OPINIÃO

“Eu sou poderoso mas não faço milagres”

Grande divulgador da doçaria tradicional russa com aditivos, Vladimir Putin nega todos os defeitos que lhe apontam. Sentirá tão eminente estadista inveja de alguma coisa? Só da boa forma de Marcelo Rebelo de Sousa.

Esta semana, em mais uma entrevista que nunca fiz, tenho, supostamente, comigo, aquele que muitos consideram o homem mais poderoso do mundo, sem contar com o empresário Jorge Mendes. Já adivinharam, quanto mais não seja por causa da caricatura que acompanha esta página. É com algum prazer e bastante receio que apresento o meu convidado de hoje, Vladimir Putin, presidente da Rússia. Olá, Vladimir. Para começar queria agradecer-lhe estes produtos regionais russos que me ofereceu.
Não tem de quê. O prazer é meu. Peço-lhe que não deixe de provar as queijadas do Kremlin, que são feitas em maçapão e polvilhadas com vodka e têm recheio feito à base do gás nervoso Novichok. E convém consumir os travesseiros de São Petersburgo antes do fim do prazo de validade ou o polónio-210 pode estar azedo e já não lhe fazer mal.

Sabe que a maioria da comunicação social portuguesa o considera um racista, xenófobo e machista?
Está enganado, isso é o que dizem do novo treinador do Sporting.

Ilustração: Marco Mendes

Tem razão. Confundi as notícias. Na realidade, em Portugal, o senhor é considerado um racista, xenófobo, machista, homofóbico e um ditador assassino.
É verdade, mas são pessoas que ainda estão vivas. Você não vê ninguém no PCP dizer mal de mim.

Mas a opinião geral é que o senhor é um ex-KGB corrupto, com um pacto com as máfias russas e os oligarcas, perigoso, com um poder quase infinito e capaz das maiores atrocidades e que devia evitar envenenar jornalistas, sem ser do “Correio da Manhã”, e tirar fotos em tronco nu porque está com seios de uma senhora de idade.
Eu já fui assim mas depois do abraço que dei ao vosso presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, sou outra pessoa. Estava na fila no Kremlin para tirar uma selfie com ele e pensei: “É assim que eu quero ser aos 70 anos!”

Um presidente dos afetos?
Não. Conseguir nadar o que ele nada e estar assim quase só fibra sem gorduras.

Aqui entre nós, que ninguém nos lê. É mesmo verdade que influenciou o resultado das últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos?
Claro. Mas atenção que não tenho o poder que dizem que tenho. Ainda agora fui contactado pelo antigo médico do Sporting, o doutor Varandas, para o ajudar a ganhar as eleições, e disse logo, “eu sou poderoso mas não faço milagres”.