OPINIÃO

Quem é o português que edita os vídeos de Madonna?

Há um lisboeta a trabalhar diretamente com a rainha da pop. Nuno Xico é um nome a fixar.

Nuno Xico é editor de vídeo em Nova Iorque e tem no currículo uma colaboração intensa com Madonna, à qual se juntam trabalhos para Beyoncé ou para Dior.

Tinha 4 anos quando a canção de Madonna Like a Virgin chegou aos tops. Cinco quando saiu Material Girl. «Lembro-me de ver estes telediscos na TV e do álbum Like a Prayer que o meu irmão mais velho tinha», recorda Nuno Xico – Francisco, de nascimento. Essas recordações seriam de infância, se calhar já estariam até esquecidas, não tivessem sido reavivadas porque Nuno acabou precisamente a editar os vídeos da rainha da pop. «O seu sentido de estética, da Björk e dos Radiohead, foi uma das razões pelas quais me apaixonei pela edição de vídeo», conta o lisboeta, de 37 anos.

A oportunidade de trabalhar com Madonna chegou há três anos, com um vídeo de 18 minutos, a preto e branco, de um workshop da cantora, no qual ela fez a sua escolha final para os bailarinos da MDNA Tour. «Um amigo meu realizador, filho de Fabien Baron, colaborador da Madonna desde os anos 1990, foi convidado para fazer o vídeo e levou-me para o editar. Ela viu e gostou imenso», conta. Muitos vídeos se seguiram. A curta-metragem política que Madonna fez com Steven Klein – foi aqui que Nuno a conheceu pessoalmente –, o vídeo para Bitch, I’m Madonna (onde há mais um português, o modelo Kevin Sampaio) ou vários vídeos para a mais recente Rebel Heart Tour.

Nuno Xico nunca esquecerá o dia em que conheceu a cantora. «Estava supernervoso, mas passados cinco minutos esqueces-te que é a Madonna. Ela é supernormal, cool, tem um sentido de humor brutal. E é muito boa naquilo que faz. É maravilhoso trabalhar com pessoas como a Madonna, uma boss da disciplina e do rigor. Percebe imenso de realização e aprendi imenso com ela. Muitas vezes ela só quer que eu a surpreenda, diz “faz o que quiseres”. Por vezes há notas, mas acho que temos uma estética muito semelhante.»

Para Nuno, ter a «rainha da pop» no seu currículo, aos 37 anos, é extraordinário. «É um privilégio, tenho noção disso, mas tento relativizar. Às vezes dizem-me: “Epá, tu és demasiado low profile, diz que trabalhas com a Madonna!”»

A participação em produções de Madonna trouxe para o seu currículo outro nome: Beyoncé. Fez parte da equipa de editores dos vídeos da sua Formation Tour. Também esteve na edição do telefilme Lemonade.

Tudo isto aconteceu muito rápido. Há apenas seis anos, Nuno estava ainda a mudar-se para Nova Iorque, como tantos à procura de novos rumos. Esteve por lá primeiro de férias. «A América naquela altura fazia-me um pouco de confusão por causa do Bush», recorda. Canal Street, no Soho, fê-lo perceber que havia outros EUA, mais liberais nos costumes, e apaixonou-se. «Saí do metro, olhei à volta e pensei: “Epá, isto é a minha casa.”» A ideia de se mudar para Nova Iorque começou a ganhar forma, atrasada quando se apercebeu de que os cursos de realização eram demasiado caros.

Por essa altura, Nuno já estava a trabalhar em vídeo há uns anos. Licenciara-se em Publicidade e Marketing, depois estudou na ETIC, e estreara-se na edição com o Dance TV, da SIC Radical, em 2003. Estivera na produtora Krypton, e era freelancer, editando o vídeo de anúncios para publicidade. De certa forma, chegara ao topo, acabado de passar os 30. «Sentia que, com aquela idade, já não iria fazer mais nada de diferente. Em Portugal não dava. Precisava de aprender. Estava superprotegido, tinha a minha rede de conforto – família e amigos – quando algo corria mal. Eu queria viver a sério, desconstruir o que tinha aprendido e começar do zero.» Em 2010 estava de malas feitas para Nova Iorque.

Teve o patrocínio de uma empresa, que o ajudou no visto e gostou do seu portfólio. A adaptação inicial «foi difícil». «Não havia muito trabalho na empresa. Os conhecimentos eram poucos e em quatro meses estava sem dinheiro, estoirei tudo», conta. Mas não desistiu. Pediu mil euros ao irmão, ficaria mais um mês. Acabou por arranjar um emprego numa produtora e loja de material. «Tive muita sorte. Ali criei as minhas ligações e contactos.»

Esteve, nomeadamente, na equipa de edição do fotógrafo de moda Bruce Weber. «Foi inspirador ver de perto o seu processo criativo. Depois do trabalho fomos todos a uma festa na Soho House de Miami. Lembro-me que um fotógrafo teve de me emprestar uma camisa preta – até bastante cara – para ir à festa, que eu não tinha», recorda.

«Nova Iorque é como nos filmes, funciona por networking. Vais a uma festa, conheces alguém, essa pessoa recomenda-te e as coisas acontecem. Se mandas o currículo, esquece, não se passa nada.»

O de Nuno começou a ficar recheado. Depois de fazer anúncios de publicidade para várias agências em Portugal como a Ogilvy, a Krypton ou a BBDO, em Nova Iorque participou em campanhas para a Calvin Klein, Bottega Veneta, Tommy Hilfiger e Tiffany & Co, e em parcerias com as revistas Elle, GQ ou Vogue. Teve também colaborações com marcas como a Reebok e a IKEA e em publicidade institucional da Amnistia Internacional.

Estar em Nova Iorque permitiu-lhe crescer, como queria, e estar sempre a par das últimas tendências numa área sempre em evolução. «Já fiz vídeos de publicidade que roçam um teledisco e já montei filmes de moda com uma estética de documentário», conta. «Cada vez mais as disciplinas bebem umas das outras. O Instagram trouxe uma estética um bocado mais curada, e todos nós passamos algum tempo a editar a fotografia. Ou o vídeo. O Snapchat mudou essa abordagem para uma estética mais realista e crua, sem qualquer edição. Esta estética está muito forte, muito mais documental e menos plástica.»

Hoje, Nuno vive em Brooklyn, o bairro trendy, do lado de lá do rio. E a vida na cidade continua a entusiasmá-lo. «É intenso, mesmo seis anos depois», conta. «Há sempre tanta coisa a acontecer. Há muita informação, imensa arte, muitas festas. Podes fazer uma vida mais relaxada e caseira, se quiseres. Também se consegue ter um dia descontraído, sem fazer nada.»

Nuno vê todos os filmes. Os seus realizadores preferidos… são vários. «Darren Aronofsky, pela forma meio indie como começou – Pi é um filme maravilhoso e estranho – e pela forma como conta histórias, a utilização de simbolismo. A sequência inicial de Black Swan, com a Natalie Portman a dançar num pesadelo, e a forma como a câmara segue a dança é uma das melhores de sempre.» Destaca a forma «mais minimal, austera e sem artifícios» do realizador Robert Bresson, Xavier Dolan pela sua «estética muito própria», Wong Kar-wai, que realizou um dos seus filmes preferidos, Fallen Angels, e ainda John Cameron Mitchell e Michel Gondry, «um génio».

Voltar a Portugal não está nos seus planos – vem de visita uma vez por ano para matar saudades da família, amigos, e da «sopa da avó» – e lida bem com a distância. «Claro que sinto falta dos meus, mas tens Skype, Instagram, Snapchat, vais sabendo tudo o que se passa.»

E o futuro? Garante que nunca deixará a edição de vídeo, a sua «grande paixão, a de pegar em material bruto e contar uma historia (visual ou narrativa)». Mas vai apostar cada vez mais na realização. «Estar atrás de uma câmara é uma grande descarga de adrenalina, e o processo criativo bem como a colaboração entre a equipa seduzem-me bastante. » Nuno Xico é definitivamente um nome a seguir.


A CAMPANHA COM JENNIFER LAWRENCE PARA A DIOR

Nuno Xico ostenta no seu currículo a edição da campanha de publicidade da Dior para o bâton Addict, que Jennifer Lawrence filmou há um ano. O trabalho surgiu quando a produtora White Label viu o seu site e sugeriu o seu nome à Dior. «Foi uma colaboração muito interessante, trabalhei de casa e o processo foi muito fluido. Falei com o realizador [Craig McDean] uma vez ao telefone, e trocava quase diariamente e-mails com a equipa criativa da Dior. Pormenor: no fim de semana em que era suposto começar a editar a campanha, tive uma apendicite e fui operado de urgência. Fez o trabalho a tomar «analgésicos fortíssimos».