OPINIÃO

Vamos continuar a matar bactérias com antibióticos?

A ciência continua a fazer experiências em ratos para perceber como funcionam e se comportam as bactérias que vivem no nosso corpo. Há avanços nessa área e matar bactérias com antibióticos poderá não ser a melhor solução.

Texto Sara Dias Oliveira | Fotografia de Shutterstock

Andamos há demasiado tempo a matar bactérias com antibióticos e vários pontos de interrogação surgiram nos últimos anos. Há cientistas que acreditam que abordagens mais subtis poderão funcionar no tratamento de doenças e insistem nos testes em ratos de laboratório.

Um artigo publicado na revista Nature dá nota de uma pesquisa de um grupo de investigadores liderado por Sebastian Winter, do Centro Médico Southwestern da Universidade do Texas, que conseguiu reverter a doença inflamatória do intestino em ratinhos com sais de tungstênio que, provavelmente, terão alterado a composição da flora microbiana.

Os resultados do estudo demonstram que nem todas as bactérias são más e que a flora microbiana que vive no corpo humano é muito importante para a saúde.

Em vez de uma explosão de antibióticos, um tratamento mais delicado para eliminar o que faz mal. Não com golpes violentos, mas sim com pancadas mais suaves.

Está a funcionar com ratos, não se sabe se resultará com pessoas, mas abre-se caminho a novas possibilidades e sugere-se uma outra forma de intervenção farmacológica. Os resultados demonstram que nem todas as bactérias são más e que a flora microbiana que vive no corpo humano é muito importante para a saúde.

«Intervenções terapêuticas baseadas na “edição”, ou seja, na correção subtil da composição bacteriana da microbiota são abordagens muito promissoras para tratar algumas doenças», diz à NM Salomé Gomes, investigadora na área de microbiologia e professora do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), no Porto.

O estudo publicado na Nature, e citado pela Atlantic, é, de certa forma, inovador uma vez que, segundo Salomé Gomes, «intervém modulando a atividade metabólica de algumas das bactérias (sem as matar diretamente, limita a sua proliferação em determinadas condições ambientais), o que tem consequências na composição global da microbiota».

«Começamos a perceber que matar a ‘bicharada’ toda (bactérias más e bactérias boas) com antibióticos nem sempre é a melhor solução», diz Joana Moscoso.

Na opinião da cientista, será interessante verificar, no futuro, se os resultados positivos dessa pesquisa também se verificam noutros modelos de doença e se haverá moléculas mais adequadas do que o tungsténio que possam ser usadas para obter efeitos semelhantes.

Joana Moscoso também é investigadora, estuda bactérias, e está agora com um projeto nessa área no i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto. Também leu o artigo da Nature que mostra como é importante percebermos a diversidade e o funcionamento das bactérias que vivem connosco.

«Durante muito tempo, prestamos muita atenção às bactérias que nos fazem mal e à sua erradicação através de antibióticos. Negligenciamos as bactérias que habitam o nosso corpo e o impacto que elas têm na nossa saúde. Agora, começamos a perceber que matar a “bicharada” toda (bactérias más e bactérias boas) com antibióticos nem sempre é a melhor solução», diz à NM.

A ciência avança estão a ser testadas «soluções que visam equilibrar as diferentes populações de bactérias, evitando o crescimento das más e promovendo o das boas».

As bactérias geram doenças e, por isso, é comum dizer-se que é preciso matá-las para proteger a saúde. Esta forma de pensar condicionou a maneira como olhamos para as infeções, só que as ligações entre micróbios e falta de saúde poderão não ser assim tão lineares. São mais complexas, na verdade.

O nosso corpo é a casa de um número infinito de bactérias e a maioria não faz mal, são até benéficas. Mas, de repente, um estado positivo pode mudar para um estado negativo e aplicam-se antibióticos que acabam por matar micróbios benéficos.

A ciência avança e surgem estudos que estão, segundo Joana Moscoso, a testar «soluções que visam equilibrar as diferentes populações de bactérias, evitando o crescimento de bactérias más, promovendo o crescimento de bactérias boas ou inibindo funções específicas das bactérias que estão associadas à doença».

Microrganismos, esses nossos amigos

É inegável a importância do conjunto de microrganismos que vivem no corpo humano e contribuem para que permaneça saudável. O seu papel tem vindo a ser reconhecido de forma crescente na última década e o número de artigos científicos publicados anualmente, sobre o tema, passou de poucas centenas em 2007 para mais de 6000 em 2017, lembra Salomé Gomes.

Os avanços técnicos permitem uma melhor caracterização dos microrganismos e resultados científicos demonstram que a composição da microbiota, esse conjunto de bactérias, tem influência na saúde.

«Há resultados em humanos e em animais de laboratório que evidenciam a influência da composição da microbiota no desenvolvimento de situações tão diversas como a obesidade, diabetes, hipertensão, distúrbios neurológicos, doenças autoimunes, resposta a vacinação, alergias, etc., etc. etc». «Assim, será lógico tentar manipular a composição da microbiota para tentar corrigir as situações patológicas e tentar melhorar a saúde dos indivíduos», comenta a investigadora do ICBAS.

«Continua por definir qual é a microbiota ‘ideal’, ou seja, quais são as espécies de bactérias que devem estar presentes e em que proporções»

Só que, nesta área, os avanços têm sido bastante lentos. Salomé Gomes aponta algumas razões para que assim seja. «Continua por definir qual é a microbiota “ideal”, ou seja, quais são as espécies de bactérias que devem estar presentes e em que proporções», adianta.

Por outro lado, conhecem-se apenas parcialmente os mecanismos pelos quais a microbiota é protetora, se são as bactérias em si, as enzimas que produzem, os compostos que libertam, a forma como estimulam o sistema imunológico.

«A microbiota é bastante dinâmica e é difícil intervir terapeuticamente de uma forma que tenha efeitos sustentáveis. Têm sido tentadas abordagens diferentes, incluindo: administrar as bactérias “boas” (o princípio dos pró-bióticos) ou tratar com compostos que favoreçam as bactérias certas e eliminem as indesejáveis (em parte é o princípio dos pré-bióticos, como as fibras alimentares)», afirma a professora do ICBAS.

«Tem havido também investimento na identificação de moléculas benéficas produzidas pelas bactérias e que possam ser administradas diretamente aos indivíduos doentes (neste aspeto destacam-se os ácidos gordos de cadeia curta, ou short – chain fatty acids)», acrescenta.

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