OPINIÃO

Chocólatras: este é o nosso dia

Comer a caixa inteira em vez de um só bombom? Hoje podemos, afinal é Dia Mundial do Chocolate.

A primeira e única vez que Rita Sousa comeu três tabletes numa tarde, de avelãs inteiras, a derreter sob o céu-da-boca, foi quando estava grávida do filho, há quatro anos. «O chocolate é um vício para mim, não lhe resisto. Posso passar sem bolos, sem gelados, o que for, mas nunca sem chocolate», confessa, algo envergonhada com os excessos em que se apanha com frequência. Saboreá-lo é um deleite para os sentidos desde miúda, quase voluptuoso. Adora aquela textura rica, apesar de também a fazer sentir-se um bocadinho culpada.

«As três tabletes foram um episódio isolado e não acabaram em celulite nas coxas, mas estou sempre à espera que o meu metabolismo deixe de colaborar. Como chocolate todos os dias e nunca me fico por um quadradinho: vai fila atrás de fila até desaparecer. Sou uma chocólatra assumida.»

O palavrão é difícil de pronunciar e ainda mais difícil de arrancar do corpo, uma vez as calorias instaladas. A boa notícia é que tanto prazer não tem de se restringir aos chocólatras magros, segundo o nutricionista Alexandre Fernandes, autor do livro Dieta do Chocolate (da Planeta Editora). É perfeitamente possível perder até seis quilos em 21 dias comendo chocolate diariamente, diz.

«Parece contraditório, mas alguns estudos científicos concluem que as pessoas que fazem uma alimentação equilibrada, praticam exercício físico regular e comem chocolate frequentemente, conseguem uma maior redução do índice de massa corporal, logo do peso corporal.»

O segredo é a ingestão moderada, de preferência de um que contenha no mínimo 70% de cacau, revela o especialista, aconselhando bom senso na hora de escolher e consumir, sem cair na tentação dos deslizes. Isso e concentrar-se a 100 por cento no chocolate enquanto está efetivamente a apreciá-lo, para não ficar a pensar nele no resto do tempo.

«Comê-lo em excesso todos os dias pode acabar com a dieta. Treine a mente, as emoções e o corpo quando estiver a saborear a quantidade de chocolate permitida [difere de homens para mulheres]. Ao fim de algum tempo vai acostumar-se às pequenas quantidades e sentir-se-á orgulhoso e confortável.»

Falar em controlo é fácil, o difícil é resistir, replica José Dias, outro viciado assumido. ; «Há umas semanas comprei sete pacotes de Maltesers para oferecer às crianças da família – dava um jantar em minha casa na noite seguinte, quis fazer o mimo – e comi-os todos sozinho.» Nem ele sabe explicar bem aquele sentimento de realização que o preenche a comer chocolate: «É qualquer coisa entre a gula e o erotismo.» Se puder degustar ambos em simultâneo, tanto melhor.

Conta a história que terá sido por volta de 1500 a.C. que este prazer divino, obtido a partir das sementes fermentadas e torradas do cacau, começou a ser consumido numa base regular pela civilização Olmeca, instalada nos atuais estados mexicanos de Tabasco e Veracruz. Maias e Astecas seguiram-se-lhe na região e no hábito de beberem o chocolate quente e amargo, uma riqueza reverenciada por todos. Os Descobrimentos encarregaram-se da divulgação: quando os espanhóis chegaram ao México no século XVI e viram o potencial do cacau, trataram de o introduzir na Europa, onde o misturaram com açúcar e especiarias. Tornou-se um luxo a que só uns poucos endinheirados podiam deitar o dente.

Em 1828, o engenheiro e chocolateiro holandês Coenraad van Houten iniciou uma revolução ao descobrir um método para extrair a manteiga dos grãos e transformar o restante num pó de cacau fora de série, menos amargo e mais solúvel. Foi um salto até se industrializar a produção de bebidas achocolatadas e chegar às barras como hoje as conhecemos. Em 1937, já o seu efeito energético e antidepressivo era reconhecido pelo exército norte-americano e integrado na ração dos soldados que partiam para a guerra.

E o que é que o chocolate tem, afinal? «Consumido com moderação é um verdadeiro elixir de alegria e prazer com a vida e com os outros», confirma o nutricionista Alexandre Fernandes, pormenorizando os benefícios: é rico em flavonoides que atuam como antioxidantes e protegem dos radicais livres, melhoram a circulação sanguínea, previnem o envelhecimento e evitam doenças (sobretudo cardiovasculares e diversos tipos de cancro); contém vitaminas e sais minerais; acelera o metabolismo, a redução de gordura corporal e mantém a pele saudável.

«As quantidades de antioxidantes encontradas no chocolate são cerca de oito vezes superiores às do morango, por exemplo. Promove ainda uma sensação de relaxamento e bem-estar, ao ajudar a produzir e libertar serotonina no organismo, além de inibir o apetite se consumido em jejum pela manhã.»

Na nossa fotogaleria damos-lhe algumas dicas para comê-lo de forma saudável, tiradas do livro Dieta do Chocolate. E, claro, deixamos-lhe a nossa receita de bolo de chocolate infalível. Vai uma dentadinha?

Ana Pago
Fotografia: Shutterstock