OPINIÃO

Gilberto Gil está de regresso a Portugal

«Cinquenta anos depois, posso dizer que deixei alguma marca na música brasileira.» As palavras são de Gilberto Gil, que nos dias 9 e 10 de março sobe ao palco do Campo Pequeno, em Lisboa, e no dia 11 se apresenta no Coliseu do Porto. Ao lado do nome maior do tropicalismo estarão Gal Costa e Nando Reis. Três figuras maiores da música brasileira em três concertos inéditos. Aos 75 anos, uma entrevista com o velho senhor dos palcos, na qual fala de Caetano e Maria Bethânia, da ditadura militar e do exílio em Londres, dos Beatles e da história de Portugal.

Entrevista de Alexandra Tavares-Teles

Três ases em palco, violões e vozes – que espetáculo é este que agora estreia em Portugal?
Quando nos foi sugerido que fizéssemos esse trabalho, e quando aceitámos fazê-lo, ficou combinado entre nós, especialmente entre mim e o Nando Reis, que é músico como eu, que ambos faríamos o acompanhamento harmónico e melódico do trabalho. E assim é. Para completar a formação instrumental convidamos apenas dois músicos, um contrabaixista e um percussionista, e essa será a estrutura sonora. Quanto aos temas, escolhemos canções já consagradas do repertório dos três. Essa é a abordagem geral do trabalho. Fizemos ainda três composições novas. Eu, uma, o Nando, a outra e, em conjunto, compusemos uma terceira. E assim será.

As salas estão praticamente esgotadas.
O público português manifesta sempre um carinho muito grande pela música brasileira e por todos representantes dela que se apresentam aí. Enquanto povos, temos traços conjuntos de vida e isso diferencia Portugal de qualquer outro país do mundo na relação com o Brasil. A origem brasileira está aí, na cultura lusitana, na terra lusitana. Somos resultantes das grandes navegações, empreendimento português de importância extraordinária para toda a civilização ocidental e para a formação do que hoje se considera a civilização global.

Tem família portuguesa?
Não, não tenho. Tenho, sim, na fronteira de Portugal com a Galiza. O sobrenome Gil vem daquela região.

Numa entrevista recente, Gal Costa diz que «Eu e Gil temos essa coisa de nos lançarmos nos abismos musicais». Fale-me desses abismos e dessas parcerias.
A música tem sido o elemento comum na nossa vida, o território sobre o qual caminhamos os dois. Evidentemente, pela força do encontro inicial e pelo desenvolvimento da nossa amizade e relação, houve também entre nós muita variedade de afetos e de sentimentos, mas o que tem prevalecido são estas duas coisas – a amizade entre os dois e o amor pela música.

«As novas gerações estão convencidas de que o meu trabalho prestou um serviço relevante à transformação da música no Brasil e que a nossa contribuição tem sido muito valiosa.»

Conheceram-se em 1966, em Salvador, apresentados por Caetano Veloso. Recorda-se do primeiro encontro?
Talvez não precisamente do primeiro encontro mas dos encontros que marcaram o início do nosso conhecimento. A Gal era vizinha da Dedé [Andreia Gadelha], que viria a ser mulher de Caetano Veloso, e tivemos um convívio muito intenso desde logo, porque tínhamos um gosto muito forte pela música brasileira de um modo geral e pela bossa nova, género que surgiu naquele momento, em particular. Então, a lembrança dos nossos primeiros encontros está muito ligada a isso. Lembro-me bem dos saraus musicais que fazíamos aos fins de semana. Eu, a Gal Costa, a Maria Bethânia e o Caetano Veloso. Precisamente o quarteto que faria, mais tarde, o espetáculo Doces Bárbaros.

Esse espetáculo é de 1976, dez anos depois do nosso primeiro encontro em Salvador. E já foi resultado do desenvolvimento das nossas carreiras.
Já tinha passado por vários momentos importantes. Por exemplo, já tinha atravessado com Caetano Veloso o tropicalismo. O papel primordial do tropicalismo foi mesmo a revolução da música popular, com a busca de novas sonoridades especialmente inspiradas pelo rock’n’roll, as novas correntes musicais que apareciam no mundo naquela época. Procurava também a produção de uma consciência brasileira sobre as suas próprias qualidades culturais. Foi essa a sua importância.

Quem era esse Gilberto Gil?
Um jovem muito impetuoso, muito apaixonado pela música, muito curioso em relação à dimensão cultural relativa à vida brasileira e ao mundo. E um trabalhador. Uma pessoa que gostava, e ainda gosta, de trabalhar.

O projeto Trinca de Ases nasceu em 2016 como uma homenagem a Ulysses Guimarães – um dos principais opositores à ditadura militar brasileira. O tropicalismo acabaria por levá-lo a si e a Caetano Veloso à prisão. Fale-me desse tempo.
A prisão representou o elemento traumático e instigador de mudança e transformação na vida. Mas também a oportunidade de viver novas experiências. A macrobiótica, o ioga, a busca de autoaperfeiçoamento, tudo isso foi iniciado na prisão. Ao lado mau juntou-se a oportunidade para um crescimento existencial.

Antes de partir para o exílio despede-se do Brasil com Aquele Abraço. Foi uma despedida dolorosa?
Essa música foi gravada na véspera da minha partida para Portugal, a caminho de Londres. E foi escrita umas semanas antes, quando fui de Salvador ao Rio para acertar com as autoridades a minha saída.

«O Caetano refere sempre a influência musical que tive sobre ele. E houve uma influência do Caetano sobre mim, não só do ponto de vista musical.»

O exílio significou também alívio?
Havia sinceramente um certo alívio. Tínhamos passado um período de prisão, outro de confinamento, e a saída era um alívio. Mas também uma interrogação sobre como seriam os novos tempos fora do Brasil e quando haveria condições para um dia regressar.

Tantos anos depois, o que ficou do exílio?
A vida de Londres, a extraordinária força da música popular, os Beatles, os Rolling Stones, tudo aquilo foi fundamental para o meu crescimento como artista.

O encontro com Caetano Veloso é um marco. Ambos dizem que foram muito marcados pelo outro. Que marcas são essas?
O Caetano refere sempre a grande influência musical que tive sobre ele. E eu, em contrapartida, diria que houve uma extraordinária influência do Caetano sobre mim, não só do ponto de vista musical. Também do ponto de vista cultural em geral, com toda a excecionalidade da personalidade dele, como artista, amante do cinema, amante de literatura, amante das artes em geral, da poesia em particular. Tudo isso teve um impacto extraordinário na minha vida, de modo a poder ser dito que não haveria Gil nem o artista que eu passei a ser se não tivesse encontrado o Caetano.

E depois há João Gilberto, a figura central do seu percurso.
Do meu e da dos meus contemporâneos. Muitos dos artistas surgidos na segunda metade dos século passado, nos anos 60 e 70, foram profundamente marcados pela extraordinária contribuição, pela nova maneira de abordar a música brasileira, de João Gilberto. Sim, ele é talvez a maior referência para mim, para Caetano, para a Gal Costa, para nós e para a nossa geração. Uma referência, no sentido da grande força inovadora e transformadora que o trabalho dele, o seu modo de cantar e tocar guitarra, teve.

E que marca deixa Gilberto Gil na música brasileira?
Hoje, colocando em perspetiva os 50 anos de trabalho desenvolvido, com várias intervenções no campo da música popular no Brasil, posso dizer que deixámos alguma marca, alguma contribuição. As novas gerações estão convencidas de que o meu trabalho prestou um serviço relevante à transformação da música no Brasil e que a nossa contribuição tem sido muito valiosa. Desenvolvemos um estilo próprio de composição, de interpretação e de manuseio da guitarra, nos abrimos a influências múltiplas da música pop mundial – que deu também uma contribuição importante para as transformações da música no Brasil. Posso dizer que sim, que tivemos uma contribuição bastante relevante.

Deu concertos em palcos de todo o mundo. Quando pensa num apenas, pensa em qual?
Na minha apresentação no Festival de Montreux, em 1978, que deu início a uma carreira internacional que cultivo até hoje.

E em momentos-chave da sua vida?
Os essenciais são os mais simples: a minha infância, no interior da Bahia, quando tomei contacto com a música dos camponeses. Depois o contacto lá pelos 10, 12 anos com a vida urbana da cidade de Salvador. Depois o início como músico, aprendiz de acordeão e violão. E o encontro com os colegas Caetano, Bethânia e Gal Costa. Depois, a vinda para o Sul. Daí decorre o resto da história que é já conhecida [risos].

A entrevista foi interrompida porque o músico tinha um avião para apanhar. Ficaram várias perguntas por fazer, nomeadamente os tempos em que foi ministro da Cultura
e o atual momento político do Brasil. Gil prometeu a segunda parte para breve.

Discografia essencial

  • Gilberto Gil, 1968
    Segundo álbum de Gil, marco do tropicalismo. O cantor interpreta clássicos como Domingo no Parque, Marginália II e Frevo Rasgado.

  • Expresso 2222, 1972
    O regresso à raiz brasileira, reforçada em regravações de Gordurinha (Chiclete com Banana) e João do Vale (O Canto da Ema). Destaque para Expresso 2222, Oriente e Back in Bahia.

  • Doces Bárbaros 1976
    Gravado ao vivo, com Caetano, Gal Costa e Maria Bethânia. Interpreta canções até então inéditas como Esotérico e Um Índio. Das composições de Gil, destaca-se O Seu Amor.

  • Refavela, 1977
    Segundo disco da trilogia, que começou com Refazenda (1975) e terminaria com Realce (1979). É considerado o trabalho mais «africano» de Gil.

  • A Gente Precisa Ver o Luar, 1981
    Após o sucesso de Realce, o disco mais vendido até então, o trabalho tem todas as caraterísticas do Gil dos anos 1980: apelo pop e um toque de reggae.

  • Banda Larga Cordel, 2008
    Dezasseis canções inéditas, lançadas primeiro na internet e disponibilizadas para remix, pouco antes de pedir demissão do Ministério da Cultura.

  • Banda Dois 2009
    Gravado ao vivo num teatro em São Paulo, Gilberto Gil canta alguns de seus clássicos ora acompanhado só de seu violão ora também com o violão de seu filho, Bem Gil.

O artista político

Começou pelo acordeão nos anos 50 do século passado, ainda criança, inspirado pelo som da rádio e da banda de música que marcava os festejos da santa padroeira da pequena cidade baiana onde vivia. Com João Gilberto e a bossa nova descobriu o violão, que, juntamente com a guitarra elétrica, marcaria até hoje as suas melodias. Nascido em Salvador em 1942, Gilberto Gil, o cantor, o compositor, o multi-instrumentista, o produtor cultural, soube cedo que a música era a sua linguagem.

Em 1963, aluno do curso de Administração de Empresas, conheceu Caetano Veloso. Cinco anos depois, em pleno regime militar, liderava com o amigo o movimento tropicalista, revolução musical assente na plena diversidade cultural brasileira, destinada a «chocalhar os extratos convencionais artísticos». A subversão levá-lo-ia à prisão – e depois ao exílio, em Londres, onde recebeu influência ainda maior da pop que despontava na época, marca indelével na sua obra, gravando um disco com canções em português e inglês.

Em 1972, de regresso ao Brasil, deu continuidade à produção fonográfica: mais de cinquenta discos, com quatro milhões de cópias vendidas. E no palmarés, nove Grammys. Gilberto Gil nunca escondeu o engajamento político. Vereador na Câmara Municipal de Salvador pelo Partido Verde entre 1989 e 1992, foi nomeado ministro da Cultura, em 2003, pelo então presidente Lula da Silva. Saiu em 2008 para se dedicar de novo à carreira. O governo francês concedeu-lhe a Ordem Nacional de Mérito (1997) e recebeu da UNESCO, em 1990, o título de Artista pela Paz.

Em 2003, Lula da Silva vence as eleições presidenciais no Brasil e anuncia que Gilberto Gil será o novo ministro da Cultura. O cantor permanceu cinco anos no cargo.

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