SuperNanny, uma boa desculpa para falarmos de educação parental?

A polémica gerada pelo novo programa da SIC pôs o país a discutir o interesse supremo da criança e os limites da exposição pública dos menores. E porque não falar abertamente sobre o árduo trabalho emocional que a parentalidade exige?

Texto Catarina Fernandes Martins | Fotografia Shuttertock

Enquanto a opinião pública portuguesa discute a exposição da criança protagonista do primeiro episódio de SuperNanny e os efeitos nefastos que tal exposição poderá ter na sua personalidade, a psicóloga e coach parental Cristina Valente denuncia a «hipocrisia» desse «excesso de preocupação».

«A maior parte dos pais expõe as crianças no Facebook e permite-lhes estar no Facebook antes da idade legal – isso para mim é que merece ser discutido. Tal como merece ser discutido por que razão os pais levam as crianças ao psicólogo em vez de se submeterem eles a esse processo doloroso», diz.

Mais importante do que discutir a exposição da criança, é discutir seriamente e de forma massificada a necessidade de educação parental, diz a coach Cristina Valente.

Para Cristina Valente, a exposição da criança a quem os pais chamam de «Furacão Margarida» não é a questão central levantada pelo novo programa da SIC. Os eventuais efeitos nefastos dessa exposição, diz, podem ser resolvidos. Mais importante do que isso, para esta coach parental, é a importância de se discutir seriamente e de forma massificada a necessidade de educação parental.

«A parentalidade está na moda, tal como o desenvolvimento pessoal está na moda, mas não se conseguiu ainda juntar a importância do desenvolvimento pessoal ao papel de pai e mãe. O modelo do programa SuperNanny foi testado noutros países e num contexto mediático foi o melhor que se conseguiu fazer até hoje. A parte positiva desta polémica é permitir falar de educação parental de forma massificada. A partir daí, posso falar dos comportamentos típicos em família sem expor nenhum miúdo e posso abrir aos pais uma janela para que eles possam ir à procura de mais conhecimento», diz.

José Morgado, professor no Departamento de Psicologia de Educação do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), escolhe igualmente não se focar na questão da exposição da criança, preocupando-se mais com a possibilidade de o programa passar «receitas» para a forma como os pais lidam com os filhos.

José Morgado defende que «discutir publicamente e nos media as questões da educação é sempre um ganho».

«Acho que não se pode fazer psicologia ali – embora a minha colega diga que não está ali como psicóloga (a psicóloga Teresa Paula Marques diz não aparecer no programa nessa condição) – porque eu não posso prescrever formas de agir sem compreender o contexto mais abrangente. A propósito do “Furacão Margarida” lembro-me da frase do Brecht, toda a gente fala do rio que é turbulento, mas ninguém fala das margens que o comprimem. Não sei se é com aquelas receitas utilizadas no programa que a Margarida deixa de ser furacão porque é necessário tempo para fazer perguntas, para observar, para compreender o que se passa à volta da criança», diz o psicólogo, preocupado com a hipótese de os espetadores adotarem estratégias semelhantes com as suas crianças.

Ironizando, José Morgado lembra que as crianças são o único bem que «é fornecido dentro da União Europeia sem manual de instruções», carecendo de estratégias personalizadas.

Apesar disso, e fazendo a ressalva da necessidade de evitar prescrições, José Morgado defende que «discutir publicamente e nos media as questões da educação é sempre um ganho» porque, continua, é necessário que «se diga que as crianças precisam de limites e de regras e que os pais percebam que devem falar entre si ou pedir ajuda», diz.

Pais no divã

A necessidade de os pais pedirem ajuda está relacionada com aquilo que segundo Cristina Valente falta compreender em torno da parentalidade.

«Muitos pais não entendem a profundidade do que implica ser pai. Quando me torno pai mexo em caixinhas em que até aí não mexi. Cada comportamento que tenho está guardado nas minhas memórias, no meu inconsciente, na forma como vivi a minha infância e adolescência», diz a coach parental, cujo trabalho se centra nos pais, não nas crianças.

«Os pais são as pessoas que mais marcam o desenvolvimento da personalidade de uma criança. A forma como os pais lidam com as atitudes e comportamentos dos filhos transmite-lhes programas mentais que elas adotam nas suas vidas», diz.

Por isso mesmo, Cristina Valente põe a tónica no trabalho emocional que os pais podem fazer.

Em vez de falar de uma família que não conhecemos, porque não estamos a questionar-nos sobre como podemos tornar-nos melhores pais ou melhores mães», pergunta Cristina Valente.

«Nos comentários nas redes sociais sobre o programa, não vi ninguém tocar no ponto que para mim é essencial: porque é que aquilo provocou uma reação tão intensa em mim? Carl Jung dizia que tudo o que nos irrita é um espelho que deve levar-nos a analisar. Em vez de falarem de uma família que não conhecemos, porque não estamos a questionar-nos sobre como podemos tornar-nos melhores pais ou melhores mães», pergunta Cristina Valente.

A coach parental dá um exemplo de como os pais são determinantes para a adoção de certos comportamentos ou atitudes dos filhos.

«Sigo muitas mães solteiras que sentem uma culpa enorme por se terem divorciado e têm a necessidade de compensar os filhos. Quando estas mães estão a fazer o luto do fim de uma relação é comum que comuniquem de forma não verbal – através das atitudes – que precisam de ser cuidadas. Muitas vezes têm receio de impor limites aos filhos porque têm medo de perder novamente uma pessoa que amam, acabando por se tornar amigas das crianças, dormindo com elas, fazendo delas confidentes. Os comportamentos podem parecer perversos, mas por detrás destes comportamentos estão sempre boas intenções», que não podem ser julgadas, apenas encaradas com consciência e compreensão, diz.

O programa SuperNanny chega a Portugal depois de ter estreado em vários países e de em quase todos ter desencadeado polémicas semelhantes à que a opinião pública nacional debate esta semana.

Para desbloquear estes comportamentos é necessário, diz Cristina Valente, compreender que todos eles têm uma «causa emocional», sendo o resultado de uma das nossas emoções básicas – medo, raiva, tristeza e alegria – ou da combinação de emoções básicas. O filme de animação Divertida Mente aborda esta questão ao mostrar como as nossas emoções básicas, transformadas em personagens, são responsáveis pela forma como respondemos às questões do quotidiano.

Crianças com mais dificuldade em compreender limites?

O programa SuperNanny chega a Portugal depois de ter estreado em vários países e de em quase todos eles ter desencadeado polémicas semelhantes àquela que a opinião pública nacional debate esta semana.

As perguntas impõem-se: este tipo de programas responde a que necessidade social? De uma maneira geral, as crianças de hoje têm mais dificuldade em compreender limites? Estarão os pais de hoje mais conscientes dos desafios da parentalidade, sentindo ao mesmo tempo mais dificuldade em explicar os limites aos seus filhos?

José Morgado diz que não há estudos que comprovem se as crianças vivem agora com menos limite e menor desrespeito à autoridade.

José Morgado diz que não há estudos que comprovem se as crianças vivem agora com menos limite e menor desrespeito à autoridade. Sabe-se que há mais casos de indisciplina escolar, mas nem esse indicador pode ser tomado de forma isolada, uma vez que, como lembra o professor do ISPA, «a escola hoje tem mais alunos e os alunos que antigamente desistiam dos estudos após situações de indisciplina hoje têm de continuar a escolaridade obrigatória».

Aquilo que certamente mudou, diz, foram os estilos de vida. E essas mudanças, continua, tiveram repercussões diretas no tempo da parentalidade, que diminuiu.

«Os pais sentem que não têm o tempo de que gostariam para estar com os filhos e na hora de estabelecer um limite, de dizer um não, há uma campainha que começa a tocar e que lhes diz: “estás tão pouco tempo com os teus filhos, vais dizer não e ainda estragas o pouco tempo que tens”», diz José Morgado.

Os «limites» e os «nãos» só podem surgir no seio de um relacionamento e quando não há tempo para esse relacionamento, não há tempo para trabalhar esses limites.

Cristina Valente fala de um aparente paradoxo. «Os pais de hoje são, na história da humanidade, aqueles que mais se preocupam com a parentalidade, mas aqueles que menos se preocupam com a parentalidade como relação, que exige o tempo que eles sentem não ter. A falta de tempo traz-lhes culpa e a culpa fá-los agir de acordo com essa culpa», diz.

Os «limites» e os «nãos» só podem surgir no seio de um relacionamento e quando não há tempo para esse relacionamento, não há tempo para trabalhar esses limites, diz a coach parental.

«Os pais dizem “nãos” que são “sins” e as crianças sabem que basta alguns segundos para dar a volta a esses limites. Falta consistência», diz José Morgado.

A falta de consistência, continua Cristina Valente, traduz insegurança e a insegurança provoca insegurança nos filhos.

«Além da falta de tempo há excesso de informação e os pais sentem-se inseguros porque já não sabem se hão-de educar como os finlandeses ou os noruegueses. Hoje faço uma coisa, amanhã faço outra. Falta silêncio, falta falarmos menos, agirmos menos e sentirmos mais. Falta educarmos com o coração», diz.

Três conselhos para uma parentalidade
mais consciente:

  • Desligar o comportamento da identidade – criticar o comportamento, salvaguardando o amor pela criança para que ela não se identifique com o comportamento indesejado. É natural que identifique frases como «se não comeres a sopa, não gosto de ti» na comunicação diária com o seu filho, mas pode ser boa ideia optar por substituí-las por frases mais positivas como «come a sopa por favor», sem necessitar de referir qualquer emoção ou sentimento.
  • Um mau comportamento de uma criança é sempre um pedido de ajuda – o mesmo comportamento em duas crianças diferentes pode ter origens diferentes.
  • Paciência – o desenvolvimento de um ser humano leva tempo. Ao ensinar uma competência a uma criança, há muitos revés, a criança dá dois passos atrás para dar um à frente. É necessária paciência para que a competência fique bem desenvolvida, de forma duradoura e sustentável. Quando a criança começa a andar, os pais não ralham se ela falha, incentivando a prática e mostrando apoio. Essa postura dos pais demonstra paciência pelo processo e a mesma atitude pode ser aplicada a outros momentos educativos.