OPINIÃO

Os segredos da longevidade

Não queremos apenas viver mais tempo...

Queremos todos os anos extra que seja possível, mas com saúde. E a ciência tem olhado para este desafio com muita atenção.

A francesa Jeanne Louise Calment foi a pessoa que mais tempo viveu: nasceu no dia 21 de fevereiro de 1875 e morreu a 4 de agosto de 1997. Foram 122 anos e 164 dias. Desde junho deste ano, a detentora do título Decana da Humanidade pertence a Susannah Mushatt Jones, norte-americana de 116 anos.

Portugal, apesar de nunca ter tido ninguém com este título, está bem classificado nas estatísticas referentes à esperança média de vida, sobretudo entre as mulheres. O último relatório «Estatísticas Mundiais de Saúde», publicado pela Organização Mundial de Saúde no ano passado, coloca-nos entre os dez países onde a esperança média de vida das mulheres à nascença é mais elevada: 84 anos. No topo da lista feminina está o Japão, com uma esperança de vida de 87 anos. Olhando para a população masculina, o primeiro lugar do ranking é ocupado pela Islândia, com uma esperança média de vida à nascença de 81,2 anos.

O número de anos que vivemos tem aumentado desde o início do século xx. Saneamento básico, vacinação, descobertas no campo da saúde e do estilo de vida e acesso a cuidados de saúde e a proteção social são alguns ingredientes da fórmula da longevidade. Os genes têm peso na nossa possibilidade de chegar a velhos, mas apenas dez por cento da quantidade de anos que vivemos são ditados pela genética. Os restantes 90 por cento são definidos pelos comportamentos.

Com isso em mente, muitos investigadores têm-se dedicado a estudar o que convencionou chamar-se de «zonas azuis», locais onde a longevidade é, de forma expressiva, bastante acima da média. As quatro mais conhecidas são uma comunidade de adventistas do sétimo dia em Loma Linda, nos EUA, a Península de Nicoya, na Costa Rica, uma região montanhosa na Sardenha, em Itália e uma ilha de Okinawa, no Japão.

O explorador e autor da National Geographic Society Dan Buettner tem investigado muito sobre o tema. E descobriu diferenças significativas. Um exemplo: em Okinawa podemos encontrar a população feminina com a maior esperança média de vida saudável, ou seja, que mais anos vive sem limitações ou incapacidades – e são mais sete anos do que nos EUA. Ainda comparando com as médias norte-americanas, esta comunidade tem cinco vezes mais centenários, um quinto das taxas de cancro do cólon e de mama e um sexto das doenças cardiovasculares.

Depois de estudar os hábitos das pessoas que vivem nas zonas azuis, Dan Buettner chegou a nove pontos comuns entre estas comunidades. E é com base neles que assenta a fórmula para aproveitar mais anos de vida, com saúde. Tome nota: deslocam-se e movem-se naturalmente, incorporando o exercício nas atividades do dia-a-dia; têm formas de liberar o stress, sejam elas espirituais ou sociais; comem menos; são vegetarianos ou comem pouca carne, tendo dietas com base em vegetais; a maioria deles consome bebidas alcoólicas, embora com moderação; têm fé e praticam-na; têm como pedra basilar a família; têm redes sociais de suporte logístico e emocional bem estruturadas e, finalmente, têm um propósito de vida.

PARA VIVER MAIS (E MAIS FELIZ)
Exercício físico, alimentação saudável ou check-up regulares resultam em vidas mais longas. Isso já se sabe. Mas nem todas as conclusões de estudos apontam para receitas tão óbvias no que toca a aumentar a longevidade. Eis alguns resultados recentes, com conclusões menos conhecidas.

REFEIÇÕES APIMENTADAS
O consumo diário de pimenta foi associado a um risco menor de morte, doenças oncológicas, coronárias e respiratórias. Os autores do estudo advertem, porém, que não há uma relação causa-efeito comprovada, mas antes parte de uma investigação observacional.
(Fonte: Academia Chinesa de Ciências Médicas, num estudo publicado no British Medical Journal)

CASAR OU TER UM COMPANHEIRO(A)
Os adultos solteiros têm 2,3 vezes mais probabilidades de morrer mais cedo. A razão para esta relação é não só o facto de a conjugalidade oferecer apoio emocional, como também de fomentar a adoção conjunta de comportamentos mais saudáveis.
(Fonte: Universidade de Duke, nos Estados Unidos)

TER AMIGOS
Um estudo longitudinal feito ao longo de dez anos – e que envolveu mais de 1500 idosos – conclui que os que tinham mais amigos e maior número de contactos sociais apresentaram uma longevidade 22 por cento maior.
(Fonte: Centro de Estudos do Envelhecimento da Universidade Flinders, Austrália)

PASSEAR NO PARQUE
Para os idosos residentes em grandes cidades, a existência de espaços verdes, como parques e zonas arborizadas, onde seja possível passear perto de casa, é um indicador de taxas de sobrevivência mais elevadas, por comparação com aqueles que vivem cercados de prédios altos, sem zonas verdes.
(Fonte: Tokyo Medical and Dental University, Japão)

COMER FRUTOS SECOS
As pessoas que incluem nozes, castanhas, amêndoas ou avelãs na dieta diária vivem mais tempo e reduzem o risco de morte por cancro e doenças cardíacas. É a conclusão de um estudo baseado nos dados de cerca de 120 mil pessoas, seguidas ao longo de trinta anos.
(Fonte: Universidade Harvard, num estudo publicado no The New England Journal of Medicine)

Sofia Teixeira
Fotografia: Corbis