OPINIÃO

Em defesa de Melania e do fim dos clichés

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A primeira-dama americana não precisa de ser salva. E está a marcar uma posição de força com a sua ausência.

Todas as unanimidades são burras e todos os clichés são estúpidos. E giro, giro é quando os clichés dão a volta àquilo que esperávamos deles. É assim com Melania Trump, a nova primeira-dama americana. Pelas razões que se conheciam, e que os vídeos do «agarrá-la pelo pipi» só pioraram, como mulher de Donald Trump, Melania partia para esta fase da sua vida em fragilidade. O que seria um escrutínio normal no ambiente público americano – para ela seria sempre um escrutínio enviesado, ela estava em posição de desvantagem, era a mulher do misógino. A imagem do eleito marido punha-a à prova – como pessoa e como mulher.

O que tem a dizer do vídeo do seu marido a gabar-se de agarrar mulheres pelas partes íntimas, perguntaram-lhe. Conversa de rapazes, respondeu ela. Caiu-lhe tudo em cima. Estes não são tempos em que a opinião pública se contente com uma primeira-dama disponível para ser um objeto, intervindo apenas na decoração dos interiores da East Wing – a ala da Casa Branca dedicada às famílias – ou acompanhando o marido com vestidos vistosos em jantares oficiais. Estes são os tempos pós-Michelle Obama, Hillary Clinton – que beberam em Eleanor Roosevelt.

Só que a verdade é que Melania está a trocar as voltas a todos os clichés. Seráfica e gélida, quase não fala. Não dá nem um sinal aos media. Não produz opiniões, nem concordando. Os meios de comunicação social contrataram especialistas em comportamento para analisar as suas reações na noite da tomada de posse porque não lhes restava mais nada para construir a imagem desta família. E a imagem de uma família interessa? Nos EUA, sim. «Precisamos de informação», gritam os jornalistas, viciados em hiperanalisar a realidade política nos pequenos sinais. Moita.

Melania não foi morar para a Casa Branca – é a primeira, desde Abigail Adams, no século xviii, a não fazê-lo. E isso é, para todos os efeitos, uma coisa corajosa de fazer. Está em Nova Iorque, na sua vida – que é ser mãe, o que não é algo que associemos a feminismo, mas, neste caso, é extremamente feminista. Está a passar uma mensagem forte, a de que fará o que lhe apetecer e achar melhor para a sua família, independentemente do que o marido quiser, ou mesmo precisar.

E Trump precisava mesmo. Apesar de ter uma taxa de aprovação baixíssima – 37 por cento contra sempre mais de 55 por cento de Michelle Obama, Laura Bush ou Hillary Clinton –, Melania era importante para amaciar a dura imagem pública do presidente. O que também é interessante na conduta de Melania é que ela está a abdicar – para já, note-se, não quer dizer que o vá continuar a fazer – do grande poder que tem na posição em que está. Um poder de influência, é certo, mas um poder em todo o caso. Porque o fará, ninguém percebeu muito bem. Talvez não queira – mas, mais uma vez, está a ter uma força que mais ninguém teve. E, ao fazê-lo, está a alterar o cliché da primeira-dama, uma expressão que contém em si o estigma do segundo plano. E isso já ninguém lhe pode tirar.

[Publicado originalmente na edição de 12 de fevereiro de 2017]