OPINIÃO

Sabe o que é a meningite e como proteger a família?

É uma doença grave, de rápida progressão, com sintomas iniciais que facilmente se confundem com os de uma gripe. Cerca de 70 por cento dos casos ocorrem antes dos 5 anos e a prevenção através da vacinação é a forma mais eficaz de controlá-la. No Dia Mundial de Combate à Meningite que hoje se assinala, Mónica Cró Braz, pediatra do Hospital CUF Descobertas, diz-lhe tudo o que precisa de saber sobre esta doença que mata uma pessoa no mundo a cada oito minutos.
meningite

O que é a meningite?
A palavra meningite deriva do grego meninx (meninges) e ite (inflamação). É, assim, uma inflamação das meninges, membranas protetoras do cérebro e da medula espinhal que, pela sua proximidade com estas estruturas vitais, pode ter efeitos devastadores.

Muitos pais não sabem, mas pode conduzir à morte em 24 horas ou deixar sequelas para toda a vida. Com a agravante de os sintomas iniciais poderem facilmente confundir-se com os de uma gripe, o que torna esta doença ainda mais perigosa…
A meningite bacteriana é uma doença aguda, rapidamente progressiva e que pode conduzir à morte em pouco tempo. Os sintomas iniciais podem ser frustrantemente parecidos com outras doenças banais, como febre, dores de cabeça e musculares, sonolência, náuseas, mas a criança rapidamente fica prostrada ou irritada, com sensação de doença, e podem aparecer manchas na pele que não desaparecem com a pressão do dedo e devem alertar os pais. Sintomas clássicos como a fobia à luz ou não dobrar o pescoço não são evidentes em crianças pequenas.

Mónica Cró Braz meningite
Mónica Cró Braz, pediatra e mãe, alerta para a importância da vacinação na prevenção da meningite.

Quais os diferentes tipos de meningite que existem?
As causas mais comuns de meningite são as provocadas por vírus (geralmente menos graves) e por bactérias. Em alguns doentes, sobretudo com doenças crónicas e/ou alterações de imunidade, os fungos e os parasitas podem também causar a doença.

E as causas? Nomeadamente da meningite bacteriana, mais comum em Portugal?
A meningite pode ser causada por diferentes bactérias sendo as principais o Haemophilus influenzae tipo B, o pneumococo e o meningococo. A incidência de meningite bacteriana reduziu muito nos últimos anos devido à introdução de vacinas contra estes micróbios no nosso Programa Nacional de Vacinação. Em Portugal, à semelhança do que acontece noutros países europeus, o pneumococo e o meningococo B são as bactérias que mais circulam.

Vacinação sim, sempre? E quando?
Vacinação sempre, de todas as vacinas do Programa Nacional de Vacinação, bem como de algumas vacinas extraprograma, de acordo com o aconselhamento do médico assistente. Existem muito poucas contraindicações e não se deve adiar a realização de vacinas por se estar com febre, constipado ou diarreia.

Qualquer pessoa pode ter meningite? Quais são os grupos de risco?
A ciência ainda não tem resposta completa para esta pergunta. Hipoteticamente, qualquer pessoa pode ter meningite, mas pensa-se que poderá haver algum tipo de proteção genética em algumas pessoas. De qualquer modo, no que diz respeito à meningite bacteriana, os grupos de risco são crianças abaixo dos 5 anos, adolescentes, idosos e algumas pessoas com doenças crónicas ou com deficiências de imunidade. As pessoas vacinadas estão protegidas contra vários tipos de bactérias causadoras de meningite.

O que fazer quando a doença ataca? O tratamento é idêntico em bebés/crianças e nos adolescentes/jovens adultos? Ou existem diferenças significativas a ter em conta consoante as idades?
Na suspeita de um caso de meningite, deve dirigir-se ao hospital onde, de acordo com a história clínica, observação e exames, esse diagnóstico será confirmado ou excluído. Na meningite viral, o tratamento geral é de suporte (baixar a febre, hidratar), mas na bacteriana administrar os antibióticos o mais cedo possível é crucial no tratamento e no prognóstico da doença, em qualquer idade.

E as possíveis complicações e sequelas? Também são idênticas nos diferentes grupos de risco ou divergem conforme as idades em causa?
Existe maior risco de complicações em crianças com doenças crónicas ou deficiências na imunidade, mas estas podem acontecer em qualquer pessoa e idade e traduzem-se em infeção do cérebro, convulsões, trombos nas veias cerebrais, para além da morte. As sequelas da doença podem ser cegueira, surdez, paralisia cerebral, epilepsia, amputações, insuficiência renal e outras.

Segundo dados nacionais dos últimos dez anos, os casos referentes ao meningococo do grupo B têm vindo a crescer: 81 por cento em 2012 face a 47 por cento em 2003. Que fatores explicam este aumento?
É preciso explicar que os números de meningite bacteriana em Portugal diminuíram de forma significativa nos últimos anos. O aumento do meningococo do grupo B justifica-se pela diminuição do meningococo do grupo C desde que esta vacina foi incluída no Plano Nacional de Vacinação.

O que é que todos os pais, sem exceção, devem saber ao nível da prevenção? Como podemos proteger os nossos filhos?
Os pais devem vacinar os seus filhos sem atraso ou hesitação, exceto em situações clínicas muito específicas indicadas pelos médicos assistentes. Devem ainda, como na prevenção de todas as doenças, ensinar os filhos a realizar uma boa higiene das mãos, a não espirrar ou tossir para cima de outros e não levá-los para a creche/escola quando estão doentes. Em www.prevenirameningite.pt poderão encontrar mais informações sobre a prevenção.

Ainda assim, o Programa Nacional de Vacinação não contempla todas as vacinas destinadas ao combate e prevenção da meningite bacteriana. Quais estão incluídas ao certo?
Inclui vacinas contra o Haemophilus influenzae do tipo B, 13 tipos de pneumococo e meningococo do grupo C.

E o que aconselha os pais a fazer relativamente às vacinas contra a meningite extra Plano Nacional de Vacinação? Como pediatra e como mãe?
A vacina contra o meningococo do grupo B existe desde 2013 e faz apenas parte do plano de vacinação inglês e irlandês. Nos restantes países europeus é facultativa mas, dada a gravidade da doença, é recomendada por sociedades de pediatria, sobretudo nas faixas etárias abaixo dos 5 anos e em adolescentes, embora seja eficaz e segura em qualquer idade. Como mãe e pediatra recomendo esta vacina, sem hesitações. Dado que é uma vacina dispendiosa deixo a sugestão de a incluir nas listas de maternidade, que permitem aos pais serem ajudados pela família e amigos em algo tão valioso como a saúde e o bem-estar do novo bebé.