OPINIÃO

As brasileiras de Prazins

Os gerentes do intolerável comércio foram agora formalmente acusados pelos crimes de lenocínio e auxílio à imigração ilegal, no seguimento da rigorosa investigação levada a cabo pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (cujos desgraçados agentes infiltrados foram aliciados a adquirir garrafas de champanhe a 150 euros a unidade).

Entre os diversos vícios que apascento na vida, e me consomem o tempo, contam-se o gosto pelos livros e a curiosidade pelas notícias de casos soezes.

São defeitos tão condenáveis como quaisquer outros, pústulas éticas menores num tempo em que ética vale menos do que um quartilho de mau vinho.

Reparei, por isso, na notícia que trazia o Jornal de Notícias do transacto dia 6 de Dezembro, cujo título, «Inspetores do SEF ‘infiltram-se’ em bar de alterne», prometia per se enlamear-me de humanidade e emoção: uma vintena de mulheres, sobretudo brasileiras e venezuelanas, trabalharam até 2015 num prostíbulo de Prazins, prestando serviços sexuais pela módica quantia de cinquenta euros por cada trinta minutos.

Os gerentes do intolerável comércio foram agora formalmente acusados pelos crimes de lenocínio e auxílio à imigração ilegal, no seguimento da rigorosa investigação levada a cabo pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (cujos desgraçados agentes infiltrados foram aliciados a adquirir garrafas de champanhe a 150 euros a unidade).

Ocorreu-me, a propósito deste caso vil, um romance de Camilo Castelo Branco cuja acção decorre precisamente na minhota localidade de Prazins e envolve também uma «brasileira» (portuguesíssima aliás). O caso antigo e literário é bastante diverso do actual, mas nem por isso menos soez.

Conta a história de Marta, vendida como uma «vaca amarela» pelo próprio pai ao Zeferino de Lamelas por «um conto quinhentos e pico». Infeliz como um círio, Marta acaba, todavia, entregue a um tio, repentinamente retornado do Brasil e bastante incapaz para as coisas do amor, mas que viola a rapariga quando ela cai inconsciente, tomada de um ataque epiléptico.

Desconheço naturalmente se Camilo inventou o que escreveu n’A Brasileira de Prazins ou se transplantou para ali um conto ocorrido noutro sítio. Sei, todavia, que, a despeito da frequente lamúria sobre a degenerescência contemporânea dos costumes, as torpezas da Prazins novelesca de Oitocentos não ficam a dever nada às de 2015.

Acresce que Marta e o seu tiraníssimo pai são matéria romanesca de muito boa qualidade, enquanto as brasileiras de agora, embora vítimas de um crime hediondo, mal chegaram a merecer uma notícia de jornal e uma crónica: quase nada.