OPINIÃO

Mulheres voadoras

Elas ganham a vida a saltar de penhascos para a água.

Se lhes disserem para saltar de um penhasco, elas saltam. E são aplaudidas por isso. São mulheres, bonitas, com histórias interessantes de vida. E são, sobretudo, atletas e destemidas: ganham a vida a saltar de penhascos rochosos para a água. Passaram pelo ilhéu de Vila Franca do Campo, nos Açores, onde disputaram a terceira etapa do Red Bull Cliff Diving World Series. Estas são as suas histórias, em que o desporto se cruza com a aventura.

Não haverá desporto mais despojado: um atleta e a gravidade. São os únicos ingredientes. Sem adereços – exceto o fato de banho, claro –, sem proteções, apenas a técnica, a concentração, o controlo físico, a estética do salto e a magnificência da paisagem em redor. Pelo menos aqui, no ilhéu de Vila Franca do Campo, ao largo da ilha de São Miguel, é assim. Escarpas de rocha vulcânica rodeadas de um mar revolto e transparente, abençoados por um clima tropical. Que cenário mais bonito para desafiar a natureza enquanto se pratica desporto?

Não é de estranhar que este ilhéu açoriano seja o spot preferido de muitos dos atletas do cliff diving. É o caso de Ginger Huber, a acrobata americana que já é uma veterana da modalidade e que confessa gostar de saltar diretamente da falésia (em todo o circuito de cliff diving, os Açores são dos poucos lugares que o permitem) e que aqui se sente «em casa». Do cimo da falésia, junto à plataforma de salto, os barcos, lá em baixo, parecem pequenas cascas de nozes. São 20 metros de altura (28 no caso dos homens) e mais do que todos os atributos acima referidos, um atleta de cliff diving tem de ter, sobretudo, coragem.

Com 41 anos, Huber é a mais velha atleta em competição – uma embaixadora deste desporto e uma referência para as praticantes mais novas. Mas está longe de sequer pensar em aposentar-se. Pelo contrário, em 2014 dispensou o fato de banho para posar como veio ao mundo na body issue da revista ESPN. No ano anterior participou no programa de televisão da ABC Splash (por cá passou uma versão semelhante na SIC). Coragem não lhe falta, mas admite que em cada salto continua a sentir «o friozinho na barriga», fruto do respeito que tem pela modalidade que pratica. Chega à plataforma, depois de escalar as rochas, seca-se com o seu shammy – também conhecido por chamois, uma pequena toalha que serve para manter o corpo seco (as mãos e as pernas não podem escorregar na posição de saída) ou aquecer o atleta quando as temperaturas são baixas –, atira-o, com os chinelos, para a água. É parte de um ritual. Atirar o shammy e os chinelos permite ao mergulhador ver exatamente qual o nível da água para melhor preparar o salto.

Os minutos que antecedem a saída são os mais stressantes. O atleta avalia todas as condições, o vento, a ondulação. Revê mentalmente cada movimento que vai fazer no ar, cada pirueta, cada mortal. Respira fundo. É nessa altura que ouve a música que escolheu para acompanhar o salto. Encara o público. Enfrenta o precipício. E mergulha.

Alta, bronzeada e sorridente, a acrobata leva muito a sério o treino, uma vez que a segurança nos saltos é o fator mais importante para evitar lesões. «Costumo comparar a entrada na água com um desastre de carro ou um murro num ringue de boxe. Sente-se sempre o impacto, por isso é preciso ter força e estar bem preparado fisicamente. Basta entrarmos na água no ângulo errado para nos magoarmos a sério», contou-nos Ginger Huber após receber o troféu pelo terceiro lugar conquistado que lhe valeu a presença no pódio. Já em 2015 tinha terminado a competição em segundo e, em 2013, na primeira etapa feminina do Red Bull Cliff Diving World Series, protagonizou o salto mais pontuado.

Em matéria de saltos para a água, Huber já fez tudo: praticou, competiu, treinou outros atletas e foi até membro do júri. Vive em Orlando, na Florida, onde trabalha como performer no parque temático Sea World e confessa ter uma paixão secreta por cerveja artesanal. Porque nem só de desporto se alimenta uma mulher. E a reforma, já pensa nisso? «Não, nem por isso. É difícil mudar de profissão quando se faz isto. Não há como substituir. Quero continuar ativa e inspirar mais mulheres a aventurarem-se no cliff diving. Quem sabe um dia não se torna uma modalidade olímpica?»

Mãe de três também consegue

A pequena e franzina Lysanne Richard também se diz apaixonada por este ilhéu selvagem na costa sul da ilha de São Miguel, paisagem protegida e zona privilegiada de nidificação de cagarros. Esta canadiana de 34 anos vinha confiante e tinha motivos para isso: à semelhança do que aconteceu no ano passado, conquistou o segundo lugar na competição com o seu salto preferido, um encarpado com três mortais invertidos e uma pirueta. Além de cliff diver, Lysanne ainda arranja tempo para ser artista no Cirque du Soleil, formadora em escolas sobre os benefícios da atividade física e, mais que tudo, mãe dos seus três filhos (um adolescente, uma criança de sete e um bebé de dois anos). Mas Lysanne não hesita em afirmar que os filhos são o maior desafio que enfrenta na vida, não superável por nenhuma falésia acima dos vinte metros de altura. «A família vem sempre primeiro e muitas vezes atrapalha-me os treinos, nunca posso prever quanto tempo vou conseguir treinar em cada semana. Mas o facto de ser mãe também me tornou mais focada e organizada. Sinto-me uma mulher cheia de sorte e adoro a minha vida!», diz, no final da competição, ansiosa para rever a família, em Montreal, no dia seguinte. E o que se imagina a fazer daqui a vinte anos? «Não faço ideia! Talvez seja avó! Claro que queria continuar a mergulhar até o mais tarde possível, mas talvez vinte anos seja demasiado ambicioso… Possivelmente volto para o circo e trabalho mais a parte da caracterização e da interpretação.»

Lesões e surpresas

Adriana Jimenez sabe bem o que é lesionar-se. A mexicana de 31 anos que chegou a ser atleta olímpica já teve de recuperar de uma lesão nas costas e em 2015 viu-se obrigada a desistir da competição devido a uma gastroenterite. Não admira que o seu maior desejo seja manter-se saudável durante toda esta época. Uma opção consciente, já que nem os dois mais recentes saltos que desenvolveu – o triplo mortal invertido e o mortal quadruplo e meio – lhe valeram em matéria de pontuação nesta etapa açoriana. Acabou a prova no fundo da tabela…

A americana Rachelle Simpson, Rocco para os amigos, foi outra desilusão. Favorita, depois de dois anos a vencer esta competição, a ginasta texana de 28 anos terminou com «apenas» 196 pontos, bem abaixo do habitual. Compatriota de Rocco, também vinda de San Antonio, Texas, Cesilie Carlton venceu em 2015 a etapa de Vila Franca do Campo, na qualidade de wild card (estreante convidada que não integra o quadro principal da competição). Esperava-se que este ano repetisse a proeza, mas a pontuação da americana de 35 anos não foi além dos 213,25.

Já Rhiannan Iffland, australiana de 24 anos, chegou, viu e venceu. Entrou como wild card – mas já tinha mostrado no Texas, em junho, de que material é feita ao dominar a primeira ronda de saltos – e conquistou, para surpresa de todos, o topo do pódio com um total de 251 pontos. Rhi – é assim o seu nickname – é mergulhadora de competição desde a adolescência e só recentemente começou a saltar de penhascos. Vai dar muito que falar, arriscamos prever. Tal como a sua compatriota Helena Merten, de apenas 21 anos. A mais jovem atleta de sempre a integrar o circuito mundial de cliff diving não brilhou na etapa dos Açores, mas o facto é que esta acrobata da Gold Coast só descobriu recentemente, desde 2013, os encantos do cliff diving. Tem tempo para mostrar o que vale.

Jaki (Jacqueline) Valente, wild card e a única atleta a falar português (do Brasil) presente no ilhéu, ainda tentou a sorte ao desempenhar o salto mais complexo da ronda, com saída em pino. Mas nem assim a brasileira de 30 anos conseguiu bater a vencedora… Fica para a próxima etapa.

As atletas têm a próxima aparição prevista para 28 de agosto noutro dos locais icónicos dos saltos para a água, o Bastião de Santo Stefano, em Polignano a Mare, em Itália.


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SEGURANÇA MÁXIMA

Acima dos 28 metros não se recomendam saltos, uma vez que não beneficiariam em nada a performance dos atletas aumentando seriamente o risco de lesões. O maior risco ocorre no momento do impacto com a água, em que partes do corpo já estão expostas a uma desaceleração absoluta e outras, acima da superfície da água, estão ainda em velocidade máxima. A tensão física é muito importante – necessária, mesmo. Porém, devido à experiência e treino técnico dos atletas que participam no Red Bull Cliff Diving World Series, os acidentes graves são quase inexistentes. Ainda assim, o aparato de segurança é considerável. A plataforma de salto, uma prancha com um comprimento mínimo de 1,5 metros e uma largura de 0,75 metros, estende-se pelo menos dois metros além da linha de queda vertical. A profundidade da água tem de ser superior a cinco metros e há um repuxo de água para servir de ponto de referência aos atletas em relação ao nível da água.

CLIFF QUÊ?

Em 2009, o que era impensável transformou-se num desporto radical com popularidade crescente. Na verdade, o cliff diving já tem, enquanto prática desportiva, mais de 250 anos, mas vivia circunscrito aos longínquos penhascos do Havai. De repente, saltar de plataformas rochosas para o mar com um máximo de acrobacias e entrar na água na tentativa de não fazer salpicos é cool e a palavra de ordem é conquistar mais atletas para a modalidade e conseguir levá-las aos Jogos Olímpicos. E tudo graças à Red Bull, marca de bebidas energéticas que, desde 2009, patrocina a competição mundial de cliff diving. Mas afinal que desporto é este que não chega a ser olímpico, mas que já podia ser? O cliff diving nasceu no Havai, nos finais de 1700. Consta que foi Kahekili, o último rei independente no Maui, que inventou a modalidade Lele Kawa, que significa, em havaiano, «saltar para a água de pés de um rochedo muito alto sem fazer um efeito de splash». Kahekili usava estes mergulhos como ritos de iniciação dos seus guerreiros, que tinham de pôr em prática os princípios havaianos de «mana» (poder) e «pono» (equilíbrio) ao saltarem diretamente dos penhascos sagrados de lava de Kaunolu. De ritual de dimensão espiritual a prática evoluiu, sendo o cliff diving hoje considerado um desporto radical. Puro e extremo, disputa-se em ambientes e destinos únicos, tendo como cenários privilegiados a natureza ou grandes cidades. Consiste em saltos complexos e manobras acrobáticas, executados por atletas experientes, ao longo de nove etapas (Texas, Copenhaga, São Miguel, La Rochelle, Polignano a Mare, Pembrokeshire, Mostar, Shirahama e Dubai) para os homens – para as mulheres são sete –, disputadas entre junho e outubro. Os homens saltam de uma altura máxima de 28 metros. As mulheres, dos 20 metros. Bemacima dos 10 metros, a altura máxima do salto olímpico, e com um impacto nove vezes superior. Daí que se apelide esta modalidade de high diving (alto mergulho, numa tradução livre). Três segundos de queda a pique separam os atletas do ponto de entrada na água, onde entram a velocidades acima dos 85 km/h e mais de 5 G de força física. Um impacto equivalente ao embate contra um muro de betão. Isso explica o facto de, em todo o mundo, existirem apenas perto de cinco dezenas de atletas a praticar esta modalidade extrema de elite. O Red Bull Cliff Diving World Series, que no fundo é o campeonato mundial da modalidade, existe desde 2009 – apenas para os atletas masculinos, já que o circuito mundial feminino é bem mais recente, só foi introduzido em 2014 –, passou este ano pelos Açores pelo quinto ano consecutivo.

Rita Ibérico Nogueira
Fotografia Dean Treml, Paulo Calisto, Predrag Vuckovic e Romina Amato, Red Bull Content Pool