José Luís Peixoto José Luís Peixoto

Ópio

Mudaram o significado da palavra. Passou a significar uma espécie de insulto, um tema acerca do qual se tem vergonha. Agora, quem vê televisão tem de inventar desculpas – estava no café e, por acaso, vi. Os mais novos talvez não se recordem, mas, antes, a televisão era um espaço respeitável, onde se aprendia alguma coisa.

É impossível aguentar mais publicidade àqueles números de valor acrescentado. Por favor, parem de repetir esses números. Por favor, arranjem uma maneira de ganhar dinheiro que não implique tentarem hipnotizar-nos de dez em dez minutos.

Os telejornais demoram cerca de uma hora e meia. Os intervalos para publicidade não se sabe quanto tempo podem demorar, depende. As telenovelas são um isco, podem ser alargadas, encolhidas, mudadas de horário, consoante a programação dos canais concorrentes.

Há pouco tempo, por falta de audiências, expulsaram uma casa inteira de inquilinos de um reality show e, em poucos dias, substituíram-nos por outros. Isto aconteceu, foi transmitido na televisão e ninguém pareceu indignar-se.

Televisão por cabo? Em certas noites, há quatro canais seguidos a darem programas iguais, onde assuntos ligados aos clubes de futebol são discutidos por homens – facciosos orgulhosos do seu facciosismo. Os canais de documentários passaram a canais de reality shows vagamente ligados ao tema original do canal: história, comida, natureza.

A guerra das audiências, do dinheiro, é explícita, mataram-se todos os pudores. Hoje, a televisão é uma espécie de selva. Temos crianças, temos responsabilidade. As crianças preferem açúcar a sopa, mas será que podemos alimentá-las apenas com açúcar? Este é o tempo em que, na televisão, como no supermercado, é preciso procurar muito para encontrar alimentos sem açúcar – glicose, sacarose, maltose, etc.

Aquilo que o povo quer? Embebedaram o povo. Foram vender droga para a porta das escolas do povo. Disseram ao povo que era só para experimentar e, depois, era demasiado tarde. Qual o discernimento de um toxicodependente?

[Publicado originalmente na edição de 12 de março de 2017]