OPINIÃO

Xistos, grutas e impossíveis

Continuo a remoer. Se o primeiro carola que se deparou com o impossível tivesse parado por aí, ainda estaríamos a viver sobre quatro patas, pendurados nas árvores. Não teria mal, claro. Até gosto muito de bananas e de me baloiçar nos ramos. Mas adoro música e não se conhece, na família alargada a que pertencemos, um símio que cante.

Aquela coisa de com as pedras construirmos castelos é mesmo assim, penso, enquanto deambulo pelas estradas de curvas e contracurvas que serpenteiam a serra do Açor, à procura de poiso para dormir.

Chegamos e são duas casas de xisto. Aquela natureza rebelde, tão linda como bruta, deixou-se amansar e da sua dureza alguém fez lar. Valorizo quem olha para algo inóspito, quer seja uma ideia ou uma paisagem e não se axandra. Acha mesmo boa ideia pegar naquele material bruto e selvagem e transformá-lo em algo habitável. É preciso coragem e deve ser por isso que nos perdemos de amores pelos super-heróis, pela audácia de se borrifarem para impossíveis e difíceis.

Continuo a remoer. Se o primeiro carola que se deparou com o impossível tivesse parado por aí, ainda estaríamos a viver sobre quatro patas, pendurados nas árvores. Não teria mal, claro. Até gosto muito de bananas e de me baloiçar nos ramos. Mas adoro música e não se conhece, na família alargada a que pertencemos, um símio que cante.

Portanto: das grutas de pedra para as casas de xisto passaram milhares de anos de impossíveis possibilitados pela força de vontade e pela coragem. Parece um avanço tímido, mas não é. Nas grutas de pedra não havia água canalizada, nem aquecimento central. Tínhamos medo de encontrar um urso a sair do sono de hibernação, agora trazemos cães e gatos para dentro de portas.

Pois, portas também não as havia nas grutas. Bendita a cabecinha que pensando nos conceitos de privacidade e segurança se lembrou de inventar uma parede que se abre e fecha a gosto dos que detêm o abre-te sésamo dos tempos modernos a que chamamos de chave.

Só um reparo à expressão das pedras e dos castelos: sou mais pessoa de apartamento. Isso de construir castelos é muito lindo, mas aquecer tanto metro quadrado no Inverno é chato e dispendioso. E a coisa do fosso cheio de água e dos dragões que deitam fogo também é capaz de causar alguma má vizinhança. Assim como assim, já cá mora um príncipe encantado, que é o mais importante para os finais felizes.

Que venham esses impossíveis e essas agruras, pedra e cal das propriedades imobiliárias que irei construindo pela vida fora. Se forem tão mimosas como as casas de xisto onde dormi outro dia, já fico feliz.