Ressuscitaram a cotovia

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Atticus é um nome de que gosto e me comove. Por igual razão, nos anos 1960, muitos americanos chamaram Atticus ao seu filho. Também tinham lido o romance da americana Harper Lee, em que Atticus Finch era o advogado que defendeu um negro acusado injustamente de ter violado uma branca no Sul profundo da América.

O livro em português chamou-se Por Favor, não Matem a Cotovia e, em edições recentes, Mataram a Cotovia. No original era To Kill a Mockingbird, o que não se podia traduzir porque os mockingbirds são pássaros cantadores das Américas, não há por cá. Escolheu-se a cotovia porque o seu canto também enche os nossos campos. O filme, de 1962, inspirado no romance, chamou-se Na Sombra e no Silêncio em português. Mas ninguém se lembra desse título, repete-se os do romance, em inglês ou em português, numa rara vitória popular da literatura sobre o cinema. Em todo o caso, em matéria de títulos quem fez melhor foram os italianos que chamaram, ao livro e ao filme, Il Buio Oltre la Siepe, A Escuridão para lá da Sebe – não ver o vizinho é o pecado capital…

Era raro ver os negros na sociedade americana, sobretudo nos estados do Sul, em 1930, na década em que decorre a história. No amarrado de preconceitos Alabama, o olhar compassivo e justo de Atticus Finch foi o sal da terra de gerações que tiveram a bênção de o conhecer quando o livro foi lançado, em 1960. Por uma coincidência (que a História já nos ensinou tantas vezes não o ser), nesse ano abriu-se a década em que políticos inteligentes e líderes visionários (John Kennedy, Lyndon Johnson, Luther King…) transformaram movimentos nobres em conquistas políticas e sociais. Por Favor, não Matem a Cotovia deu um contributo que chegou tão longe como a minha casa, de garoto luandense, numa cidade de brancos e negros, também muito cega. Como a miúda Scout que narra o romance ouviu do seu pai Atticus, o pecado maior é matar o inocente, a cotovia, de belo canto e que só come vermes e não estraga as colheitas.

Nesta semana, Harper Lee, de 89 anos, retirada há muito do mundo e 55 anos depois do seu primeiro e único livro (de descomunal sucesso mundial), lançou outro livro, o outro seu livro. Go Set a Watchman é um título poético e bíblico, tirado duma frase do profeta Isaías, vamos esperar pela surpresa que os nossos tradutores cunharão na capa. Entretanto, já se sabe que as personagens principais continuam a ser as de Por Favor, não Matem a Cotovia, Scout e o pai Atticus. Mas a garota já tem vinte e tais e perdeu o nominho de casa, agora é Jean Louise, vive em Nova Iorque e regressa à cidadezinha Maycomb que a escritora inventou para os dois livros, inspirada naquela em que Harper Lee nasceu, no Alabama. O pai, Atticus Finch, está velho e doente. Mas o segundo livro não é uma sequela, a consequência duma causa. É simplesmente outro livro.

Em Go Set a Watchman, o velho Atticus – o nosso querido e inspirador Atticus – é racista e segregacionista. «Queres pretos nos transportes escolares, nas igrejas e nos cinemas? Quere-los no nosso mundo?», lança à filha que vinha com ideias modernas de Nova Iorque. As perguntas são horríveis mas não anacrónicas. Harper Lee escreveu o seu «segundo» livro a meados da década de 1950. Afinal, antes do primeiro. Na vida real, em 1955, em Montgomery, capital do Alabama, a negra Rosa Parks sentou-se no banco reservado a brancos, num autocarro, e recusou levantar-se. A História começara a andar. Deus, como todos os romancistas, Harper Lee permitiu-se baralhar o seu Atticus. Começou com ele racista e pô-lo a marinar durante décadas. Entretanto, serviu-o luminoso no primeiro livro que publicou, Por Favor, não Matem a Cotovia. Deixou passar uma vida e desenterrou o primitivo em Go Set a Watchman. Os romancistas escrevem direito por linhas tortas e têm o dever de nos mostrar toda a paleta do mundo.

[Publicado originalmente na edição de 19 de julho de 2015]