«As mulheres já falam mais sobre sexo»

NM1185_JMV02_SliderImage

Publicidade

Júlio Machado Vaz, sobre a vida, os filhos, os pais, as mulheres, o trabalho, o amor. E, claro, o sexo.

A poucos dias da estreia do filme As Cinquenta Sombras de Grey, o psiquiatra fala sobre o desejo dos portugueses, as mudanças de hábitos eróticos e o quanto evoluímos na nossa relação com o sexo ao longo dos últimos trinta anos – tantos como os que Júlio Machado Vaz leva de clínica. Pretexto para uma conversa sobre os primeiros tempos atrás do microfone da rádio ou à frente das câmaras de televisão. Sem esquecer a família, as mulheres e a vida.

A história começa na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, em meados dos anos 1980. Era aí que funcionava a Rádio Universi­tária do Porto, um pequeno emissor com um raio de ação de cinco quilómetros. Foi aí que o jovem psiquiatra começou a falar de sexuali­dade em frente a um microfone. Mal ele sabia que 15 anos depois teria um programa de tele­visão e que seria considerado um pioneiro na abordagem do tema. Desconstruindo-o e levando-o a um público centenas de milha­res de telespetadores. Quinze anos mais tarde, chegamos ao pre­sente. O psiquiatra tem hoje 65 anos é um dos nomes maiores do es­tudo da sexualidade em Portugal. Esta é a sua vida.

Aproxima-se mais um 14 de Fevereiro. Ainda há pachorra para o Dia dos Namorados?
_Eu nunca tive. A lenda é ternurenta, mas o aproveitamento comercial desta sociedade de consumo irrita-me sobremaneira. E temos de admitir que, em termos de filosofia, não há diferença com o que se tem feito pelo Natal e com outras datas.

Então, nunca celebrou o Dia dos Namorados? Não ofereceu flores ou fez convites para jantar ou deu presentes alusivos à data?
_Já. A esperança de um sorriso enternecido leva a melhor sobre o amuo com a sociedade de consumo.

Esta semana estreia a adaptação ao cinema do livro As Cinquenta Sombras de Grey. Leu o livro?
_Não.

Vai ver o filme?
_É pouco provável. Tenho outros para ver e os Oscares estão ao virar da esquina.

Mas sabe do que trata? Conhece a história?
_Vagamente. No consultório algumas pessoas falaram-me disso.

O livro anda muito em torno do universo sadomasoquista. E vendeu muito – em Portugal foram cerca de 450 mil exemplares, no mundo inteiro foram mais de cem milhões. Por algumas críticas, poderá ter tido uma função de estímulo, para muita gente. Leitoras, sobretudo. Concorda?
_Aquilo que fui lendo dizia que o livro apelava sobretudo às mulheres. A minha opinião está enviesada pela profissão que tenho, mas verifico com interesse a maior frequência com que casais vão a feiras eróticas. E até a espectáculos de sexo ao vivo. Além de me dizerem que utilizam material pornográfico nas suas vidas eróticas quotidianas. Ou seja, os estímulos existem.

E só o fazem juntos? Ou cada um também procura esses estímulos sozinho? Hoje em dia é muito fácil aceder a pornografia. É o maior negocio da internet.
_Ainda bem que fala nisso. Eu ainda ensinei aos meus alunos que as mulheres não se interessavam por pornografia. Mas hoje, com a internet e com a possibilidade de aceder em privado, o mito caiu completamente. As mulheres têm, pelo menos, curiosidade. Apesar de ser evidente que continua a haver pressão social. Eu ouço muito mais homens que adoram ou estão mesmo dependentes de pornografia.

Até porque grande parte da pornografia no mercado está feita para os homens e as mulheres não se reveem.
_Exatamente. As mulheres reveem-se em pornografia, mas num tipo de pornografia que tem, pelo menos, um esboço de narrativa. Se calhar é por isso que o livro teve tanto sucesso.

Já não é só a história do canalizador que vai arranjar o cano e 15 segundos depois…
_Normalmente isso diz muito pouco às mulheres. Com todas as exceções que possa haver. Eu também ouço mulheres dizer que o que querem é sexo puro e duro e não querem mais complicações, do género «Estou com necessidade de sexo e este fim-de-semana vou ter algum tipo de relação.» Já não são só os homens.

Ouve isso mais do que ouvia antes?
_Seguramente. Mas integremos isso num quadro mais lato. Há trinta anos, quando uma mulher me dizia «Tenho dúvidas se quero ser mãe», olhava para a carpete. Hoje, dizem com naturalidade «Não quero ter filhos». Ou seja, a pressão social continua a existir, mas elas resistem melhor.

Falei com algumas mulheres que leram o livro e dizem que isso terá contribuído para falarem mais sobre sexo. Nomeadamente entre si. Acha que falam pouco sobre o assunto?
_Algumas a quem eu ouvi falar do livro (e isto não tem qualquer significado estatístico) diziam que sim, que tinha sido um bom pretexto para falar com amigas. Sobre sexo, quero dizer. Já no que toca à qualidade literária, a maioria estava completamente desiludida.

Já me disse que não deverá ver o filme. Mas costuma estar atento a fenómenos destes? Filmes ou séries sobre relações? Há alguma que descarregue pela internet, para ver de rajada?
_Não. Até porque nem sei fazer isso. Se não estiver em casa, ponho a gravar e vejo as que gosto. Mas, e se calhar por causa da profissão, não sou muito de ver séries que giram à volta das relações.

O Sexo e a Cidade, Anatomia de Grey
_O Sexo e a Cidade via. Não gravava, mas via com alguma frequência. Anatomia de Grey já não aguento. É bom não esquecer que sou médico, e aquele ambiente cansa. Tive muita pena que acabasse o Boston Legal. Por curiosidade, e gostei muito, vi o Masters of Sex. Para ser sincero, achei a série muito mais interessante do que os livros que eles [William Masters e Virginia Johnson, pioneiros do estudo da sexualidade nos EUA, nas décadas de 1950 e 1960] escreveram. Que são livros incontornáveis, claro…

E hoje em dia, o que vê?
_Vejo uma data delas. Vejo a Good Wife, que agora recomeçou, vejo o Tyrant. Vi a última temporada do Segurança Nacional e não gostei.

Há uma série, antiga, que não resisto a perguntar-lhe se via. Lembro-me de si quando penso nela: Frasier, com o Kelsey Grammer. Recorda-se? Era um psiquiatra a falar na rádio. Revia-se naquilo?
_
Recordo. Tinha uma coisa fundamental, para mim: a capacidade de rir do indivíduo e da profissão. A psiquiatria é pesada. Perder o sentido de humor sobre o que fazemos e o que a psiquiatria tem de pesado, pode ser fatal. Estou a preparar uma conferência no Hospital Amadora-Sintra e não por acaso levo um slide com o princípio [da incerteza] de Heisenberg. A medicina move-se na incerteza, mas temos de ser justos: a psiquiatria então…

Como é que lida com esse peso? Anos e anos a ouvir os problemas dos outros.
_Pode dizer-se, e digo-o com orgulho, até porque sou basicamente um psicoterapeuta, que a psicoterapia é algo que se aprende, de preferência de forma obsessiva, para depois cultivarmos em liberdade o nosso próprio estilo. Mas é também uma arte, porque em psicoterapia não nos limitamos a ouvir. Tentamos escutar. E escutar é muito difícil.

Isso moldou muito a sua forma de ser?
_Moldou. Não digo que fosse o único factor, mas moldou.

Li entrevistas suas em que dizia que é mais depressivo do que propriamente eufórico. A profissão potenciou isso?
_Não creio que tivesse nada a ver com a profissão. Dou-lhe um exemplo: eu estive deprimido e estava a iniciar o internato de psiquiatria. Seria injusto culpar a profissão. Teve a ver com a minha problemática pessoal, apenas.

Foi a única vez que teve uma depressão? Foi diagnosticada por um colega?
_Foi a única vez, felizmente. E pedi uma segunda opinião, claro, depois de ouvir a primeira, que era a minha, quando me olhava ao espelho. Tive um diagnóstico clínico. Também foi decisão minha não fazer medicação. Se fosse hoje, não sei se não teria aceitado um cheirinho de antidepressivo.

Durante quanto tempo foi isso?
_Estive quatro anos e meio em psicanálise. Três vezes por semana. Comecei a arribar ao fim de dois anos, mais ou menos. Eu tinha 26/27 anos. Chegou uma altura em que achei – eventualmente por incapacidade minha, mas a psicoterapia é também um processo de crescimento – que já não estava a retirar dividendos. Voltava uma vez por ano ao meu psicanalista, para fazer uma revisão.

Três vezes por semana, durante quatro anos e meio. Deixava lá o ordenado. Quanto é que pagava na altura?
_Não me lembro. Mas a psicanálise é cara. Sempre foi. Durante esse tempo, se fui a restaurantes que não eram tascos, foi de três em três ou quatro em quatro meses. E já foi muito.

O facto de já ter passado por isso ajuda-o a perceber melhor a depressão, quando se trata dos seus pacientes?
_Ajuda muito.

E porquê a psiquiatria? Era paixão antiga?
_A psiquiatria foi o supremo alívio para quem detestava enfermarias e suportava mal perder um doente. A loucura e os nossos pequenos traços neuróticos, pelo contrário, nunca me assustaram, fascinavam-me.

O facto de o seu pai ser médico e professor na Faculdade de Medicina, o professor catedrático Júlio Machado de Sousa Vaz, teve alguma influência nessa decisão?
_Nenhuma, fui para Medicina «empurrado» subreticiamente por minha mãe.

E a sexologia?
_Tropecei na Sexologia Clínica no meu estágio na Suíça. Em Portugal nunca ninguém me falara de Disfunções Sexuais. Nem sequer da função normal!

Há quantos anos dá consultas?
_Há quase quarenta.

Tem 65 anos, feitos em outubro. Não pensa reformar-se do consultório?
_Enquanto estiver lúcido e houver pessoas que me procuram, não tenho intenção de o fazer.

Ainda aceita novos pacientes?
_Aceito.

Quantas consultas dá por semana?
_Prescrever com alguma ligeireza, é fácil. Ouvir pessoas durante horas seguidas, não é. Nunca fui pessoa de conseguir fazer maratonas de consultas. Por isso só dou consulta duas vezes por semana, máximo três. Nunca faço mais de seis consultas seguidas. Portanto, no máximo vejo 18 pessoas por semana.

Por preservação sua?
_Minha e de quem me vai pedir ajuda. O meu cansaço pode prejudicar alguém.

Nesses pedidos de ajuda que tem, sobretudo por parte de pacientes mulheres, ouve-as queixarem-se da falta de se sentirem desejadas? Pergunto isto porque foi outra coisa que me disseram que o livro pode despertar: ao compararem-se com a protagonista, algumas mulheres poderão sentir-se pouco desejadas. É uma queixa das portuguesas? Sentem-se pouco desejas pelos companheiros?
_Queixam-se a dois níveis: queixam-se de se sentirem pouco desejadas e queixam-se de ser menos cortejadas, o que é diferente.

Queixam-se mais hoje do que antigamente?
_Ah, não, isso nem pensar. Nas relações heterossexuais, pelo menos, hoje as mulheres têm um poder reivindicativo que não tinham há duas ou três décadas. Os homens são muito mais pressionados. Se as mulheres não estão satisfeitas nas relações que têm, partem para outra com muito mais facilidade. O que se passa é que antes disso confrontam os seus companheiros como eles não eram confrontados. E eu vejo isso em clínica. Vejo muitos homens que não chegam de moto próprio. Vêm para tentar salvar uma relação.

Chegam ao consultório com essa motivação? Ou tem casais que já chegam sabendo que o divórcio é o mais certo, e querem preparar-se para isso? É uma coisa que defende há muitos anos, a necessidade de as pessoas se prepararem para uma separação.
_As pessoas não chegam para preparar um divórcio. Isso não acontece. O discurso limite é «Esta é a última tentativa, mas queremos ficar com a consciência tranquila, tentámos tudo.» O que já me aconteceu é, a meio de uma tentativa, ao fim de algumas sessões, percebermos que não há nada a fazer, e a partir daí tentamos simplesmente que as coisas aconteçam de forma adulta. E também é frequente que alguém apareça a pedir ajuda para o casal mas que, consciente ou inconscientemente, assuma uma postura de co-terapeuta. «Eu vou ajudar-te a mudar o meu parceiro ou parceira.» Mas é preciso que entrem no mesmo barco que o outro. E percebam que salvar uma relação é uma negociação permanente, com cedências dos dois lados.

O número de pacientes em terapia de casal tem aumentado?
_São cada vez mais. Há vinte anos, as pessoas vinham ter comigo sobretudo por disfunções sexuais – por vezes eram pseudodisfunções. Cada vez mais, chegam e perguntam: «Como é que podemos permanecer juntos?»

Em Maio de 1998 dizia numa entrevista que, ao fim de vinte anos, começava a sentir algum cansaço da clínica. Passaram 17 anos. Como é que está esse cansaço?
_É uma boa pergunta. Nessa altura cheguei a reduzir o consultório para um dia por semana. Fazia muita coisa ao mesmo tempo e estava a ficar cansado. Mas estava também preocupado com a qualidade da minha clínica – que pode não ser a melhor do mundo, mas deve permitir-me sair do consultório com a consciência tranquila.

Mas nunca deixou de dar consultas.
_Não, nunca deixei. Houve uma altura em que não aceitava novos casos. Mas quando me reformei do ensino fiquei mais liberto [foi regente da cadeira de antropologia médica no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar – ICBAS]. E descobri que estava outra vez em melhor forma para a clínica. Neste momento dou mais consultas do que dava há dez anos.

Não passou pela depressão pós-reforma, tão comum nos homens. Até porque sempre teve outras actividades. A rádio, o consultório…
_Não, não passei por isso. Mas é-me familiar. Assisti a isso a isso de forma trágica com o meu pai. Fez uma depressão pós-reforma que foi muito penosa de ver. É incrível o estado em que ficou.

Como é que o filho psiquiatra olha para o pai, professor catedrático, ao vê-lo nesse estado?
_Ontem estava a fazer zapping e apanhei o filme que o Robert de Niro fez para homenagear o pai [Remembering the Artist, 2014], que era pintor e artista. E ele culpabiliza-se por não ter insistido mais com o pai, em termos de saúde, para ser visto. Morreu aos 71 anos, com um cancro da próstata e o Robert de Niro acha que ele podia ter vivido mais uns anos. Eu olho para isso e penso que devia ter falado mais com o meu pai sobre a saúde dele. Mas friamente penso que não teria tido êxito. Tinha um laboratório de análises que detestava, a vida dele era a faculdade. No dia em que deixou de dar aulas… A esse nível eu tinha uma enorme vantagem sobre ele. Para o meu pai, a faculdade era a vida, para mim é apenas uma das minhas atividades. Tinha a rádio, esporadicamente a televisão, há 17 anos que tenho Adaúfe [Comunidade Terapêutica para recuperação de toxicodependentes de Adaúfe, Braga, onde é diretor clínico] e há sete a Comunidade Paulo Vallada para mães adolescentes e os seus filhotes.

E continua a dar conferências, quando é convidado.
_Sim. Estou a preparar uma sobre Medicina, na verdade sobre Antropologia Médica, destinada aos novos internos do Hospital Amadora-Sintra. Dá-me trabalho preparar, mas é uma grande honra. E em Abril vou à Universidade Lusófona, a um ciclo de conferências que o meu filho mais velho organizou sobre a relação da arquitetura com outras áreas. A primeira foi com o meu irmão de afeto Manuel Sobrinho Simões, a quarta será comigo. Tenho aí livros que comprei propositadamente na Amazon para a preparar.

O facto de ser um convite do seu filho aumenta a responsabilidade?
_De uma maneira brutal. Nenhum público me angustia mais do que aqueles dois.

Tem saudades desse ambiente académico?
_Tenho saudades de algumas pessoas. De alguns alunos e alguns colegas. E dou valor aos convites que me fazem para apresentações ou conferências que decorrem em universidades. Agora, da Universidade, enquanto instituição, não tenho.

Que idade tinha quando começou a dar aulas na Faculdade de Medicina do Porto?
_Tinha 22 anos. E duas cervejas dentro, para tentar não fazer uma crise ansiosa. Comecei por ser monitor de genética, ainda antes de acabar o curso. Depois estagiei na Suíça durante um ano e quando voltei fui convidado para ir para o ICBAS dar aulas de Psicologia. Em 1990 ou 91, criaram a disciplina de Antropologia Médica e convidaram-me para reger a cadeira.

Contas feitas, quantos anos tem de ensino universitário? Entre o São João, o ICBAS e o mestrado em sexologia na Universidade Lusófona.
_Dos 22 aos 58 ou 59.

Falemos agora dos seus livros. À Beira Rio, Cartas a Maria, o último que lançou, no final do ano passado, é uma compilação de muitas «cartas a Maria» que foi escrevendo ao longo dos anos. A Maria são várias mulheres que foram passando pela sua vida? Ou é a sua mãe?
_Algumas dessas cartas já estão n’O Amor É (2007). E noutros livros mais recentes. Outras escrevi no blogue [murcon.blogspot.pt] ou no Facebook. São várias mulheres, sim, mas com a minha mãe como pano de fundo. É o que eu penso, pelo menos.. mas eu sou psiquiatra, logo suspeito.

Alguns livros resultaram de pistas de programas de rádio. Outros de crónicas de imprensa. Outros de desabafos ou reflexões do momento. E já vai em 14 títulos. Continua a dizer que é um «escrevinhador», e não um escritor?
_Sim, sim. A escrita, na minha vida, nunca foi uma atividade central, mas um escape. Olhe, quando recebi as provas do À Beira Rio, tive de tomar uma decisão: ou as deixava estar como estavam, ou fazia correções. Tirar alguma coisa, acrescentar outra, corrigir a escrita, fosse o que fosse. Mas depois pensei que tinha sido assim que as escrevera, era assim que deviam ficar. Ora, a esmagadora maioria dessas cartas levou menos de 15 minutos a escrever. Normalmente ao fim do dia, quando estou esgotado. Aquilo sai de jato, e para mim não fazia sentido estar a retocá-las. Por isso, mantive-as como foram escritas originalmente.

Tem apenas um romance publicado, Muros (1996). Algum dia vai lançar outro?
_Não faço ideia. Já várias pessoas me fizeram essa pergunta, mas não sei se algum dia o farei. Foi uma promessa que não cumpri ao meu querido Eugénio de Andrade. Quando lancei o Muros, ele disse-me: «Há aqui páginas que são muito boas e há outras que podiam ser boas se tivesse tido tempo para escrever isto de outra maneira. Você não pode escrever isto aos bocadinhos, enquanto faz outras coisas.»

Sente-se capaz de fazer isso? De se fechar a escrever durante uma temporada? Fazer apenas isso…
_É uma boa dúvida. Mas tenho um álibi perfeito: eu vivo do que ganho. Não tenho rendimentos. Tenho de trabalhar e trabalho em muitas coisas. Estar uns meses sem trabalhar implicaria não receber dinheiro.

Mas não conseguiria? Tem poupanças que lhe permitem fazer isso, presumo.
_É aí que bate o ponto. Conseguia, se a motivação fosse suficientemente forte. Mas não é. E isso desilude-me um pouco. Houve em mim a fantasia de que um dia mais tarde haveria um apelo e eu teria de voltar ao romance. Mas não aconteceu. Não tive esse chamamento.

Por falar em chamamento. Como é que foi com a rádio? O psiquiatra da antena surgiu em meados da década de 1980.
_Sim. A convite de uma aluna que estava na Rádio Universitária do Porto e que fazia parte da minha equipa de Sexologia Clínica no Hospital de Magalhães Lemos. Ela pediu-me para falar de sexualidade num programa na rádio, que funcionava na Faculdade de Ciências. Devia ter um alcance de cinco quilómetros, ou menos.

Isso durou uns meses. E em 1989 nasceu o famoso Sexo dos Anjos.
_Sim, na Rádio Nova, que ia arrancar. Um convite do Aurélio Gomes, que tinha sido meu aluno, e me perguntou se eu queria fazer um programa de educação sexual com ele. Começou em setembro. Cada programa tinha um tema, até ao dia em que começámos a falar d’A Insustentável Leveza do Ser, do Milan Kundera, que eu andava a ler. Fizemos o programa sobre o livro, e no final choveram telefonemas de ouvintes que tinham gostado muito. A partir daí começámos a sair do tema da sexualidade e alargámos a filmes, livros, etc. O que fosse.

Quanto tempo durou?
_Nove anos. Seguiu-se A Bela e os Monstros, também na Nova, durante uns dois anos.

E quando é que passou para a Antena 1?
_Foi depois. Fui convidado pelo Rui Pego, pelo Luís Marinho e pelo António Macedo para fazer o Olhos nos Olhos, com a Ana Lamy. Na sequência disso, e ainda na Antena 1, comecei a fazer O Amor É.

Em 2002, com o António Macedo.
_Primeiro com o António Macedo, depois com a Ana Mesquita, e agora com a Inês Meneses.

É a sua parceira de programa mais antiga.
_Sim, sete anos, creio. E isso reflete-se na emissão. Continuamos a divertir-nos.

Continuam a gravar os programas todos da semana de uma só vez? O professor aqui em casa, a Inês em estúdio?
_Sim. Preparamos os temas nos dias anteriores, combinamos, eu pesquiso o que for preciso, e às quartas-feiras à tarde gravamos as cinco emissões pequenas e a grande, que passa ao fim-de-semana.

Nunca vos falta o tema?
_Não. Já nos repetimos, como é natural, mas nunca temos falta de tema. A atualidade encarrega-se disso. A internet e os jornais continuam a fornecer pistas importantes.

Vê mais online ou em papel?
_Vejo mais online. Porque vejo tudo, quando me levanto. Tudo o que apanho. Em papel costumo comprar o Público e o JN, que o meu pai já comprava.

As redes sociais também dão uma ajuda nisso. Hoje chega muita coisa pelo Facebook, por exemplo. Tira de lá muitas ideias?
_Algumas. Serve para ver do que as pessoas andam a falar. Aquelas pessoas. Os nossos amigos virtuais. Vale o que vale. E há muita gente que manda sugestões, links, notícias. Algumas são boas pistas…

Já vi que atingiu o limite de cinco mil amigos na perfil no Facebook? E quantos tem na página de fãs?
Eu tenho uma daquelas páginas, não sei se se chama assim, em que ponho as mesmas coisas, mas as pessoas só podem ler e comentar. Nessa tenho à volta de quinze mil.

Fica atento a isso? Os comentários, os likes?
_Às vezes. Por curiosidade. Tem piada, verificar a que é que as pessoas aderem mais ou menos. Mas há coisas que entram pelos olhos dentro. Pus a crónica do António Lobo Antunes sobre tratamento oncológico [publicado na revista e no site da Visão] e os likes ultrapassaram os mil e tal. Se acordar de manhã e me apetecer ter montes de likes, não é preciso pensar duas vezes – ponho um poema de Pablo Neruda e aquilo dispara.

Gosta disso? Que as pessoas reajam ao que escreve? Dos likes?
_A mim não me dizem nada. Tal como não idealizo os amigos do Facebook. São amigos entre aspas, embora só deva gentilezas à maioria deles. Mas a amizade, para mim, é «ao vivo e a cores». Não podemos é negar que a tecnologia tem vindo a modificar conceitos de amizade, de privacidade, etc.

Todas as noites despede-se dos seus seguidores no Facebook da mesma maneira: uma música, acompanhada da expressão «Boa noite, gente. Fiquem bem.» E as pessoas reagem. Escrevem sobre o dia que tiveram, desejam-lhe boa noite, falam do dia seguinte. Costuma ler esses comentários.
_Sim, eu faço isso. Porque lhes estou muito grato, foram solidários em determinadas alturas da minha vida. E leio, na medida do possível. E quando posso, respondo.

Responde às mensagens privadas que lhe enviam?
_A quase todas. E não é fácil.

Acredito que não. Quanto tempo gasta por dia a responder às mensagens privadas do Facebook?
_Prefiro dizer de outra maneira: entre e-mail, blogue, Facebook, etc., estou à vontade duas horas em frente ao computador todos os dias.

Já fez alguma correção na sua página na Wikipedia?
_Eu tenho uma página na Wikipedia? Não sabia. Tenho de ir ver isso.

Não é muito grande, nem tem muita informação, mas ela existe.
_Não fui eu que a criei. Nem fazia ideia que existia.

Tenho ideia que haverá muita gente que gostaria de dar dois dedos de conversa consigo. Convidá-lo a sentar-se no sofá lá de casa para falar durante algumas horas. No meio dessas mensagens todas a que responde, não recebe alguns convites para jantares? Encontros, blind dates?
_Sim, às vezes. As pessoas são muito generosas.

E, já agora, nunca nenhuma paciente se sentiu atraída pelo médico? Como é que se gere isso?
_Com tato. Por respeito e para não comprometer o processo terapêutico.

Rádio, jornais, internet… E a televisão? Quando é que chegou ao pequeno ecrã?
_Chego à televisão nos estúdios do Porto, com a Ivone Ferreira. Eram cinco minutos sobre questões sexuais, em meados dos anos 1980. Foi a primeira colaboração com televisão. Depois, em 1991, fui um dos convidados do Carlos Cruz Quarta-Feira, que estava a começar. Lembro-me de ir de fato e gravata, para ter um ar mais respeitável. O Carlos Cruz, quando me viu, disse-me: «Essa não é a imagem que me deram de si.»

Não gosta de gravatas, pois não?
_Não gosto nada. Eu tinha ido de jeans. Só mudei para o fato lá. Bom, no final do programa, o Carlos Cruz disse-me que tinha gostado da entrevista e disse-me também outra coisa: «Quando lhe propuserem um programa sobre sexologia, não aceite nada sem falar comigo.» Eu disse-lhe que sim, mas nunca mais pensei naquilo. Isto foi em outubro. Em dezembro uma produtora fez exatamente isso: convidou-me para um programa sobre sexualidade. Eu telefonei ao Cruz, ele pediu para almoçar comigo e o Sexualidades arrancou em setembro de 1992.

Sei que viu a primeira emissão com o seu amigo Francisco Allen Gomes, na véspera de gravarem a segunda, na qual ele foi convidado. E que no final ele disse «Boa sorte. Vais ser trucidado.» Confirma-se? Foi trucidado?
_Pelo público em geral fui mimado. Mas por quem mandava, fui censurado, isso sim. Eu pensava que o programa era para o segundo canal, mas foi para o primeiro e o que acabou por acontecer, passado algum tempo, é que o foi censurado e passou para a RTP 2 à uma e tal da manhã.

E a comunidade académica?
_Dividiu-se. Houve gente que me deu muita força por trazer estes temas para o grande público, e houve gente que ficou horrorizada pela maneira simplista, na opinião deles, como eu punha as coisas. Dou-lhe um exemplo: pouco tempo depois fiz uma conferência e uma colega minha teve a hombridade de vir ter comigo no final e dizer: «Tenho de lhe apresentar as minhas desculpas. Não pensei que fosse capaz de fazer uma conferência deste nível». Eu perguntei-lhe porquê e ela respondeu: «Pelo tipo de programa que faz na televisão».

Foi a primeira vez que alguém lhe disse isso, cara a cara? E que teve consciência desse preconceito?
_Nós, técnicos, temos a mania de nos fecharmos nos nossos dialetos e, num programa com aquelas características, eu tinha de falar de uma forma que toda a gente entendesse. Mas admito que a fronteira entre o simples e o simplista fosse ténue.

Ficou chocado com o que a sua colega lhe disse?
_Na verdade, fiquei lisonjeado, porque era um elogio à conferência. Mas depois, a frio, aquilo fez-me pensar. E achei que estava no bom caminho. Até pela recetividade que tinha na rua.

Quanto tempo durou o programa?
_Foram duas temporadas.

E depois disso já não parou na relação com a televisão. Ligações Perigosas, Estes Difíceis Amores, convidado para comentar temas de sexualidade. Passou pelo Trio de Ataque, na RTP, também, a falar de futebol.
_E agora estou no Porto Canal.

Já lida melhor com os diretos?
_Ainda me assustam um pouco. Os programas gravados dão-me uma grande segurança.

Ficou amigo do Carlos Cruz?
_É uma questão complicada, essa. No primeiro ano do Sexualidades, não houve uma única ida minha a Lisboa para gravar o programa em que eu e o Carlos não estivéssemos juntos. Eu ia à quinta-feira, acabava de preparar o programa no hotel, gravava à sexta-feira e normalmente jantávamos sempre nesse dia, no English Bar, em Cascais. No segundo ano, houve um afastamento dele, para o qual não tenho explicação. Ele teve um problema cardíaco e lembro-me de o ir visitar ao hospital e falar sobre isso. E dizer que estava incomodado. «Você tem razão, quando sair daqui vamos voltar aos nossos jantares…» Mas isso não aconteceu.

Não voltaram a falar?
_No final do segundo ano do Sexualidades, quando me vim embora, fizemos um jantar de despedida e o Carlos Cruz foi, que me lembre, a única pessoa que faltou. Escrevi-lhe um cartão a agradecer a confiança depositada no meu trabalho, mas para o qual nunca tive resposta. Nunca mais falei com ele.

Como é que viu o envolvimento do nome dele no processo Casa Pia?
_Nessa altura fiquei numa situação desagradável, porque vários jornalistas telefonaram-me a pedir entrevistas e um dia um deles disse, perante o meu silêncio, «Pois, é amigo dele.» Ora, sendo eu sexólogo, percebi que o meu silêncio poderia ser interpretado como proteção a alguém. Lembro-me de na altura ter escrito uma crónica no JN para esclarecer que nos dois anos em que tinha privado de perto com o Carlos Cruz, nunca tinha visto qualquer indício que me levasse a pensar no que estava em cima da mesa. E acrescentava que esperava que nada daquilo fosse verdade, mas a minha obrigação era dar o benefício da dúvida à justiça.

E o que é que pensa hoje? Com o julgamento feito, pessoas a cumprir pena…
__Continuo a achar que era preciso dar o benefício da dúvida à justiça. E ao arguido, A minha profissão ensinou-me que não podemos ter certezas absolutas sobre este tipo de coisas. Mas o abuso de menores é uma coisa tão socialmente reprovável que, evidentemente, quem faz estas coisas esconde-o de toda a gente. E há outra coisa: tendo eu 65 anos, sendo eu sexólogo, tendo eu escrito o que escrevi e tendo sido ouvidas centenas de testemunhas, não ter sido contactado como testemunha quer dizer alguma coisa. De uma forma ou de outra, devo ter ofendido ou magoado o Carlos Cruz.

Entre tantas solicitações que teve em vários momentos da sua vida, com o consultório, as aulas, a rádio, a televisão e a sua vida pessoal, como marido e pai… Como é que isso tudo se conciliava? Por exemplo: mudava fraldas aos seus filhos?
_Era péssimo nisso. Só era bom a adormecê-los. Os meus filhos são muito mais competentes nessas coisas do que eu alguma vez fui. Quer dizer, o mais novo não tem ainda filhos, mas cozinha bem.

E o professor, sabe cozinhar?
_Tentei aprender, mas era demasiado perfecionista, ficava possesso com os resultados miseráveis. Rendi-me à evidência e passei a comprar comida feita.

Ao nível da partilha de tarefas em casa, a sua prática não era muita, então.
_Eu era o tipo que os adormecia. Contava péssimas histórias, talvez por isso eles adormecessem.

E as outras tarefas?
_Era um produto acabado, filho único, educado para estudar e ponto final.

Mimado?
_Sim, um pouco. E macho latino. Se alguma coisa me era pedida, eu fazia, mas espontaneamente, não…. Tudo o que ultrapassasse pôr a mesa era alheio para mim.

E levou esses hábitos para a sua vida de casal, certo? Era aquele que ajudava, não propriamente que fazia.
_Claro. Depois passei a ajudar mais, porque era chamado à atenção. E tinha muito orgulho em ajudar, o que é ridículo.

Ainda assim, em casa dos seus pais havia uma situação pouco comum para a época: a sua mãe tinha uma profissão. Melhor, uma carreira. A atriz e cantora Maria Clara não era a típica dona de casa, numa altura em que isso era a norma. Como é que o seu pai via isso?
_O meu pai tinha um ouvido catastrófico, como o meu, mas tinha um orgulho extraordinário nela. Tinha 40 anos quando casou com a minha mãe, 14 anos mais nova. E conquistar a atriz de sucesso terá sido, para ele, um feito. Ele tinha fama de pinga-amor, mas foi por ela que se apaixonou perdidamente. Durante anos e anos, quando a minha mãe chegava dos espetáculos em Lisboa, o meu pai esperava-a com um enorme ramo de flores. Apesar de a minha mãe não gostar particularmente de flores. Mas ele não sabia e ela não queria dizer-lhe. O meu pai, como de costume, depois ia para os livros e a minha mãe perguntava-me: «E agora, o que é que eu faço a isto?»

Em que é que sai ao seu pai? Assim de repente.
_Nos livros. A paixão pelos livros.

E à sua mãe?
_Da minha mãe tenho o gosto pelo sossego e pela música – apesar de ter um ouvido de pedra. E acho que ou construí ou herdei uma coisa que ela tinha: a timidez e o medo do palco. Ao contrário do meu pai, que era um homem do anfiteatro e vivia para as aulas de Bacteriologia e Higiene e para se sentir como peixe na água frente a plateias. Minha mãe era reservada. E eu também sou. Durante muito tempo foi-me difícil a exposição, fosse nas aulas ou nos programas. Um dia perguntei à minha mãe por que é que ela fazia aquilo, se tinha medo do palco, e ela respondeu-me: «É o que eu gosto e eles tratam-me bem.» Comigo passa-se a mesma coisa.

É tímido?
_Sou reservado. Não parece, mas sou. Lembro-me de ir a Chaves, para uma conferência com o professor Eurico de Figueiredo, e vomitar antes da conferência. Estava muito tenso. Nunca tive problemas em confessar essas fraquezas, até porque a experiência diz-me que as pessoas ficam gratas porque percebem que somos normais.

Tem saudades dos seus pais? E de outras pessoas que tenham passado pela sua vida?
_Tenho. Somos muito educados com o «Recordar é viver» e coisas desse género. Mas, a caminho dos 66, sinto que houve desaparições irreparáveis, como alguém escreveu. De mortos e vivos. Houve gente que já não está na minha vida e que deixou vazios tremendos. Um dia, quando você chegar à minha idade, vai também experimentar a sensação curiosa que é a de vivermos numa espécie de estado crepuscular. Em que os que não estão são tão importantes como os que estão. Eu vivo sozinho, chego aqui à noite e a sala enche-se de gente que não está. Uns estão vivos, outros mortos.

Fala com eles?
_Falo. Não tenho de falar em voz alta, mas falo.

Com quem é que fala mais?
_Com os meus pais, seguramente. E com os meus amigos.

Tem mais saudades de falar com o seu pai ou a sua mãe? E eu não estou a perguntar ao psiquiatra se gosta mais do pai ou da mãe.
_De falar, com a minha mãe. O meu pai era extremamente reservado. A saudade é igual, mas em termos de troca de impressões, é com a minha mãe. Lá está: era a cuidadora.

É bisneto de um presidente da república. Bernardino Machado. Isso sentia-se, lá em casa?
_Bernardino Machado era tão omnipresente que eu morria de ciúmes dele. Era Deus, para o meu pai. E eu achava que ele o preferia a mim. Fosse qual fosse o assunto, o meu pai acrescentava no início, no meio ou no fim da frase: «Sobre isso, o Avô Bernardino dizia o seguinte…»

O que é que os seus pais pensavam do sucesso televisivo e radiofónico do filho, que se tinha entretanto tornado no psiquiatra da moda?
_Apoiavam-me, mas minha mãe conseguia ser isenta e ver os defeitos. Meu pai não. Punha-me nos píncaros como lhe fazia a ela. Depois da sua morte encontrei um dossier com as minhas entrevistas e críticas ao programa e fiquei com um nó na garganta…

A sua mãe morreu em 2009. Viveu com Alzheimer durante 12 anos. Nos primeiros tempos, falava com ela sobre o que lhe ia acontecer? As perdas de memória, a desorientação…
_Nem por isso. Nos primeiros anos de Alzheimer, a minha mãe estava tão preocupada com a saúde do meu pai que só vivia para isso. Ele teve três enfartes do miocárdio. Morreu em 1999, com uma infecção hospitalar, depois do terceiro. E a minha mãe recusava-se a pensar na doença dela, porque estava tudo centrado na saúde do meu pai. E tinha um ascendente tal sobre nós que já apresentava indícios de um processo demencial, mas nós – eu e o meu melhor amigo, cardiologista de meu pai – continuávamos centrados nele.

Os últimos anos de vida dela, com a doença, foram terríveis.
_Foi uma catástrofe. É muito difícil quando a nossa mãe deixa de nos reconhecer. Ia visitá-la e ela dizia-me «Como está? Prazer em conhecê-lo». É inexplicável. Não teria conseguido ultrapassar tudo isso sem a ajuda dos meus filhos.

Pediu-lhes ajuda?
_Não foi preciso. Espontaneamente, eles organizaram-se para me acompanhar. No dia do enterro do meu pai, o meu filho mais velho esteve comigo, o mais novo ficou com a avó. Sem ter sido preciso eu pronunciar uma palavra.

E depois disso? Como é que foi? Eles ficaram consigo? Passaram mais tempo com o pai?
_Eles estiveram muito presentes, mas não foi preciso ficarem cá. Eu vivo sozinho há mais de trinta anos. E depois, é o que eu lhe dizia há pouco: nunca estou verdadeiramente sozinho. Tenho muita companhia. Embora, na realidade, com tantos anos de hábitos, tenha enormes dúvidas que pudesse voltar a viver com outra pessoa.

Por falar nisso… Desde que se divorciou da mãe dos seus filhos, teve algumas relações, certo? Nunca ponderou voltar a viver com alguém?
_Nunca abordo a minha privada. Por definição da mesma… Mas ao longo dos anos dei sempre a mesma resposta: viver sozinho não é o mesmo que viver só. Agora, acho realmente que viver com alguém debaixo do mesmo tecto exigiria de mim um esforço complicado.

Acha que não era capaz?
_A outra pessoa é um sujeito como nós. E portanto tem direito a ser respeitada. E a verdade é que eu tornei-me um solteirão empedernido com os meus ritmos, os meus horários de refeições, de deitar, de levantar, etc…

Nas noites em que não dorme sozinho, o acordar de manhã é complicado? O solteirão empedernido tem necessidade de voltar ao seu espaço e voltar a estar sozinho?
_(Risos) De todas as perguntas que me fez, essa é a única em que lhe posso responder com estatística. As relações que tive depois do meu divórcio foram todas unânimes numa frase. Quando regressávamos de férias, eu ouvia sempre: «Agora podes ir para tua casa, fechar a porta atrás de ti e dar um suspiro de alivio.» Acho que as mulheres me conhecem.

Mas isso são férias. E no dia-a-dia?
_Nas relações, devemos ter cuidado para não nos magoarmos e não magoarmos a outra pessoa. Se sentisse que já não havia ternura, que não era capaz de me rir com alguém ou me apetecia inventar uma desculpa para desaparecer porta fora, jamais ficaria. Seria angustiante e uma falta de respeito. Algo teria acabado. Ou nem sequer começado…

Isso é mesmo assim ou é o psiquiatra da rádio e da televisão a falar?
_Às vezes perguntam-me como é que eu gostava de ser lembrado. Nisso sou muito pragmático. Respondo sempre que, antes de tudo, gostava de ser recordado como um bom pai. Os meus filhos são as grandes paixões da minha vida. Além disso, gostava de ser recordado como um bom professor. E, em privado, gostava de ser recordado como um homem meigo. Creio que isto responde à sua pergunta.

Sei que é muito cioso da sua privacidade, mas não posso deixar de lhe perguntar: tem alguma relação atualmente?
_Não falo sobre isso. Lembra-se do que lhe disse sobre vida privada?

Falava dos seus filhos, as grandes paixões da sua vida. Ensinou-os a falar sobre sentimentos e afetos? A verbalizar o que sentem. É uma coisa de que fala muito na rádio e nos seus livros.
_Não os ensinei. Tentei que eles tivessem a noção que eu estava sempre disponível para eles.

Eles colocavam-lhe dúvidas sobre temas de sexo? Falavam consigo sobre isso?
_Era raríssimo. Não passava a vida a falar de sexo com eles. E mesmo noutros temas da vida privada deles, eles sabiam que podiam falar comigo quando quisessem. E a partir daí as coisas aconteciam naturalmente.

Fala todos os dias com os seus filhos, como o seu pai fazia consigo?
_Não. Mas precisei de tempo para perceber que não devia fazê-lo. Durante mais de vinte anos, desde que saí de casa, o meu pai ligava-me todos os dias. E quando estava a perder faculdades, nos últimos anos de vida, esquecia-se e voltava a telefonar. Várias vezes.

Dizia-lhe alguma coisa, quando isso acontecia? Lembrava-o que já lhe tinha ligado?
_Aconteceu uma vez. E ainda hoje tenho remorsos. Eu estava completamente esgotado e a determinada altura aquilo saiu-me, quando ele disse que estava só a telefonar para saber como é que eu estava. «Mas tu já telefonaste.», disse. Mal acabei a frase fiquei estarrecido com o que tinha feito.

E não faz isso com os seus filhos?
_O telefonema do meu pai era um dado adquirido. Era coisa rápida, de um minuto ou dois, só para saber se estava tudo bem. E durante algum tempo eu fazia isso com os meus filhos. Até que um dia me disseram que não sentiam necessidade daquilo. E eu percebi que estava a impor a minha presença.

Custou-lhe?
_Custou. E fiz um acordo, de passarmos a fazer aquilo ao ritmo deles. Passaram a ser eles a telefonar, quando queriam. Ou a dar um toque para eu telefonar.

E como é, é hoje em dia? Há rituais de contacto, entre a tribo dos Machado Vaz?
_Há alguns. O contacto habitual para checkar se está tudo bem, faz-se por sms. É assim que eu e o João combinamos o jantar semanal, por exemplo.

Janta todas as semanas com o seu filho?
_A menos que as nossas agendas não coincidam, sim. Normalmente à segunda-feira. O João é guitarrista d’Os Azeitonas, e às vezes têm concertos ou estão em digressão e ele não pode. Com o Guilherme, por causa dos miúdos, os encontros costumam ser ao fim-de-semana.

Fala mais com o João ou com o Guilherme?
_É uma comparação injusta. O João está solteiro, o Guilherme casado há 16 anos e tem dois filhos. Por isso falo mais com o João, mas por causa da disponibilidade dele.

O Guilherme é arquiteto, tem 40 anos. E o João?
_Tem 38. Tirou engenharia, depois psicologia e está a acabar o doutoramento em filosofia. E neste momento é psicólogo clínico no Hospital de Gaia. Arrisco a dizer que a psicologia clínica é o prato forte boa parte dos nossos jantares.

Só o seu filho Guilherme é que é benfiquista, como o pai, não é? Os outros elementos da família são portistas.
_Sim, o meu filho João e os meus netos são portistas. E gozam o avô na hora das derrotas. Uma vez estávamos numa cervejaria a almoçar e estava lá o presidente Pinto da Costa, que encontro de vez em quando porque vivemos perto um do outro. Os miúdos foram pedir-lhe um autógrafo e quando voltaram repetiram o que ele tinha dito: «Até que enfim os Machado Vaz ganharam juízo.»

E o presidente Luís Filipe Vieira, conhece pessoalmente?
_Conheço. Temos uma relação cordialíssima. Coitado, leva com sms meus depois dos jogos e ainda me faz psicoterapia de apoio (risos).

Costuma enviar mensagens ao presidente a dizer o que achou da prestação da equipa?
_Não é obrigatório, mas é muito frequente. E ele responde. Nem sempre concorda comigo.

E com o treinador, faz o mesmo?
_Não, com o Jorge Jesus não. Mandei-lhe uma vez um sms e ele respondeu. Apenas isso.

Continua a sofrer com o Benfica?
_Cada derrota é insónia garantida.

Quantas vezes por época vai ao estádio da Luz?
_Duas ou três vezes. Aproveito se for a Lisboa fazer alguma coisa.

E vê jogos do Benfica no Dragão?
_Não, ao Dragão não vou. Não por causa do estádio ou do clube, mas por causa do ambiente desses jogos, do qual não gosto. Também não vou a Alvalade ou à Luz nesses jogos. Há uma tensão no ar que me deixa desconfortável. O futebol não deve ser encarado como uma guerra.

Há pouco falava dos jornais online que vê de manhã. Também vê os desportivos?
_Sim, claro. Os três. E depois disso os blogues do Benfica.

É sócio? Com as quotas em dia?
_Sou sócio e pago religiosamente as minhas quotas. O Glorioso precisa de todos.

NM1185_JMV03_SliderImage

BASTIDORES
QUINZE MINUTOS À BENFICA
Foram três horas de entre­vista (por isso a versão original está apenas dispo­nível no site), ao longo das quais Júlio Machado Vaz ia olhando, esporadicamen­te, para o relógio. Queria garantir que terminávamos mesmo às 12h30. Tinha um avião para apanhar e uma viagem para fazer até ao aeroporto. À medida que o tempo passava, olhava mais frequentemente para o pulso. De cada vez que o fazia, eu espreitava os meus apontamentos. Ainda havia perguntas para fazer. Até que toquei num ponto importante na vida deste adepto: o Benfica. Sentou–se direito, encostou as costas, fez uma pausa. E começou a falar. Durante um quarto de hora focou-se apenas em histórias relacio­nadas com o clube da Luz: a saída do programa Trio de Ataque, as mensagens para o presidente, as idas ao estádio, as insónias em noites de derrota. Naqueles 15 minutos, não olhou uma única vez para o relógio. E chegou a horas ao avião.