OPINIÃO

A república das estrelas ou como a mediática Oprah também poderá estar a caminho da Casa Branca

Mais uma vez, a letra O a definir a vida de Oprah Winfrey. O, o carimbo pessoal. Ela será talvez a única personalidade mundial que não só se conhece pelo nome próprio, como basta uma letra para a fazer lembrar. Dessa vez um O com h, à americana, prolongado. Foi assim que ela o disse na entrevista a David Rubinstein, no canal Bloomberg, em março de 2017. E mudou o jogo, colocando-se na corrida à Casa Branca. Fez o seu melhor sorriso e disse que nunca tinha pensado nessa possibilidade para ela própria, porque não tinha experiência nem conhecimentos, não sabia o suficiente, mas que agora, com Trump na presidência… «Oh.»

Texto de Catarina Carvalho| Fotografia de Getty Images

Queria dizer que se Trump conseguia, ela também seria capaz. Na verdade estava a fazer a comparação que se impunha: em fama, dinheiro, poder mediático. Aquilo que John Podhoretz, o colunista e apoiante de George W. Bush, explicaria no jornal The New York Post: «Se precisamos de um ladrão para apanhar outro, precisamos de uma estrela – uma enorme estrela sem medo, que Trump nunca poderia intimidar ou ofuscar – para apanhar outra estrela. Estamos sob escrutínio. A América está a descartar velhas formulas na política. Os democratas têm de fazer o mesmo para corresponder ao ar dos tempos.»

Foi esse sentido do estrelato que agora voltou a revelar-se no discurso flamejante dos Globos de Ouro. Dito com a fleuma, as repetições e a aura de alguém que está talhado para… algo mais.

Os críticos, sobretudo vindos dos meios intelectuais, vieram explicar que sequer pensar em Oprah para candidata diz do mal que Trump fez ao sistema, colocando-o num redil mediático.

E os americanos, órfãos de um político que consiga juntar três palavras difíceis, e lhes acrescente alma, renderam-se. Primeiro na sala, uma ovação de pé. Depois, a internet foi ao rubro – ou não tivesse sido ela, os seus gatinhos e os seus soundbites, as suas fake news e os seus egos, o ecossistema certo para o aparecimento de Donald Trump.

Os críticos, sobretudo vindos dos meios intelectuais, vieram explicar que sequer pensar em Oprah para candidata diz do mal que Trump fez ao sistema, colocando-o num redil mediático. Como se a presidência fosse uma espécie de Prémio Cecil B. DeMille.

«Qual é o dano que a cultura de celebridades fez à cultura política americana? Porque as ideologias, ou pelo menos as ideias, já não importam? Não deviam os progressistas argumentar que estrelas de TV milionárias não têm de concorrer ao mais poderoso cargo do planeta, sendo homens cor de laranja ou mulheres negras», indignava-se Mehdi Hasan, do The Intercept.

Sabe-se muito do que Oprah pensa – talvez até mais do que o desbocado Trump pensava. Mas sobre coisas que dizem mais respeito à vida, ao dia-a-dia. As suas causas são as da vida real.

A verdade é que Oprah é muito: já fez praticamente tudo, é o verdadeiro sonho americano tornado realidade; ao contrário de Trump, é uma bilionária feita por si própria que veio do nada, uma família pobre do Sul, e chegou a estrela da TV em Chicago, reescrevendo o longo caminho dos escravos na Guerra Civil. Tornou-se uma das mulheres mais poderosas do mundo, com uma fortuna avaliada em 2,8 mil milhões de dólares – e um canal de TV.

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Mas nada do que Oprah é a qualifica automaticamente para a política. «Ela é um degrau acima de Trump por uma série de razões. Mas, como ele, não tem experiência política nem nenhuma plataforma óbvia atrás do seu (incrível) apelo pessoal. O que é que ela pensa da saúde? Da legalização das drogas? Da política externa?», questionava-se Eve Peyser, da Vice.

Sabe-se muito do que Oprah pensa – talvez até mais do que o desbocado Trump pensava. Mas sobre coisas que dizem mais respeito à vida, ao dia-a-dia. As suas causas são as da vida real e ela tornou-se uma heroína da autoajuda. Construiu a sua carreira na TV ultrapassando a objetividade e o habitual distanciamento – e difundido uma ideia de bem-estar, felicidade, superação.

«Oprahfication» foi como o Wall Street cunhou o tipo de intervenção no mundo que ela inaugurou no seu show televisivo, numa altura, os anos 1980, em que a TV era ainda bastante impessoal.

«Oprahfication» foi como o Wall Street cunhou o tipo de intervenção no mundo que ela inaugurou no seu show televisivo, numa altura, os anos 1980, em que a TV era ainda bastante impessoal. A confissão como terapia. No seu programa confessaram-se Michael Jackson, Tom Cruise e Lance Armstrong, entre outros, incluindo ela própria, descrevendo com rigor as várias vezes em que fora alvo de abuso sexual por um primo, ainda criança.

A sua intervenção pública atingiu o auge na década de 1990, quando usou todo o seu poder mediático para fazer passar a National Child Protection Bill, cunhada para a história com o seu nome, para defender crianças de abusos (sexuais e outros).

Oprah revelaria numa recente entrevista que a melhor lição da sua vida, e a razão do seu sucesso, é perceber que as pessoas estão todas à procura de «se realizarem».

O programa – que entretanto acabou – foi o que ela chamou de «plataforma para o que queremos dizer ao mundo». Por isso talvez Oprah seja, de facto, uma candidata para os tempos modernos – autocentrada mas empática, narcísica mas também virada para os outros.

Oprah poderá não ter pensado nisso, nem quando saiu da sua posição de neutralidade política para apoiar Obama, logo em 2004, mal o ouviu falar na convenção democrata, nem mesmo quando apoiou Hillary Clinton, dizendo, com um argumento muito peculiar mas igualmente na mouche, «não têm de gostar dela».

Mas nessa entrevista, em 2017, há quase um ano, Oprah revelaria que a melhor lição da sua vida, e a razão do seu sucesso, é perceber que as pessoas estão todas à procura de «se realizarem», «de viverem a mais verdadeira e alta expressão d si próprias, da visão que têm para si.» A dela, como repetia em várias entrevistas era: «Se queres mudar o mundo, muda-o tu.» Não haverá melhor lugar para o fazer do que a Casa Branca.

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