Nuno Gama: «Na minha vida, não há nada mais importante do que eu»

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Um incêndio destruiu-lhe tudo, mas ele renasceu das cinzas.

A comemorar cinquenta anos de vida e de coleções, Nuno Gama abre as portas da sua «casa» e fala da infância, da adolescência, da família, do percurso e de como um incêndio, que quase o destruiu, o fez renascer.

A avó Bina, musa e guardadora de memórias em caixas antigas, foi quem primeiro lhe apresentou o mundo em objetos com histórias. A mãe, mulher de pele, incondicional no apoio, cujas cinzas traz sempre consigo, ensinou-lhe que o amor é o único caminho seguro. O avô austero e temível, foi sensível à vocação artística do neto ainda criança. O pai, menos dado a cedências, foi inspirador de desfiles e croquis que remetem para a infância feliz.

Fale-me dessa figura central na sua vida, avó materna, dona da Casa Cego, em Azeitão, doceira experiente.
Era uma mulher muito bonita. A explosão de uma máquina de galões deixo-a cega de um olho. Tinha um olho azul e outro cor de rosa, o que já de si era muito marcante. Era uma mulher muito vaidosa, muito elegante. No seu armário havia caixas e caixinhas que guardavam golas de vidrilhos, chapéus, a fotografia com esse chapéu num casamento do início do século, o sapatinho. Revisitava muitas vezes essas recordações. E dizia-me «sabes, os homens iam para as portas das igrejas na esperança de ver os tornozelos das raparigas, quando descíamos das charretes». Não sei de cor o ano em que nasceu. Sei que se lembrava da morte do rei D. Carlos e do primeiro carro em Azeitão. Era uma mulher fascinante. Contava-me da moda e de como foi evoluindo. A avó Bina ajudou-me a perceber a relação dos objetos com o mundo. Todos aqueles objetos tinham uma história.

Um especial.
Uma tesoura em prata e tartaruga que se dobrava sobre si própria. Para mim, com seis, sete anos, aquele objeto era fascinante, lindo. Conhecia-lhe a história. Fora mandada fazer pelo meu avô, e para mim aquela tesoura era um romance.

Onde está essa tesoura?
Ficou comigo. Mais tarde, oferecia-a a um grande amigo meu. Queria oferecer-lhe algo muito especial. E não tinha nada mais especial de que aquela peça. Falar disto, como pode ver-se, comove-me.

Assistiu ao seu crescimento como estilista?
Adorava. Acho que nunca vestiu nada feito por mim mas lembro-me de vir passar o fim-de-semana com imensos trabalhos do Citex e de ela ficar ao meu lado, em várias noitadas. A avó Bina dava-me aqueles abraços únicos. Depois de um abraço dela, a vida podia acabar que eu morreria feliz. A maneira como a avó e a minha mãe diziam que tinham saudades minhas é única. Eram ambas mulheres de pele.

Numa época em que se cultivava uma distância física entre pais e filhos, avós e netos.
Não senti nada disso. Mas também devo dizer que tivemos uma educação muito austera e rigorosa. À mesa não havia respiros. Era uma espécie de serviço militar e aplicava-se a toda a gente. Hirtos como uma barra de ferro. Antes de visitarmos o avô paternom, escovavam-nos os joelhos e as unhas com umas escovas horríveis que magoavam muito, punham-nos gel no cabelo e assoavam-nos bem. E lá íamos direitinhos pedir a benção. E tínhamos de sair logo. Contudo esse homem homem austero foi o primeiro a oferecer-me uma caixa de lápis de cor Caran d’Ache, com 36 lápis. Teve a sensibilidade para perceber que aquele neto gostaria daquele presente.

Qual é a imagem mais antiga de infância?
A avó Bina na Casa Cego, com as criadas a baterem os ovos em alguidares gigantes. E de a ver ficar fora dela quando elas afrouxavam o ritmo ou batiam a massa em sentido contrário ao inicial. Teria uns cinco, seis anos. A memória que tenho é excelente. De amor incondicional gigantesco da minha mãe, da minha avó, dos meus pais e dos meus irmãos. De muitas festas e jantares. Da Arrábida. As pessoas muito próximas de mim foram muito pouco recriminatórias. E isso é maravilhoso. A minha mãe e a minha avó e toda a família sempre me disseram: sonha, realiza-te, faz, vai em frente.

Um miúdo feliz?
A minha mãe dizia que eu tinha tanto de bonzinho como de diabinho. Tive sempre essa dualidade: miúdo difícil de aturar, mas com um lado mais tranquilo.

Difícil de aturar até que ponto?
Há uns anos, fui falar com alunos na escola onde fiz o ciclo. Os miúdos adoraram, fizeram muitas perguntas e estava tudo a correr muito bem. Às tantas, diz uma contínua do meu tempo: «Isso é tudo muito bonito, mas esse bandido foi o maior malandrão que por aqui passou».

Hoje, com 50 anos, o que diria a esse menino de 10?
Abraçava-o e agradecia-lhe. Digo isto e fico muito emocionado. Mas é de alegria. Por isso fiz a coleção Arrábida. Devia esse agradecimento. A minha essência foi toda absorvida na minha infância. Guardo a memória do rir, de ser abraçado, de ser desculpado. Recentemente, quando o meu pai morreu, tive a benção de assistir ao momento mais bonito da minha vida – a minha mãe, depois da cerimónia fúnebre, beijou o meu pai e agradeceu-lhe os filhos, a vida, o amor. Sessenta e tal anos depois. Nunca vi tanto amor na minha vida. Como é que eu pude estar tão longe disto durante tantos anos? Já houve quem tivesse sentido saudades minhas e mo dissesse. Mas como a minha mãe, nunca.

Esteve longe durante 26 anos. O regresso teve a ver com esse sentimento?
O regresso teve a ver com as saudades. Da Arrábida, do Meco, dos arrozes de marisco, dos coentros e das açordas. Da minha família. Depois de perder o meu pai senti um chamamento familiar. Coincidiu com o meu amadurecimento, com o fechar de alguns círculos, com a perceção de que por mais voltas que desse teria de voltar sempre às origens, ao que é importante, ao que sou. Percebi que no Porto já não conseguia voar mais.

Balanço só possível aos 50 anos?
Não o vi como tal. Não sei o que acontece aos outros mas no meu caso cheguei aos 50 a sentir-me um miúdo.

E sem rugas. Que creme usa?
Uso uma linha especialíssima – água gelada todos os dias.

Só?
É a verdade. O meu banho matinal é de água gelada. De verão e de inverno. Ao acordar, o café não me chega. Preciso daquele banho maravilhoso de água gelada. Na parte das frontes e dos olhos é milagroso. Revitaliza-me completamente.

E a que horas acorda?
Seis e meia, sete da manhã. Durmo pouco, talvez por ser tão stressado. A maior parte das pessoas acha que sou calmo e zen, passo essa imagem, talvez. Mas sou extremamente nervoso. E pior – estou sempre a arranjar lenha para me queimar.

O envelhecimento assusta-o?
Não tenho qualquer problema. Guardo com grande ternura a imagem da avó Bina, linda e sorridente. Tinha muito orgulho nas suas rugas. Por outro lado, acho que continuo a ser o mesmo menino.

Quantas horas de ginásio?
Neste momento, nem uma. E tão depressa não vou ter tempo.

E quando tem?
Cozinho, namoro, trato dos meus cães maravilhosos.

Um refúgio?
Eternamente, a Arrábida. Dediquei-lhe uma coleção e foi ali que tudo começou.

Quando soube que queria ser designer?
Não cresci com essa consciência. Eu e os meus cinco irmãos (sou o mais novo) tínhamos quilos de Lego e nos meus momentos mais calmos – que não eram muitos – fazia casas. Gostava muito de organizar o espaço. Acho que queria ser arquiteto.

Mas com 12/13 anos já fazia a sua roupa.
Nessa idade, fiquei este camiãozinho TIR simpático que sou, e numa altura em que os tamanhos dos sapatos se ficavam pelo 43, eu calçava já 44/ 45. As calças davam-me pelo tornozelo, as mangas não chegavam aos punhos, resumindo, era um problema. Para o resolver, a minha mãe passou a recorrer a costureiras. E de repente passei a dizer «gosto disto, não gosto disto» ou «quero ou não quero». Comecei a lidar com o gosto, com a cor.

Gostava de pintar?
Desde miúdo. Desenhava e pintava, tive sempre facilidade em lidar com a cor. A família percebia que havia uma veia artística. Os meus presentes eram caixas de lápis de cor, livros de arte.

Portanto, aos 12/13 anos, está a pensar em roupa.
E a fazer os meus primeiros fatos de banho, as minhas primeiras T-shirts. Que vendia à família e amigos. Começo a perceber que podia fazer daquilo um negócio.

Estava-se no início dos anos 1980. Seguia tendências?
Não. Tinha as ideias muito bem estruturadas. Sabia muito bem o que queria e não ia na conversa dos outros. O que despoletou esta veia têxtil foram os fatos de banho. Na altura, eram todos muito feios. Entrar na água e parecer que tinha engolido um paraquedas irritava-me muito. Queria um fato giro e meti mãos à obra. Fiz um fato de banho que me demorou muito tempo a pintar e que todos adoraram. Resolvi investir algum dinheiro e fiz vários, que vendi para a Mr. Wonderful, na loja das Galerias Paris. Foi o meu primeiro grande cliente. Foi de tal maneira um sucesso que a loja convidou-me para costumizar uns coletes que estavam encalhados. E foi outro sucesso. Depois, criei a T-shirt Lisboa, que ainda hoje é copiada.

E a logística?
Tinha o esquema muito bem montado. Cortava as camisas ou fatos de banho, pintava-os, secava-os num ventilador. Enfim, uma linha de produção que já controlava muito bem. Por fim, eram terminados por costureiras.

E nunca mais pensou em arquitetura. Vai para o Porto, estudar no Citex.
Eu e o Buchinho, que é de Setúbal e estudava no meu liceu. Nunca imaginei ir parar ao Porto e a esse curso. Eu sabia que tinha de fazer um curso que o meu pai aceitasse mais ou menos e me permitisse emancipar-me. Pensei fazer engenharia têxtil, adiando um curso de estilismo. Mas, entretanto, abriu o Citex e tudo se precipitou. Todos os dias esperava ansiosamente que o correio chegasse. Quando recebi a carta explodi de alegria em frente da família toda.

Como reagiu o pai?
Mal. Ir para o Porto cursar moda, nem pensar. Mas a família veio toda em minha defesa. Se era o que eu queria, então que fosse e que fosse muito bom profissional.

O Porto, uma cidade mais conservadora e fechada.
É verdade. O Porto era uma cidade muito elitista e fechada sobre si própria, muito hermética. Conta muito o local onde moras e de quem és filho. Para mim foi fascinante porque fazia um misto de menino bem e de enfant terrible. Sempre consegui conciliar. Há um lado em mim que tem a ver com aquele mundo, há outro lado que é livre. Não gosto que me chateiem. Apaixonei-me completamente pelo Norte. Tem algo que aprecio – a ligação às raízes, às linhagens, ao artesanato, às histórias. Guardam muito bem a essência. Fiz amigos muito rapidamente. Conheci gente maravilhosa, ainda hoje grandes amigos. Adaptei-me muito bem à cidade. Não precisei de partir a coluna para viver lá.

Sempre teve uma ligação forte à indústria.
No segundo ano do curso, o António Sá Ferreira, meu patrão mais tarde, foi fazer uma palestra ao Citex. E no final, disponibilizou-se a receber estagiários. Demorei 24 horas. No dia seguinte estava a receber o meu telefonema. E lá fui eu, com a minha mala gigante cheia de roupa e de desenhos. Acharam muita piada e deram-me trabalho. Fiquei encarregado de desenhar uma coleção e uma semana depois estava em Paris a escolher tecidos pela primeira vez. Quando acabei o curso, já fazia parte do mundo da moda.

Grande passo. Como é a sua natureza perante o desafio.
Nessa primeira viagem a Paris, à Première Vision, fiquei aflito. A feira é gigante. Depois, o medo foi passando. O medo é o nosso pior inimigo. Se o deixarmos entrar na nossa vida, estamos tramados. Acredito em mim. Não tenho uma religião, mas acredito que todos nós advimos de uma energia divina. E compete-nos regenerar essa energia. Isto, que pode parecer ridículo aos olhos de muitos, dá-me uma enorme tranquilidade em relação à vida. Por exemplo, sobre este evento que vai realizar-se no dia 28, a sensação de lutar contra a maré gigante. Não é fácil mobilizar os outros para uma causa. Mas não podemos ter medo de tentar. Temos de procurar fazer a diferença.

Em 1998, em duas horas perdeu tudo num incêndio no atelier, no Porto. Menino, bem protegido, sem dificuldades de dinheiro, como lida com a adversidade?
De um minuto para o outro, fui obrigado a olhar para a vida e a perguntar-me sobre o que vale realmente a pena. Um curto circuito e em duas horas ardeu tudo. As cerca de 10 lojas tiveram de fechar, foi uma festa. O seguro cobria apenas uma pequena parte. Pensei: «vamos lá mergulhar até ao fundo, ao lodo e tentar perceber o que nos magoa e deixa tristes e tentar relevar o que é importante». Ora, na minha vida, não há nada mais importante do que eu. Eu sou a minha obra. A vida encarregou-se de me dizer isto. Não seria a mesma pessoa se nunca tivesse tido um incêndio na minha vida. Não teria sido a mesma pessoa se não tivesse estado um ano e meio paralisado, depois de quatro cirurgias à coluna. Também em 98.

Ano duro.
Muito duro. Fui obrigado a respirar fundo, a crescer. À força. Ao murro e ao pontapé.

Acredita que foi a vida a pô-lo à prova?
Talvez. Sempre vivera no quadro perfeito. Achava que as tragédias faziam parte das famílias dos filmes e dos livros. Não fazia parte da minha. Nessa altura, as palavras da minha mãe foram muito importantes e ficaram a ressoar: «força, coragem, tu és um Gama e isso é uma responsabilidade. A resposta está em ti e um Gama nunca desiste». Isso é crescimento, é lucidez, é maturidade, e é amor.

É hoje melhor pessoa do que era?
Muito melhor. Muito melhor. A cada dia que passa gosto mais de mim.

E dos outros?
Dos outros já não espero nada. Já há muitos anos que deixei de esperar dos outros. Tento todos os dias dar o meu melhor porque isso tem que ver com o meu bem-estar. O que dou reverte para o meu bem estar energético. E é este perímetro de energia que quero manter à minha volta.

O meio profissional.
Vivo fora do meio. Recuso-me a convivência com determinadas situações que para mim não são saudáveis. Por isso, não entram na minha vida. Só tenho esta vida, tenho de viver feliz e de a partilhar com os outros da melhor maneira que sei. Há pessoas que batem a esta porta com um fito. Depois percebem que não irão levar daqui o que imaginam. Sou touro com ascendente escorpião, e cavalo de fogo, meço 1,91m e tenho mãos e braços enormes. Mas só os abro quando e para quem quero.

Casa: é no Porto ou em Lisboa?
Neste momento, estou perdido. A minha casa era o meu pai e a minha mãe. Já não os tenho. O meu pai, há três anos, a minha mãe há dois. Guardo a minha mãe comigo – uma parte das suas cinzas, num pequeno frasco que trago ao peito. Por vários motivos, a minha ligação com a minha mãe foi sempre mais forte do que a minha relação com o meu pai. Mas não conheço ninguém que tenha para contar uma história de amor como a minha.

Uma manhã de domingo perfeita.
Praia com os meus cães e se possível abençoado pela visita dos golfinhos.


Leia a primeira parte da entrevista a Nuno Gama: «Adoraria ter a possibilidade de vestir António Costa»


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