Ricardo: “Gostava de vender uma casa ao Figo”

Ricardo Pereira

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Entre uma e outra tacada de golfe, Ricardo Pereira, ex-guarda-redes da seleção nacional, hoje proprietário de uma imobiliária em Vilamoura, recorda os tempos no relvado.

Deixou o Montijo e mudou-se para o Algarve. Aos 40 anos, Ricardo, o ex-guarda-redes, agora vende casas, continua a gostar de estar no relvado, agora com bolas de golfe. Mas não descarta a possibilidade de voltar ao futebol. Se chegar o convite certo.

Há muito que não o vemos pelos relvados. O que anda a fazer?
Vivo em Vilamoura e tenho um escritório de imobiliário. Foi a isso que me dediquei há cerca de um ano. Chama-se R1, é uma nova vida, mas que funciona à base de contactos pessoais, que é aquilo que eu gosto: estar com as pessoas, conversar e apresentar-lhes boas opções de negócio.

Vende casas onde, a quem e que tipo de casas?
Tudo. O negócio imobiliário envolve muitas coisas: apartamentos, vivendas, hotéis, terrenos, investimentos. É uma panóplia muito grande. Temos parcerias espalhadas pelo país mas como estamos instalados no Algarve é lá que temos a maioria dos imóveis.

Já fez negócios com ex-colegas?
Ainda não. Por acaso, não.

A quem gostava de vender uma casa e a quem nunca vendia?
Gostava de vender uma casa ao Figo. E vendo a todos os que me pagarem.

O que tem jogado mais ultimamente: golfe ou futebol?
Golfe. Joguei uma ou duas vezes futebol desde que acabei a carreira. Os meus passatempos principais são o golfe, o padel, jogar Playstation e à bola com os meus filhos.

Não tem saudades de jogar futebol?
É óbvio que tenho saudades dos colegas, do tempo em que jogava, das coisas boas que passámos. Mas também dei tudo para fazer o que tinha a fazer enquanto jogava, para não ficar agarrado ao passado no momento em que me retirasse.

Mas ia se o Figo o convidasse para uma futebolada este fim-de-semana, certo?
Se houver malta para jogar, sim. Mas estou num sítio (Vilamoura) em que há pouca malta para jogar. Aqui em Lisboa, já estive com colegas que já estão retirados e eles já me convidaram para jogar. Um dia vou.

À baliza ou no ataque?
À baliza, não! É para correr. Se é para brincar, prefiro reviver os velhos tempos em que era ponta-de-lança.

Ainda consegue umas fintas e uns golos?
Eu nunca fui muito malabarista quando jogava. Era mais fazer golos, era isso que gostava de fazer.

E fazia-os mesmo quando era guarda-redes…
Sim, mesmo nos júniores jogava a ponta-de-lança e a guarda-redes.

É mais difícil acertar com a bola num buraco de golfe ou tapar o enorme buraco de uma baliza de futebol?
A baliza foi a minha profissão, a minha vida desde miúdo e habituei-me a elas por treinar diariamente. Acertar com uma bolinha num buraco mínimo é muito mais difícil. O golfe é muito difícil. Há muita gente que tem uma ideia errada sobre este jogo. Porque pode levar-te à exaustão, física e psicológica. Facilmente terminas todo roto.

Candidatou-se à presidência da Associação de Futebol do Algarve, acabando por perder as eleições. Tinha vontade de voltar ao futebol?
Não, foi porque me desafiaram. Não foi iniciativa minha. Umas pessoas amigas que considero muito mostraram-me o que existia e o que podíamos dar, acreditei, e pus-me ao trabalho. Falámos com as pessoas para lhes mostrar o que podia ser feito e melhorado, e acho que tínhamos essa capacidade. Não aconteceu. A grande melhoria que propunhamos era uma melhor organização da modalidade na região e mais assistência em termos médicos. Não deu, ponto.

Vê-se a voltar ao futebol?
O futebol foi a minha vida e se tiver essa possibilidade, porque não? Mas não o sinto como uma necessidade. As pessoas que conviveram comigo e que me conhecem, se virem em mim capacidade para desempenhar um determinado cargo dentro de uma equipa, estou aberto a analisar e a aceitar se gostar do desafio. Há muitas coisas que posso fazer.

Vejo nessas palavras alguma amargura. Ainda não apareceram convites?
Já apareceram algumas que não foram minimamente ao encontro do que eu quero fazer.

Mas para fazer o quê?
Não quero ser desrespeituoso para quem as fez, mas não iam acrescentar nada ao que já existia. Não havia nada de novo. Eu quero uma coisa diferente, de acordo com as minhas ideias, que faça mudar a maneira de se ver o fenómeno do futebol em Portugal.

Abandonar a carreira de futebolista é para muitos um momento muito duro. Como foi para si?
Fui-me preparando. Podia ter continuado mais um, dois ou cinco anos, mas eu próprio pus um termo porque a situação em que estava não se coadunava com aquilo que representei para o futebol português. Quando não sentimos dos dirigentes e dos colegas vontade de aprender e fazer bem, perdemos a motivação para continuar. Fui isso que eu aprendi com 18 aninhos quando fui para o Boavista, que os mais velhos me ensinaram e eu próprio os motivava porque tinha essa paixão. Deixei de sentir isso e perdi a pachorra para aturar essa atitude. Eu quase com 40 anos sentia-me com 20, e quem estava ao meu lado com 20, parecia ter 40 ou 50. Era muito triste e decidi não aturar aquilo.

Teve apoio dos colegas e da família?
Durante uma carreira, tens poucos que podes considerar amigos. Tenho muitos conhecidos, muita malta de quem gosto, com quem joguei, mas fiquei com um grupo restrito de pessoas. Esses estiveram lá nos piores momentos. Por exemplo, o Marco Caneira e a mulher, que são meus padrinhos de casamento. E não refiro mais porque me posso esquecer de algum.

Houve alguns que o desiludiram?
Muitos, mas acho que é normal, faz parte da vida também. Há muita alegria e muita desilusão, principalmente pela falta de caráter que se vê cada vez mais, Cada vez há menos gente séria.


Leia a continuação da entrevista a Ricardo Pereira:

«“Obrigado, Ricardo, sozinho ganhaste isto”, disse-me o Eusébio»

«Se queres jogar é à baliza, a ponta-de-lança não jogas mais»

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