O covil das Señoritas

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Foi numa quinta com animais que nasceu o disco da «Mitó d’A Naifa» e da «Sandra dos Sitiados».

Perto de Palmela, há uma quinta que é um santuário de animais maltratados. Cães, gatos, três cabras, uma vaca. É o refúgio de Sandra Baptista, a Sandra do acordeão dos Sitiados. Ali, numa sala carregada de história e onde os bichos circulam livres, nasceu um projeto musical a meias com Mitó Mendes, que era a vocalista de A Naifa. Música no meio da bicharada.

Há uns meses, saiu em Portugal um livro de Kim Gordon, vocalista e guitarrista dos Sonic Youth, chamado A Miúda da Banda. A dada altura, Kim esclarece como uma rapariga se protege num mundo que costuma ser de rapazes. Ou és cool e distante ou és uma bonequinha. «Ela tem razão, uma mulher tem de ser brilhante no mundo da música se quer algum respeito. Há sempre paternalismo. Por exemplo, chegas a estúdio e partem do princípio de que não sabes nada dos aspetos técnicos só por seres mulher», diz Mitó Mendes, antiga vocalista de A Naifa. Sandra Baptista, a Sandra do acordeão dos Sitiados, ri: «Mas nós agora livrámo-nos dos rapazes. E só vamos fazer o que nos apetece.» É verdade, as miúdas criaram a sua própria banda. Não são senhoras distantes nem são senhorinhas armadas em princesas. São Señoritas, e isso é poderem ser elas próprias.

Acabaram de lançar o álbum de estreia, Acho Que É Meu Dever não Gostar, e não fizeram concessões a ninguém. Criaram aquilo que bem lhes apetecia. As letras são muitas vezes duras, falam da vida como ela é. «E a vida não é só sol, temos ambas idade para saber isso», diz Mitó. «Começou tudo quando a Sandra me trouxe umas letras e decidimos musicá-las.» Algumas saíram logo à primeira. Mitó deu-lhes voz, agarrou-se à guitarra e à tarola, Sandra acrescentou-lhe baixo e acordeão. É um registo menos alegre do que seria de esperar, tendo em conta os passados musicais de cada uma.

Sandra Baptista é conhecida por causa dos Sitiados, uma das bandas de maior sucesso nos anos 1990, mistura de rock com música tradicional portuguesa. Mitó dava voz a A Naifa, a banda que durante uma década, de 2004 a 2014, abriu portas à mesclagem do fado com o pop. O que apresentam agora, no entanto, não é nada disso. As Señoritas são mais urbanas, mais femininas, mais minimalistas.

As duas conheceram-se há uma dúzia de anos, por causa de João Aguardela, e deram-se logo bem. O músico que fundou os Sitiados em 1987 também fundou A Naifa em 2004 (com Luís Varatojo). Aguardela, aliás, foi um dos compositores essenciais das duas últimas décadas da música portuguesa – um dos impulsionadores da modernização do folclore – e ambas sabem que há influência dele em tudo o que criam. «Este disco não é uma homenagem ao João, mas também é», diz Sandra, que foi sua companheira até ele morrer, em 2009.

A sala onde nasceram as Señoritas guarda um bom pedaço da história musical do país. Ali nasceram acordes e baladas, inventaram-se e celebraram-se uma série de canções.

Logo à entrada, há um balcão onde estão guardadas garrafas e mais garrafas. Muita noite de festa deve ter havido aqui. Nas paredes, discos e livros de David Bowie, Velvet Underground, The Clash, Ramones. O punk, aqui, nunca morreu. Ao fundo, uma bateria, guitarras e baixos, microfones e mesas de mistura, um acordeão que Sandra usa desde o início dos anos 1990, quando era a Sandra daquelas danças que cumpria nos concertos dos Sitiados, braços e pernas descobertos, um rodopio muito seu ao som de Esta Vida de Marinheiro e Vamos ao Circo.

A rapariga trazia tanta festa à banda que até os Despe & Siga decidiram homenageá-la na letra de Casal Garcia: «Já temos fados e guitarradas, temos vinho e sardinhadas. E a Sandra com o seu acordeão dá os acordes do refrão. Venham daí rapaziada, começa a festa não tarda nada. E esta noite é sempre a abrir porque para o ano ainda está para vir.»

Só que, quando os Sitiados terminaram, Sandra cansou-se do palco. «Naquela fase, preferi ir aprender vídeo, fotografia, edição de imagem. Eram coisas que me interessavam. E foi nessa altura que me tornei ativista na Animal, uma organização de defesa de direitos. Organizei campanhas, dei o rosto por muitas, comecei a acolher bichos em casa.»

Na quinta que comprou com João, tem hoje oito cães e uma mão-cheia de bichos felizes, ainda que todos contem passados de tragédia. Há uma cadela a quem foram cortadas as orelhas, um que ficou com problemas na coluna pelas sovas que levou, outros que estavam presos, subnutridos, que alguém lhe veio despejar pelos muros. «Só consigo ter oito, porque estes animais chegam em situação de grande vulnerabilidade e precisam de ser estimulados individualmente. Mais do que isso é impossível, não tenho tempo para mais». Dentro de casa, tem dois gatos que encontrou no lixo e, atrás de uma vedação, tem uma vintena de galinhas, uma vaca chamada Marília, que tinha sido abandonada no meio de um baldio enquanto bezerra, e três cabras. «Uma pertencia a um vizinho que a usava para criar cabritos. Passava o dia presa e as crias eram mortas à frente dela. Eu ouvia-a a berrar e um dia pedi ao vizinho para ficar com a cabra.»

Foi em 2002 que Sandra Baptista começou a fazer da proteção aos animais um projeto de vida. Dois anos depois, conheceu Mitó. Era o início de A Naifa. Não estava na banda mas acompanhava o grupo e, quando João Aguardela morreu, em 2009, tomou o lugar do companheiro no baixo.

As miúdas da banda tornaram-se amigas. Mitó trabalha durante a semana, tem um consultório de medicina tradicional chinesa, mas aos fins de semana fartava-se de vir para a quinta. Então, rodeadas de um jardim zoológico inteiro, apareceram as primeiras letras e os primeiros acordes. Tardes e noites a conversar sobre a vida começaram a dar lugar ao improviso ao microfone. No meio de uma sala que guarda um capítulo da história da música portuguesa, e no meio da bicharada, nasceram as Señoritas.

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