OPINIÃO

“Obrigado, Ricardo, sozinho ganhaste isto”, disse-me o Eusébio

Foi campeão pelo Boavista, ganhou duas Taças de Portugal pelo Sporting, mas foram as prestações na seleção nacional que fizeram dele um herói, ou vilão. Entrevista ao ex-guarda-redes Ricardo Pereira.

Em 2006, na Alemanha, tornou-se no único guarda-redes a parar três penaltis numa só partida do campeonato mundial. Dois anos antes, no Euro’2004, Ricardo Pereira deixou o mundo boquiaberto quando decidiu tirar as luvas para defender uma grande penalidade no desempate dos quartos-de-final, marcando depois ele próprio o penalti decisivo. Memórias da seleção de um do jogador que nos vai ficar na memória.

Quais são as suas perspetivas para o Europeu?
As melhores. Temos os melhores jogadores do mundo, os melhores treinadores, a organização é fantástica, quem está á frente da Federação são pessoas fantásticas pelas quais tenho muita estima e algum dia vamos ganhar. Temos é de acreditar.

O que sentiu antes de tirar as luvas e decidir o jogo frente à Inglaterra, em 2004?
É uma sucessão de acontecimentos que não podes prever. Eu decidi tirar as luvas porque estava farto de ali estar e havia um inglês a rematar que nunca tinha marcado um penalti. Não foi tanto para colocar pressão, mas para me motivar a mim próprio. Sabia que aquilo podia mudar alguma coisa. Depois foi normal porque era eu bater a seguir. Curiosamente, já tinha passado a minha vez. Quem marcou na minha vez foi o Postiga e fez aquele panenka fantástico. Eu era o sexto a marcar, mas estávamos tão focados naquilo que deixámos passar. O Postiga não me viu avançar e pensou que era ele. Depois de o Vassel falhar, o Nuno Valente estava a avançar porque era o número dele, mas eu fiz-lhe sinal a dizer-lhe que era a minha vez. Ainda hoje me agradece.

Arrancou com medo para esse penalti decisivo?
Sempre tive confiança porque eu marco penaltis desde miúdo. Mesmo nos seniores, não era o primeiro penalti que marcava. Quem está lá fora fica preocupado porque é este ou aquele a marcar. Mas, para nós, é o pão nosso de cada dia. É para aquilo que treinamos. O problema é que o adversário era gigante: o David James. Tive de colocar bem a bola.

O que é que o Eusébio lhe disse quando se abraçou a si?
Lembro-me de estar com o Carlos Godinho a tentar acalmá-lo. Aquilo mexeu com ele por causa do Mundial’66 e ele esteve muito alterado durante os penaltis. A presença do Eusébio era muito importante para nós. Disse-nos que desta vez lhes íamos ganhar e tudo o que ele nos dizia era com sentimento. No final, abracei-me a ele para ele sentir que a nossa promessa de vitória estava ali. Agradeci-lhe as palavras e o carinho e aproveitei para lhe sentir o pulso, para ver se lhe baixava a adrenalina. Ele disse-me: «Obrigado, Ricardo. Sozinho ganhaste isto.» E eu nunca senti que tinha ganho aquilo sozinho, atenção. Respondi-lhe que nós é que tínhamos de lhe agradecer por toda a inspiração que nos passava.

Tocou-lhe a morte de Eusébio?
Como a todos os portugueses. Com ele morreu um bocadinho da bandeira.

Sente que tem culpa no golo de Charisteas na final?
Não. E o que interessa não é isso, é que começámos a perder e acabámos a perder contra eles. Éramos obrigados a marcar golos para os desfeitar mas não conseguimos.

Essa equipa grega parecia ter feitiço…
Pois, não sei. Sabíamos que a única equipa que lhes tinha feito um golo primeiro, a Rússia, tinha ganho o jogo. Eles não passavam do meio-campo, apostavam nas faltas, nas bolas paradas e foi assim que ganharam o torneio. Enfim…

Como foi a digestão dessa derrota?
Foi difícil. Às vezes imagino trocar esses momentos de tristeza pelos de alegria contra a Inglaterra, que devia ter sido a final. Ficas muito triste naqueles dois dias seguintes, depois começas a preparar a nova época e a frustração vai desaparecendo. Quando ainda estás com o grupo, com os teus colegas, é um ambiente muito frio, de grande pesar. Depois chegas a casa e buscas conforto na tua família e nas pessoas que te são mais próximas. São essas pessoas que te amparam, mas depende da personalidade de cada um recuperar mais rapidamente ou mais lentamente.

No Mundial’2006, foi o primeiro guarda-redes a parar três grandes penalidades num desempate, contra a Inglaterra. Tem orgulho nisso?
Sim, e até hoje ainda ninguém bateu esse recorde.

Treinava muito os penaltis no treino?
Não, Treinamos os penaltis antes das eliminatórias nos clubes e na seleção. Mas são muito por instinto: tens de estar preparado, teres um sexto sentido, seres perspicaz e rápido. A repetição, claro, melhora a técnica em qualquer ação. Mas o fundamental é saberes ler a linguagem corporal do adversário e seres rápido.

Conte-nos uma história de um inglês que se tenha metido consigo…
O Vassel [autor do remate que Ricardo defendeu sem luvas], no primeiro treino que fiz no Leicester, chegou ao balneário e sentou-se de frente para mim. Baixou-se para apertar as chuteiras e ficou a olhar-me fixamente. Não posso reproduzir exatamente o que me disse, mas foi qualquer coisa como: «Fogo, o que estás a fazer outra vez à minha frente?» (risos) Os nossos colegas riram-se, claro, e só descansaram quando o puseram a marcar-me um penalti no treino. A bola entrou e eles fizeram uma festa do caraças, levaram-no a ombros para o balneário.

Onde é que guardou essas luvas?
Estão em casa.

Pensei que as tinha leiloado…
Não, estiveram com uma amiga minha, que fez uma obra de arte com elas e agora estão lá penduradas em casa.

O que fez ela?
Fez uma instalação, onde várias personalidades e amigos deixaram mensagens. Ficou bonito.

É um objeto inegociável para si?
É um objeto que guardo com carinho, como é óbvio. E ia vendê-las para quê? Aquilo já não vale nada!

Luiz Felipe Scolari foi o melhor treinador que teve?
Não consigo escolher um como o melhor. Mas foi com quem tive mais tempo. Com o mister Jaime Pacheco também passei o mesmo tempo, mas diariamente, todos os dias durante anos. Foram os dois treinadores que mais marcaram a minha carreira.

Scolari gostava imenso de si…
Não era de mim, era de nós. Uma pessoa fantástica a todos os níveis, com toda a gente. Guardo as melhores recordações dele.

Voltando um pouco atrás: pensava que ia ser titular no Mundial’2002?
Claro que sim. Eu e o Quim fizemos o apuramento todo, como é que não ia pensar? Eu pensava que jogava sempre, mas os treinadores é que decidem.

Tudo mudou com aquela exibição do Vitor Baía no jogo de preparação contra a China?
Boa exibição? (risos). As pessoas têm uma ideia tão errada daquilo que se passou. O único jogador dos 23 convocados que não alinhou contra a China fui eu, essa é a realidade. Foi-me dito que não precisava de jogar porque já estava entrosado. Depois o selecionador decidiu jogar com o Vitor… Tive de aceitar, é a vida…

Custou?
Não havia de custar? Se me perguntar se concordei, não, não concordei! Mas quem mandava era o António Oliveira.

Como é que os jogadores da seleção passam o tempo nos estágios, quando não há treinos?
Quando estás em estágio ocupas o tempo com muitas coisas: vídeos, palestras, sessões com o treinador de guarda-redes, visionamento do nosso trabalho e do dos adversários, etc. Tens todo esse trabalho fora do campo. Depois, ocupas o tempo como gostares: jogar às cartas, brincadeiras, descansar e ler.

Quem foi o melhor jogador com que jogou?
O que mais me impressionou foi o Figo, como capitão, pelo carisma, como atleta e pela forma como resolvia jogos.

Mesmo tendo apanhado Cristiano Ronaldo nos seus primeiros anos?
É top, é um grande orgulho ter jogado com outro melhor do mundo, que está a bater todos os recordes da modalidade. Não me marcou o mesmo que o Figo porque, naturalmente, passei mais tempo a jogar com o Luís.

Está orgulhoso por Rui Patrício ser o seu sucessor na baliza de Portugal?
Estou porque ele começou comigo no Sporting. É óbvio que fico orgulhoso e satisfeito. Vi-o começar a treinar e a jogar connosco. É um miúdo espetacular, com qualidades fantásticas e espero que o futuro lhe reserve muitas coisas boas.

Quando o viu no Sporting sentiu que podia ser o próximo guarda-redes da seleção?
Isso passa-se com muitos e, de repente, tudo muda. Tem a ver com o caráter, com oportunidades, momentos que atravessam, os treinadores que têm ou não têm, depende de muitas coisas. Muitos têm talento mas não conseguem.


Leia a continuação da entrevista ao ex-guarda-redes Ricardo Pereira:

«Gostava de vender uma casa ao Figo»

«Se queres jogar é à baliza, a ponta-de-lança não jogas mais»

Tiago Carrasco
Fotografia Orlando Almeida/Global Imagens