por internet com as famílias que emigraram, eis o projeto da Associação Leque para os séniores das zonas rurais.

Comunicar por internet com as famílias que emigraram, eis o projeto da Associação Leque para os séniores das zonas rurais.

 

Os responsáveis por estes encontros são os técnicos da Leque, Associação de Pais e Amigos de Pessoas com Necessidades Especiais, sediada em Alfândega da Fé. O projeto «Aproximar Avós e Netos – Transmontanos pelo Mundo», distinguido no final do ano passado com o Prémio BPI Seniores atribuído a instituições que promovam iniciativas de apoio à população idosa, pretende «dar conforto à saudade» e foi criado com o intuito de ajudar a combater o isolamento, atenuar a solidão e aproximar os mais velhos dos familiares emigrados, através de encontros mensais.

Com os 14 mil euros que receberam, compraram material informático e deram formação em novas tecnologias à população sénior das aldeias mais isoladas do interior transmontano. «Trinta por cento da população jovem de Miranda do Douro está emigrada», diz Celmira Macedo, presidente e fundadora da Leque. «Por isso decidimos permitir aos avós estarem mais próximos dos filhos e netos através de contactos realizados uma vez por mês.» E criaram também uma página no Facebook (www.facebook.com/groups/ mirandesespelomundo) para que todos se sintam mais próximos e para que a rede de contactos se prolongue após as ligações.

São aproximadamente trezentos os beneficiários desta iniciativa que engloba cinco freguesias do concelho. Têm entre 65 e 99 anos e foram previamente identificados por se encontrarem em situação de isolamento e terem familiares emigrados. O número não tardará a aumentar pois os avós são acompanhados de outros familiares que aproveitam o momento para ver os seus. Passam a palavra uns aos outros reunindo-se várias gerações num encontro que tem tanto de emocionante como de especial. «Em três anos, queremos chegar a dez freguesias de Miranda do Douro». Celmira Macedo, professora de Educação Especial de formação, faz-se acompanhar do psicólogo Fernando Traguedo e da psicomotricista Joana Lomba que, em regime de voluntariado, levam internet, trocam dois dedos de conversa e acabam por fazer companhia a estes idosos.

Quando a internet não coopera, estes encontros virtuais são realizados nas sedes das juntas de freguesia, onde a rede não prega partidas, para garantir que nenhuma ligação fica por fazer. Os contactos são antes combinados com as famílias e acontecem aos fins de semana devido às diferenças de fusos horários. Nem sempre é fácil conciliar agendas mas nada demove esta equipa. «Gostava que fizessem com os meus avós aquilo que estamos a fazer com os avós de alguém», diz a responsável.