OPINIÃO

Socorro, a minha filha quer ser do Sporting. Maldito sejas, Bruno de Carvalho

Têm sido assim, as conversas ultimamente. A Madalena quer ser do Sporting. A Carolina só dá Benfica. E eu, simpatizante do clube da Luz mas não doente da bola, que admite que não reconhece mais do que cinco jogadores do atual plantel de Rui Vitória, dou por mim feliz com a opção da mais velha.

-Sou do Benfica / E isso me envaidece / Tenho a genica…

-«Pai, o que é genica?»

-Genica é força, é energia. É o que os jogadores do Benfica têm. Força para fintar os jogadores das outras equipas e marcar golo.

-Sou de um clube lutador / Que na luta com fervor / Nunca encontrou rival…

-«E o que é rival?»

-Rival é um adversário.

-«O que é um adversário?»

-Um adversário é o inimigo. Não, inimigo não. É o que está do outro lado. O rival do Benfica é a equipa que joga contra o Benfica.

-«O Sporting?»

-Sim, o Sporting é rival do Benfica. É o rival mais antigo, mais histórico. O que se conhece melhor. O Porto também é rival, e agora até é mais rival porque ainda pode ganhar isto, mas o Sporting é rival na mesma cidade.

-«A mana é do Sporting.»

-Não, a mana não é do Sporting. A mana é pequenina e não sabe ainda o que é isso. Quando crescer vai querer ser do Benfica.

-«Eu sou do Sporting.» [voz fininha lá atrás]

-Está bem, filha. Mas anda cá para eu te mostrar uma coisa do Benfica…

-«Não digas isso à miúda. Ela fica triste porque não estás a valorizar. Se ela quer ser do Sporting, deixa-a ser.» [voz da mãe]

-Eu não digo que ela não pode ser do Sporting…

-«É como se dissesses. Não valorizas como valorizas quando a irmã quer ver golos do Benfica.»

-Elas podem ser do clube que quiserem. Mas posso ficar feliz porque uma quer ser do Benfica e não responder a perguntas que a outra faz sobre o Sporting?

Têm sido assim, as conversas ultimamente. A Madalena quer ser do Sporting. A Carolina só dá Benfica. E eu, simpatizante do clube da Luz mas não doente da bola, que admite que não reconhece mais do que cinco jogadores do atual plantel de Rui Vitória, dou por mim feliz com a opção da mais velha.

Satisfeito por aquela visita ao Estádio da Luz no dia em que fez 5 anos ter produzido frutos e por os gritos que dou quando há golos encarnados encontrarem eco nela. Tenho tentado ensinar-lhe o hino do Benfica, mesmo que explique o que é uma palma, porque é que as camisolas são berrantes ou – mais difícil ainda – como é que as papoilas podem saltar.

Também lhe tenho mostrado jogadas do Eusébio no YouTube e já viu imagens do famoso 3-6 e dos golos de João Pinto naquela tarde de maio de 1994. Mas, de há umas semanas a esta parte, o futebol entrou com mais força lá em casa, quer por causa do fim do campeonato e da diferença de pontos entre os dois primeiros quer por causa do Sporting e das fitas de Bruno de Carvalho.

De cada vez que a minha filha mais nova vê equipamentos verdes e brancos ou olha para o presidente do clube de Alvalade na televisão a falar do Facebook ou a fazer uma birra por causa dos assobios dos adeptos, ela faz mais perguntas.

Quer saber quem é ele, porque é que fala tanto, porque é que está com dores nas costas, quem é que está a ganhar o jogo (as imagens da partida contra o Paços de Ferreira são repetidas até à exaustão) e – muito importante – quando é que o Sporting joga outra vez.

E eu lá vou chutando para canto, na esperança de que isto lhe passe – tem 4 anos, há de passar-lhe –, mas a minha mulher lembra-me que isso pode configurar um caso de maus-tratos e que esta não é a melhor forma de a chamar para o lado da Luz.

Um clube como o Sporting não merece o que lhe está a acontecer e, nos últimos tempos, tenho tido pena dos sócios e dos simpatizantes. E tenho-os respeitado muito. Tanto, que é bem possível que tenham ganho mais um para as suas fileiras. Mas eu ainda não desisti…