Kim Sayer: a embaixatriz ativa

Kim Sayer

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Entrevista a Kim Sayer, mulher do embaixador dos EUA em Portugal, que fomenta o empreendedorismo.

Kim Sawyer é a embaixatriz americana, mulher do já famoso fã do nosso futebol, o embaixador Bob Sherman. Em Portugal desde 2014, esta advogada e mulher de negócios fundou um programa de apoio a empreendedoras, Connect to Success, que se tornou uma bem-sucedida rede de negócios no feminino. A embaixatriz fala sobre as razões do sucesso do programa, explica porque decidiu «retribuir» a felicidade que encontrou em Portugal, refere a importância de questões muito básicas para a igualdade de géneros e também se declara fã do entusiasmo pelo futebol em Portugal.

Sempre que a embaixatriz americana em Lisboa, Kim Sawyer, sobe ao último andar do edifício da Rua Sacramento à Lapa onde mora fica mais agradecida pela sorte que tem. A torre da residência do embaixador americano é um promontório sobre o Mar da Palha, uma das melhores vistas de Lisboa. «Se eu soubesse que era isto que nos esperava quando aceitámos a posição em Lisboa teria ficado ainda mais contente», diz, meio a brincar.

Kim é mulher do mais famoso embaixador americano de sempre, Robert Sherman – sim, esse, o dos vídeos de apoio à seleção no Euro, em Portugal desde 2014. Mas esta entrevista não é sobre a diplomacia do croquete a que normalmente estão votadas as embaixatrizes. Isso nunca podia ser a vida desta advogada americana de Nova Iorque, uma mulher de negócios, bem-sucedida, feminista. Kim tem uma firma de advocacia em Boston, e não podia ficar parada. Então, além de passar em Lisboa apenas uma semana por mês, inventou um programa da embaixada para ajudar mulheres empreendedoras, o Connect to Success.

Em parte, o programa tem que ver com a vista de Kim no último andar da embaixada. Baseia-se na ideia da retribuição: «Pensei no que podia fazer no tempo limitado que ia ter em Portugal, que pudesse fazer a diferença. Sabia da economia, como a situação estava. E pensei: quais são as minhas capacidades? Sim, eu sei como gerir pequenos negócios.» O programa tem três anos e já envolveu mais de 700 mulheres. Elas inscrevem-se no início de cada nova fase e ganham acesso a um ano com um mentor numa grande empresa que as ajuda a pensar os seus negócios, participam em workshops e fazem formação com estudantes de MBA de universidades. Tudo isto cria uma rede de contactos que, para Kim, é um dos primeiros passos no sentido da igualdade de oportunidades neste mundo empresarial.

Está contente com a primeira mulher candidata às eleições americanas?
Há algo incrivelmente excitante numa mulher ser candidata. Mas o mais importante é que Hillary Clinton não esteja nessa posição por ser mulher, mas por ser a mais qualificada. Não posso comentar muito este assunto neste momento. Mas o mundo está a mudar.

Porque demorou tanto tempo?
Não sei… No primeiro mandato de Obama, e apesar de gostar muito que as mulheres tenham esta oportunidade, apoiei-o. Com o Obama tivemos o primeiro afro-americano, algo muito excitante.

O facto de Hillary Clinton ser ex-primeira-dama não lhe dá sentimentos contraditórios?
Essa questão parte de premissas que não são verdadeiras. Ela foi uma advogada de sucesso, independentemente do marido. No programa Connect to Success falamos da questão que se põe em relação às mulheres: elas não fazem networking… Hillary teve oportunidade de fazer networking. Foi ótimo. Terá feito isso antes sequer de o marido ser eleito. E tomou vantagem das coisas como toda a gente devia. Essa questão não se poria se ela tivesse sido presidente antes e só depois Bill Clinton. É um pouco sexista…

Sim, é.
Penso em Bob e em mim, vou fazer a analogia. Eu tenho conexões diferentes das dele, em Portugal, por causa do programa. Nenhuma delas me foi apresentada por ele. Claro que o facto de ser embaixatriz me abre portas, mas conquistei o meu lugar. Se me googlar… a maior parte das referências na imprensa não tem que ver com o meu marido. E imagino que muito do que eu fiz é o que Hillary fez. Ela decidiu que se ia interessar pelo sistema de saúde, e fez isso.

Porque considera essa questão do networking, das ligações, como um passo para a igualdade?
Uma das questões maiores da desigualdade é o desproporcional peso familiar para as mulheres, em termos do que é o trabalho em casa, das crianças, tomar conta dos mais velhos. Enquanto isso não mudar, muito pouco vai poder mudar. Uma das maneiras de desenvolver relações de negócios é o networking, sair depois do trabalho para uma bebida, jantar com os colegas ou os potenciais parceiros. Se tivermos de estar em casa todas as noites para fazer o jantar, ou tratar das crianças, vamos falhar esta oportunidade. É necessário participar nisto tudo se quisermos estar no mesmo tabuleiro de jogo e ter as mesmas oportunidades. E é mesmo uma pena. Porque é uma falsa fronteira.

Porquê falsa?
É algo que devia ser resolvido entre o marido e a mulher. Temos de nos afastar do que a sociedade dita e encontrar o que funciona para a nossa relação. É bom ter uma conversa entre marido e mulher e dizer: «Eu sei que os meus pais fizeram assim, os nossos amigos fazem assim, mas vamos falar.» Estes programas não são só bons para as mulheres, são bons para a sociedade, para os negócios. As grandes companhias estão a perder em metade da população. Há mais mulheres a tirar cursos superiores do que homens! Há seis vezes mais mulheres com licenciaturas do que na geração das mães delas. E não fazem parte da pool do talento – não são olhadas da mesma forma. E sobretudo porque não fazem networking. A razão de a diversidade de género não ser apenas a coisa certa mas também a coisa inteligente para fazer é porque as mulheres trazem perspetivas diferentes, experiências, capacidades, julgamentos à mesa. Não nos torna melhores, mas é assim.

Isto é mais verdade aqui ou nos EUA?
Culturalmente é um pouco diferente. Tenho amigas nos EUA que ganham muito mais dinheiro do que os maridos, e são eles que tratam da família. Vão às reuniões dos filhos na escola, quando é preciso levam-os à atividade pós-escolar, preparam o jantar… Isto é hoje muito mais comum e não é olhado da mesma forma como é aqui em Portugal. A economia tornou claro que ambos os pais deviam trabalhar e que, no fim do dia, o membro do casal que traz mais rendimento para casa é aquele, independentemente do género, a cujo trabalho é dada mais prioridade.

Muitas dessas questões, por serem consideradas comezinhas, não são faladas…
Isso é cultural. Aprendi em Portugal que as pessoas são muito reservadas sobre o que acontece nas suas casas. E este é o tipo de questão que fica rodeada de silêncio. Quando chegou viu a forma como comecei esta conversa. Falámos sobre como eu peguei na caneca do meu marido, a levei para a embaixada, deixei-a lá e ele ficou zangado. Eu estava a partilhar isto porque para mim é normal, é parte da vida. Acho que tudo vai dar ao assunto da autoconfiança.

Como?
O medo de falhar e de correr riscos, que é muito português. Em geral, nos Estados Unidos há uma sociedade mais aberta, as pessoas não esperam que as outras pessoas sejam perfeitas. O crescimento implica erro. E desde que aprendamos com os erros, não há problema. As pessoas em Portugal são tão orgulhosas… Há uma conotação negativa se eu deixo alguém ver algo que seja um erro. Se a minha casa não funciona tão bem como a tua, vai haver um julgamento sobre isso. Ser bem-sucedido implica duas coisas: uma é ser-se autossuficiente, economicamente, e a outra é ter-se confiança, e são ambas importantes. Demasiadas sociedades têm problemas de violência doméstica, por exemplo. Em Portugal é mesmo mau. De cada vez que volto, ouço falar de mais uma morte. Os estudos dizem que as mulheres escolhem ficar nessas situações porque é a única maneira que conseguem para as suas crianças terem comida, roupa, e elas também. A única maneira de acabar com este ciclo de violência é fazermos que as mulheres tenham independência económica e confiança. Também há gente de classes mais altas vítima de abuso doméstico. E aqui o assunto não é financeiro. É o sentimento de que estamos a fazer algo errado, ter vergonha de que isto esteja a acontecer-me. As mulheres precisam de ter confiança e dizer: «Não sou eu, isto não é sobre mim.»

Em que é que o Connect to Success pode ajudar?
Ajudando a ensinar as ferramentas básicas para se ser bem-sucedido e confiante. Por melhor que sejamos a construir um business plan, e por muito que aprendamos como fazer uma apresentação, a não ser que acreditemos em nós, quem vai acreditar no nosso produto? Muito do que estamos a tentar fazer é criar esse sistema de suporte que cria a autoconfiança. Vou contar uma história: num encontro nos Açores, com um grupo de mulheres empreendedoras, eu comecei a falar das minhas experiências, das minhas lutas, e abri-me sobre mim, as minhas dificuldades de aprendizagem, e as pessoas começaram a falar, a abrir-se, e falaram durante uma hora. As dirigentes da Sedea, uma organização de dinamização da economia, disseram que nunca tinham ouvido falar daquilo.

A sua empresa de advocacia foi o seu sonho realizado?
Mais ou menos. Eu tenho uma severa deficiência de aprendizagem – sempre tive, desde criança. Por isso a forma de eu ser bem-sucedida seria criar o meu próprio ambiente de trabalho. Não sei a tabuada, não consigo ler a minha própria letra, não penso nem faço coisas como as outras pessoas. Por isso não me enquadro num ambiente tradicional. Outra parte tem que ver com o facto de ter lidado com muita discriminação de género. Foi há muito tempo… Má, muito má.

No mundo da advocacia?
Sim. Não que me importasse… Mas tudo, desde comentários sexuais, a coisas para que não fui convidada e devia ter sido, por ser mulher. Fazer um trabalho e ele ser apresentado por outro advogado. E acabei por ir trabalhar numa empresa mais pequena, interessante, mas onde tinha de fazer coisas em que não acreditava. Tenho este teste do espelho: todos as manhãs levanto-me e tenho de ser capaz de olhar-me ao espelho e sentir-me bem com o que fiz. Não estava a passar no teste. Estava na altura de mudar. Tive apoio de um ex-cliente meu a quem eu tinha ajudado numa grande redução de um problema de impostos que me tinha dito que se algum dia decidisse começar uma companhia ele investia em mim. E liguei-lhe. Ele investiu 120 mil dólares e comecei a empresa, há 23 anos. Comprei as quotas dele cinco anos depois. Hoje temos 28 funcionários.

Saltos altos e poder…
Sim. As mulheres dizem-me que ambos não vão bem uns com os outros. Eu acredito que quanto mais poder tiver, melhores saltos altos posso comprar! E decidir onde os poderei levar. Exceto na calçada portuguesa, talvez… Esse é um dos estereótipos com que me tenho cruzado, é esta ideia de que não se pode ler a Vogue e o Economist. Que tem de ser masculino para ser bem-sucedido no mundo empresarial.

Qual é o balanço que faz do programa?
Fizemos muito. Mas o que é fantástico é falar com as mulheres e ver a confiança delas. O facto de as mulheres do Connect to Success terem começado o seu próprio facebook e de estarem a criar o seu próprio networking. Estão a vender os produtos umas das outras. É uma rede de mulheres incríveis, talentosas.

Nunca tinha tido ideia disto antes?
Não. Eu só trabalhava! Fazia algumas coisas em mentorado, apoiava organizações de mulheres. Falava publicamente sobre isto. Mas nada como isto. Não tinha tempo. E, já agora, eu não tenho tempo!

A sua vida deve ser caótica. Vindo cá uma vez por mês, voos internacionais e jet lag
Na última sexta-feira, cheguei cá, tomei duche, meti-me no carro e fui para Coimbra, fizemos workshops, imprensa, tivemos um jantar e voltámos à uma da manhã.

O programa vai continuar depois da vossa saída?
Espero que a saída seja mais tarde do que mais cedo. Depende do que acontecer em novembro. Mas tanto a embaixada como o Departamento de Estado reconheceram o valor do programa. Temos agora uma bolsa com a FLAD. Acho que o tornámos tão importante, há tanta gente envolvida, que acredito que vai haver uma forma qualquer de continuar. Além disso, é grátis.

O embaixador Bob Sherman trouxe uma forma de ser diplomata a que os portugueses não estão habituados, aberto e sorridente.
Queremos ser parte do que se passa aqui. E sermos gratos por aqui estarmos.

Tenho de lhe fazer uma pergunta neste contexto: quando o seu marido soube que vinha para cá, pôs-se a questão de trocar a sua vida pela vida dele…
Nunca ninguém me fez essa pergunta. Ele não ganhou o cargo. Ele ganhou esta posição por causa de nós dois. Nos últimos seis anos trabalhámos juntos, na campanha do Obama, para estar em posição para que o Bob fosse nomeado. Isto foi cem por cento uma decisão conjunta. E o Bob pôs as coisas claras: se fosse algo que eu não quisesse, ele não faria. E, depois, escolhemos em conjunto. Ofereceram-lhe da primeira vez que o presidente Obama foi eleito. Ambos decidimos que não, tínhamo-nos casado há quatro anos, não seria bom para o casamento. Não queríamos viver duas vidas com tão pouco tempo de casados.

Não puseram a hipótese de vir com ele?
Não. Faria o que estou a fazer, mas não ia funcionar. Outra das posições oferecidas era uma «posição multilateral», em que ia ter de estar em vários lugares, numa instituição internacional. E eu não ia conseguir construir uma vida para mim à volta dessa posição. O que o poder significa, para mim, é a escolha. E, já agora, eu pus-me a mim própria numa situação financeira que me permite fazer isto. As viagens, tudo. Nada disso é pago pela embaixada. Por isso, isto não foi uma cedência da minha parte. Isto foi cem por cento uma decisão conjunta. Eu não vou a imensos eventos com ele. Não estou cá. E quando estou, tenho a minha agenda!

Em Boston tinha alguma relação com a comunidade portuguesa?
Não. Sou de Nova Iorque, o meu pai era advogado. Vivo em Boston desde a faculdade. Temos alguns amigos que viviam na área de New Bedford e Fall River e há lá sempre portugueses. O Bob cresceu em Brockton, que tem uma grande comunidade portuguesa.

E já é fã de futebol?
Não sou grande fã de futebol, isso dos desportos, europeus ou americanos, é mais com ele. Mas não há nada melhor do que ouvir as ruas em excitação quando Portugal ganha. Nunca vi nenhum entusiasmo com nenhum desporto como aqui com o futebol. Posso não ser a maior fã de futebol, mas é fantástico ver a excitação das pessoas, é contagiante.
UMA EMBAIXATRIZ DE NEGÓCIOS
Kim Sawyer nasceu em Nova Iorque, estudou em Boston, Direito, e tornou-se advogada especialista em assuntos fiscais. Há 23 anos criou a sua própria empresa, a TLSG, de recuperação de ativos em empresas falidas que foi considerada pela Fortune como uma das cem com mais rápido crescimento. Kim foi nomeada a estrela das empreededoras pela CWE e ganhou, em 2011, o prémio de mulher empreendedora da Ernst & Young. É democrata e participou ativamente com Bob Sherman nas campanhas de Barack Obama – o que lhes valeu a oferta da posição diplomática. Kim conta que, embora desejasse muito vir para a Europa, quando começou a pensar na questão se assustou. «Eu tenho e dirijo uma empresa, tem 23 anos. É a minha bebé. Não tenho filhos – só me casei quando já estava nos 40 anos. O que é que eu ia fazer? Não podia vir para Portugal e deixar o meu bebé.» Resolveu o assunto vindo uma semana por mês a Portugal, onde tem uma preenchidíssima agenda a dinamizar e participar nas ações do Connect to Success. O resto do tempo está no Massachussets a gerir a sua firma. Foi numa dessas estadas que a entrevistámos.

O marido de Kim Sawyer, Bob Sherman, é um grande apoiante da seleção nacional de futebol. Durante o Campeonato da Europa, ficaram famosos os vídeos em que o embaixador dos EUA em Portugal revelava o apoio incondicional à equipa que defendia as cores nacionais em França.

CONETAR-SE AO SUCESSO
O programa Connect to Success funciona na Embaixada Americana e dirige-se a mulheres empreendedoras ou a pequenos negócios em que a maior parte do capital está em mãos femininas. Já chegou a mais de 700 mulheres, em três anos. Além do mentoring em 36 grandes empresas durante um ano, já fez 28 workshops, apoiou 58 negócios e tem apoio dos mais importantes MBA do país. As próximas reuniões são nos Açores. Informações na página do Facebook.

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