OPINIÃO

Ricardinho: ele também é o melhor do mundo

A história nunca contada de Ricardinho, o melhor jogador de futsal do mundo.

Cresceu sem dinheiro para chuteiras, disseram-lhe que era demasiado baixo para jogar futebol de onze, sobreviveu a um incêndio e a um terramoto, tem um irmão preso e foi escolhido como melhor jogador de futsal do mundo no ano em que amputaram uma perna ao pai. Os adversários não conseguem tirar a bola a Ricardinho. As adversidades também não. História de um herói improvável, a poucos dias do arranque do campeonato do mundo da modalidade.

Era o último treino de captação nos infantis do FC Porto e Ricardo Braga ia finalmente saber se podia jogar futebol no clube de eleição, vestir as camisolas listadas que o pai, Américo, já envergara (jogou nas camadas jovens mas nunca chegou a sénior) e que, em posters e cromos, salpicavam de azul e branco as paredes de casa. «Estar ali era um sonho, como se tivesse saído de um ringue para jogar na televisão», diz o melhor jogador de futsal do mundo, eleito pela revista Futsal Planet, a publicação de referência da modalidade. Com 13 anos, pensava que aquele era o instante crucial da sua vida. A glória ou a humilhação.

Tudo começara um ano antes quando, ao serviço do CF Cerco do Porto, o seu padrinho descobrira que o rapaz se transcendia quando motivado. «Disse-me que me dava cinco contos por cada golo que fizesse. Marquei oito.» Para que a estratégia não saísse cara, o padrinho mudou o isco e prometeu levá-lo a treinar ao FC Porto se continuasse a jogar bem. Nem foi preciso: nos últimos dez minutos de uma partida entre o Salgueiros e o Cerco, Ricardinho saiu da linha a fintar rapazotes de vermelho e por duas ocasiões colocou a bola por cima do guarda-redes, direitinha à baliza. Dois golaços, daqueles que vemos Messi marcar em criança no YouTube. O Porto jogava a seguir e o treinador, Rolando, convidou logo o prodígio para treinar nos dragões. No arranque da temporada seguinte o técnico era outro – cujo nome deixou cair no esquecimento – e deu-lhe o veredicto: «És rápido, tens técnica, mas és demasiado baixo. O futebol não é para ti. Não ficas.» Ricardinho, capitão da seleção nacional de futsal, que vai disputar o Mundial da modalidade na Colômbia, a partir de 10 de setembro, ouviu dizer da boca de um treinador que o futebol não era para ele. Porque era baixo – tem 1,67 metros, mais dois centímetros do que Diego Maradona, menos dois do que Lionel Messi.

Nessa noite, quando o pai chegou a casa, encontrou o filho a chorar no quarto. «Disse-lhe que nunca mais queria jogar em clubes, ia só jogar com os meus amigos no bairro e mais nada», conta o próprio. Uma criança de luto a quem se lhe morrera a fé nos desígnios da bola. Durante mais de um ano, o peito de Ricardinho não viu emblema. «Aquela decisão ficou-lhe atravessada durante muito tempo», diz Olga Braga, mãe do jogador. «Ainda hoje acho que a melhor prenda que lhe podiam dar era deixá-lo fazer um treino de futebol de onze.»

As prendas foram uma raridade na infância do craque. A primeira bola que teve caiu-lhe no quintal de casa da avó, chutada por um vizinho. Mais tarde, o pai comprou-lhe uma, mas como não a podia usar em casa, recorria à fruta madura que este trazia do Mercado Abastecedor do Porto, onde trabalhava como ajudante de motorista. Habituou-se a dar toques em laranjas e maçãs sem as deixar cair. «A minha mãe não gostava nada de ver pedaços de polpa nas paredes e no teto e passava-se comigo por desperdiçar comida», diz o jogador que completou 31 anos a 3 de setembro. «Mas aqueles exercícios ajudaram-me a aperfeiçoar a técnica.»

SE A FAMÍLIA BRAGA POUCO TINHA, com menos ficou depois do incêndio na casa onde viviam, em Fânzeres, propriedade da avó materna. Ricardinho tinha 10 anos. O fogo começou numa loja ao lado e alastrou-se madrugada adentro pelo quintal, pejado de ervas. «Saímos à pressa. Lembro-me de estar na rua de pijama e de o Hugo, o meu irmão mais velho, só de boxers. O meu pai ainda salvou os vizinhos, quando o fogo ameaçava entrar-lhes pelo teto falso. Perdemos tudo.» Quando o município lhes deu a possibilidade de realojamento, instalaram-se numa nova zona: a Urbanização do Monte, em Valbom, Gondomar, um bairro social a que chegaram famílias desfavorecidas de vários pontos do Grande Porto.

Foi aí que Ricardo e André Brito, hoje com 32 anos, se conheceram. O motorista, amigo da família, braço direito do melhor jogador de futsal do mundo, lembra-se bem da primeira vez que o viu driblar. «Vi aquele pé esquerdo a fintar e fiquei perplexo. Perguntávamos-lhe como é que ele fazia aquilo. Os mais velhos queriam jogar com ele mas depois não achavam piada aos truques e davam-lhe umas pauladas.»

O ringue estava no centro do bairro e a bola no centro da vida. Ricardinho gravava partidas de futebol para rever e imitar as melhores fintas. Treinava até à exaustão.

No tempo que a bola lhes deixava para o ócio, jogavam às escondidas e iam a banhos no Douro, onde André ensinou Ricardo a nadar. Entretanto, no bairro, começavam «a juntar-se os “gandins”, montados nas motos e nos carros com néones e escapes ruidosos», diz o jogador. «Havia drogas, armas, pessoal a chegar com carros roubados. Eu próprio fiz asneiras para agradar aos “grandes”. Como eu e o André éramos pequeninos e rápidos, davam-nos recados que tínhamos de cumprir. Dou graças a Deus por não termos caído no mundo do crime. Muitos dos que ali paravam acabaram mortos ou na prisão.»

Foi o caso do irmão mais velho, Hugo, boavisteiro e guarda-redes talentoso, que acabou condenado a nove anos de prisão por furtos e desobediência ao tribunal. Ricardo tem a lição gravada numa tatuagem no braço esquerdo: as mãos onde corre o seu sangue agarradas às grades de uma cela.

E então aconteceu: com 14 anos, um amigo convidou-o para jogar pela equipa do bairro numa competição regional de futsal. Na final, o grupo de Ricardinho empatou a 3 com o Gramidense e a atual estrela do Inter Movistar, campeão espanhol em título, apontou os três golos. Carolina Silva, treinadora adversária, ficou de olho nele. «O meu amigo que me tinha convidado acabou por ir para o Gramidense. Eu não quis. Durante seis meses, fui só ver os jogos. Mas, com a insistência da Carolina, acabei por ceder.» O luto terminara. O peito de Ricardinho voltou a conhecer emblema.

Lição nº1: no futsal, a bola passa-se junto ao piso, não pelo ar. Pelas mãos de Carolina, Ricardinho adaptou-se rapidamente ao jogo no pavilhão. Na estreia, uma vitória por 14-2 contra o Amanhã da Criança, da Maia, o ala entrou perto do fim e marcou um grande golo, depois de fazer uma «roleta» – o movimento de rotação com bola imortalizado pelo francês Zinedine Zidane – e de passar o esférico por baixo das pernas de um adversário. «Era tão pequenino que a camisola lhe chegava aos joelhos, como uma saia», diz a mãe. Chamavam-lhe «baixinho», ou Maradona, embora ele não soubesse bem quem era o argentino. «O meu pai explicou-me que era um dos melhores jogadores do mundo e eu achei aquilo uma grande responsabilidade. »

Uma vez por semana, os catraios do Gramidense recebiam a visita de um formador brasileiro, Zego, que trabalhava no Freixieiro. «Ensinou-me muito», diz o internacional português. «Punha-me a treinar com o meu pior pé, o direito, contra a parede. Costumava dizer: “Jogam todos à vontade menos o Ricardinho que só joga com a perna má”. Chegava ao bairro e ia jogar outra vez porque queria fintar à vontade.»

O Gramidense era um clube de parcos recursos. Só tinha um escalão e nem dispunha de equipamentos próprios. Carolina quis mostrar os pupilos as equipas mais fortes e levou-os a uma maratona de futsal. No final, Ricardo tinha três convites: Freixieiro, da 1ª divisão, que organizou a competição, Fundação Jorge Antunes e Miramar [também do escalão principal]. O último foi o único que acedeu às exigências da treinadora: levar os 12 jogadores do plantel às captações. Ficaram dez, o baixinho incluído.

RICARDINHO NEGOU-SE A JOGAR apenas nos juvenis. O presidente José Manuel Leite estava reticente em colocá-lo nos escalões mais avançados. «Ele é tão pequenino que se vai magoar. E nem sei se o seguro paga», disse na altura. Carolina sugeriu-lhe que o visse a jogar primeiro. O Miramar jogava contra o Famalicence e tinha três jogadores castigados. Ricardinho foi convocado. «Estava tão nervoso que nem dormi. Combinei com o André Lima [colega no Miramar e depois no Benfica e na seleção nacional], que me ia sempre buscar no seu Opel Corsa cinzento, que me apanhasse na rotunda do Freixo. Fui a correr, 35 minutos desde a minha casa, tinha medo de me atrasar. Cheguei lá uma hora antes. Chegámos ao campo, eu todo suado e eles a gozar: “Já estiveste a jogar?”» Com a equipa a perder por 1-0, o treinador chamou por ele. «Fiz um jogão e marquei três golos. Tiveram de me tirar no fim porque estava nervoso, mais branco do que a cal.» O Miramar ganhou por 4-1.

A meio da época começou a ganhar 750 euros por mês. Entregava o dinheiro à mãe, mas pediu-lhe que lhe comprasse um telemóvel Nokia, que custava 500 euros. Um dia ela apareceu-lhe em casa com o aparelho. «Verdinho, com tampa no teclado. Ao segundo dia, só tinha o carregador. O meu irmão Hugo roubou-o para vendê-lo. Nunca mais me esqueço.»

Nessa época de 2001-2002, Ricardinho marcou 111 golos pelos juvenis, juniores (em que foi campeão nacional) e seniores do Miramar. Na equipa principal apontou 13 golos em 12 jogos. Os «tubarões» começaram a rondar José Manuel Leite, o presidente entretanto falecido num acidente de viação em 2011, que Ricardinho aponta como a figura mais importante da sua carreira. O diretor de futsal do Benfica, Luís Moreira, perguntou ao atleta quanto queria ganhar e ele pediu 1800 euros. A transferência ficou apalavrada. Mas Ricardinho não aceitava a mudança para Lisboa.

«Um dia, um amigo veio dizer-me que estava ali um bruto carro, um Eclipse, e que devia ser para mim. Era o presidente do Freixieiro», diz o jogador. Perguntou se podia falar com ele e com a mãe e sentaram-se à mesa. «Disse que o Freixieiro me queria. Pôs dez mil euros em cima da mesa. Para mim, Lisboa era no Japão e o Freixieiro era ali ao lado. Pensei na namorada e nos amigos, que não ia ver mais, olhei para aquele dinheiro todo e respondi-lhe que queria aceitar. A minha mãe deu-me logo uma estalada, fiquei todo vermelho.» Olga quis manter a palavra. «Somos pobres mas honrados, ele deu a palavra e vai para lá. Nem que lhe custe, mas vai.» A despedida foi como um funeral: centenas de pessoas levaram prantos e condolências à porta dos Braga.

O Ricardo ia para Lisboa, tão longe, provavelmente não voltaria. «Eu chorava, não queria ir. “Não queres ser jogador? Então tens de ir, filho”, dizia-me a minha mãe.» E Ricardo foi.

A adaptação do rapaz a Lisboa não foi fácil. Chegou com a mãe – que quis analisar as instalações, a distância de casa para o pavilhão –, sentiu-se mal, ficou com febre. «Nem sonham o que me custou deixar lá o meu menino», diz Olga, que hoje tem um restaurante de francesinhas em Gondomar. «Entreguei-o ao André Lima e pedi-lhe que não o deixassem perder-se.»

Ficou a viver com os experientes colegas André Lima e Arnaldo numa casa em Caneças, que pertencia ao diretor da modalidade. Fora do campo, sentia a falta da convivência com rapazes da sua idade. Gozavam-lhe o sotaque portuense e tinha como melhores momentos os passeios pelos shoppings, que fitava deslumbrado. Com as raparigas é que nunca teve problemas. «Sempre foi meio safado», diz a mãe.

Dentro das quatro linhas, jogava pouco por estar tapado por colegas mais calejados. Após quatro meses, pediu para ser emprestado ao Freixieiro. «Tu fazes o que quiseres. Mas… queres ser o melhor desta merda? », perguntou-lhe o treinador Alípio Matos. «Então, fica. É melhor para ti. Estás a ver este estádio e estes adeptos? Se ficares vais ser o rei disto tudo.» Aceitou. Ficou a aprender com um dos melhores quartetos do futsal nacional – André Lima, Zé Maria, Pedro Costa e Arnaldo. «Cheguei a este patamar muito à custa deles», reconhece. Quando se preparava para explodir, porém, sofreu uma fratura da tíbia que o impossibilitou de ser o mais jovem jogador de sempre a disputar um Mundial de futsal. «Era miúdo e ainda achava bem humilhar os adversários, fintando-os em zonas mais recuadas. Hoje sei que essas fintas devem ser feitas na zona de decisão. Um tipo não gostou de ser humilhado e partiu-me a perna.»

O treinador brasileiro Adil Amarante, campeão pelo Benfica nessa época [2004-2005], acompanhou a recuperação do jovem ala. «Ele trabalhou duro e isso mostra a determinação e a mentalidade séria de um atleta», diz o técnico. «Numa das primeiras partidas após a lesão, nuns quartos-de-final do playoff contra o Alpendorada, virou a eliminatória com um golo de “cabrito” (passar a bola por cima do guarda-redes fazendo-a levantar com uma espécie de “coice” a pés juntos), que foi dos mais bonitos que vi.» O “cabrito”, que se tornou numa imagem de marca de Ricardinho, foi-lhe ensinado pelo brasileiro Mide, um colega no Miramar.

Ricardinho começou a acumular títulos individuais e coletivos. Quando deu por si, ao fim de sete épocas, tinha o pavilhão da Luz aos pés e o Benfica no coração. Em 2008, depois de ter marcado 52 golos no campeonato, Fernando Tavares, diretor para as modalidades, disse-lhe que Fernando Santos, então treinador da equipa de futebol, estava interessado em observá-lo na pré-época. O plano seria cumprir uma semana de adaptação na equipa B e seguir depois para a primeira equipa. Mas o diário Record soube e estampou a notícia na primeira página. «Recebi uma mensagem às cinco da manhã a dizer que iam publicar a notícia. No dia seguinte, tinha um batalhão de jornalistas à minha espera no treino da seleção. O Benfica, que não ganhava nada há três anos, não quis arriscar chamar um jogador de futsal no meio daquele circo mediático. Fiquei com pena, já tinha as chuteiras encomendadas.» Na edição seguinte, o jornal escreveu: «Desculpa lá, Ricardinho.»

«Acho que com o génio dele seria tão brilhante no futebol como o é no futsal», diz Adil Amarante. «Quem ficou a ganhar foi o futsal.» Em 2010, o pequeno ala provou-o: conquistou a UEFA Futsal Cup (correspondente à Liga dos Campeões) pelo Benfica e o primeiro troféu de melhor jogador do mundo (voltaria a vencê-lo em 2014 e 2015). Nova despedida em lágrimas: já sabia que ia jogar para o outro lado do mundo e que desta vez, ao contrário de Lisboa, não estava a três horas de comboio de casa.

Os dirigentes dos japoneses Nagoya Oceans perguntaram a Adil Amarante, à data treinador do clube, se queria contratar Falcão, o craque brasileiro cujo nome Ricardinho tatuou na perna, considerado seu rival como melhor jogador da história.

Adil preferiu o português. «Sabia que podia ensinar os japoneses ao mesmo tempo que ajudava a equipa a ganhar títulos.» A transferência consumou-se por e-mail. «Pediram-me para enviar um e-mail com tudo o que queria receber. Pedi-lhes casa, carro, férias de Natal, que era coisa que eles nem celebravam, e tudo o que me passou pela cabeça. Nunca pensei que aceitassem. Cinco minutos depois, responderam-me a dizer que sim.» Ia ganhar trinta mil euros por mês, seis vezes mais do que ganhava no Benfica. Quando aterrou em Tóquio, em 2010, aguardavam-no dois japoneses do staff: «Tiraram-me logo uma foto para mostrar aos chefes que eu tinha mesmo chegado ao Japão.»

RICARDINHO ESTAVA A VINTE MIL quilómetros de casa, na companhia da mulher, a cantora Ana Duarte, com quem casara semanas antes da mudança para a Ásia. Tinham-se conhecido há dois anos, depois de o craque ter terminado a relação anterior, da qual resultara um filho, Lisandro, atualmente com 8 anos, e a adoção de Yara, filha da ex-namorada. O jogador tem o nome dos filhos escritos no tal braço que conta a sua história em símbolos: o anjo que representa o pai, estrelas cadentes com as iniciais dos progenitores, uma gueixa com as feições de Ana, tributo à devoção que ela demonstrou ao segui-lo para o Japão. «Ela teve de adiar a sua progressão como cantora», afirma.

Nos tempos livres, refugiava-se na companhia dos portugueses e dos brasileiros que faziam parte do plantel: comiam regularmente num restaurante peruano e passavam serões a jogar póquer. «Guardo na memória o respeito e a gentileza com que os japoneses me trataram e o avanço tecnológico de cidades como Osaka e Tóquio, onde conduzia em autoestradas por cima de prédios de dez andares.» Os fãs de futsal aperceberam-se de que Ricardinho estava na liga japonesa quando se espalhou pela Internet o vídeo de mais uma acrobacia fantástica: um «cabrito» de costas para a baliza que rendeu um golo decisivo. «O treinador dos adversários provocou-o e isso é o que não se deve fazer a um jogador do nível do Ricardinho», recorda Adil. Mais um truque para o vídeo que compila as suas melhores jogadas, que já superou os dois milhões de visualizações.

No dia 11 de abril de 2011, Olga chegou como todas as manhãs ao café do bairro e deparou-se com um silêncio sepulcral. A televisão exibia imagens de um terramoto devastador no Japão, com o mar a engolir cidades e dezenas de milhares de mortos. «Fiquei horas sem conseguir falar com ele, foi uma aflição, o maior susto da minha vida», diz a mãe. Em Tóquio, Ricardinho seguia num táxi a caminho de um pavilhão quando sentiu «o carro abanar como se fosse empurrado por 15 ou 20 pessoas». «Os prédios e as árvores agitavam-se por todo o lado mas, incrivelmente, não caíam. Fomos para o hotel e ficámos lá retidos nove horas, sem comunicações.» Depois do desastre de Fukushima, o português decidiu abandonar o Japão. Já tinha conquistado o campeonato, a Taça da Ásia e feito um DVD em que explicava jogadas de futsal, que até deu origem a uma rubrica na televisão.

O empréstimo ao CSKA Moscovo, em 2011, não correu tão bem. «Não me adaptei à frieza russa.» Assistiu a episódios de racismo e apanhou colegas a embriagarem-se no quarto em vésperas de jogo. Mas a gota de água foi não o deixarem fazer treinos suplementares. «O técnico (Paulo Tavares, também português) disse-me que não era mais do que os outros e que não podia treinar duas vezes por dia.» Foi ao escritório do presidente, demitiu-se e entregou-lhe os cem mil euros respeitantes aos meses de contrato que não ia cumprir.

Após uma nova passagem de seis meses pelo Benfica, concretizou um velho sonho: representar os espanhóis do Inter Movistar.

«São o melhor clube de futsal do mundo e já me sondavam desde que lhes ganhei o título europeu pelo Benfica.» Em Madrid, voltou a encontrar Fernando Cardinal, o pivô português com quem já tinha jogado no CSKA. «Os espanhóis dão muito valor à prata da casa e enche-nos de orgulho termos chegado lá, dois portugueses, e mudarmos o futsal, sermos campeões e os jogadores mais importantes da liga.» Mas o grande desafio de Ricardinho não foi no plano desportivo, mas pessoal. Durante a primeira temporada em Espanha, 2013-2014, separou-se da mulher, pouco tempo depois do nascimento da filha Riana, lidou com o drama da prisão do irmão e com a amputação de uma perna ao pai, devido a problemas de circulação. «Foi um processo doloroso. Primeiro, cortaram-lhe os dedos, depois o pé, a canela… e eu não podia estar em casa com ele. Contei tudo isto a apenas três ou quatro pessoas e mentalizei-me de que tinha de me abstrair, porque não sou cirurgião nem juiz, e focar-me naquilo em que sou bom. Foi o futsal que me ajudou a superar tudo isso.» Nessa época, ganhou a liga e foi novamente coroado melhor jogador do planeta.

O JOGADOR É RECONHECIDO nas ruas de Madrid. Frequenta casinos, discotecas, bares com música ao vivo. «Gosto de sair, com responsabilidade, porque acredito que há tempo para tudo. Conheço um brasileiro, o Edgar, que nos reserva lugares privados em vários locais noturnos da cidade.» Já assistiu a partidas do Real Madrid no camarote de Cristiano Ronaldo, com quem se cruza ocasionalmente em restaurantes da capital espanhola. Faz questão de garantir a liberdade de expressão nos seus contratos («não gosto que me ordenem o que dizer») e de jogar futebol com os amigos fora dos treinos. «Costumamos jogar num campo e, um dia, passou lá um dirigente do Inter. Riu-se, acenou, mas não disse nada, porque já percebeu que o Ricardinho tem de jogar por diversão», diz André Brito.

É nesses momentos que o português afina as fintas. A última que deu que falar, um movimento complicadíssimo conhecido por AK-3000, foi-lhe ensinada por um freestyler holandês, Issy «Hitman» Hamdaoui, numa passagem pelos treinos do Inter. «É assim, mas não dá para fazer em jogo», disse-lhe Hamdaoui. «Olha que dá», respondeu o português. Nas suas idas à Urbanização do Monte – onde tem uma escola de futsal e um wine bar – Ricardinho treinava-a e ensinava-a ao seu irmão mais novo, Rúben, de 19 anos, jogador de futsal do Boavista e seu maior fã, internacional sub-19, que lida desde criança com as inevitáveis comparações com o irmão.

No último Europeu, numa partida contra a Sérvia, Ricardinho fez o AK-3000 para passar a bola por cima de um eslavo e marcar com um remate fulminante um dos melhores golos que a modalidade já viu. Na semana passada, e depois de meses de votação, foi considerado o segundo melhor golo da época 2015-2016, atrás de um tento de Lionel Messi ao serviço do Barcelona e à frente do suíço Shaqiri, no Euro 2016. Rúben desafia o irmão: «Gostava de o ver fazer a mesma finta mas direitinha à “cueca” do guarda-redes.» Com Ricardinho é assim, dribles à la carte. O craque hesita: «Essa é difícil, mas podem crer que vou tentar.»

O PRIMEIRO ORDENADO

No final de cada mês, Américo espalhava as notas do ordenado na cama e chamava Ricardo. «Filho, conta aí a féria do pai.» Eram cem contos [500 euros], mais coisa menos coisa. «Prometeu ao pai que um dia seria ele a chegar com o ordenado e a pedir-lhe para contá-lo», diz a mãe, Olga, que foi feirante, doméstica, ajudante de cozinha e mais uns quantos ofícios para manter o lar. Quando Ricardinho se estreou na primeira divisão, pelo Miramar, marcou três dos quatro golos com que a equipa ganhou ao Famalicence. Como recompensa, o presidente ofereceu-lhe um cheque de 250 euros, entregue em mão à porta de casa. «Nem sabia o que era aquele papel. “Ó filho, mas isto é dinheiro! Ganhaste 250 euros.” Disse-lhe para ficar com ele e para me dar algum para eu levar para a escola.» A meio da época, chegou o aumento: 750 euros mensais. «Passei a ganhar mais do que o meu pai.» Tinha 16 anos.