OPINIÃO

A minha cidade precisa de um louco

O louco da aldeia cumpre o papel de nos lembrar da ambiguidade da vida, de que nada é linear ou garantido. O louco da aldeia, na verdade, é um bem público.

«Morreu o Salvador», avisou-me há dias o Paulo pelo telefone, e de repente vi-me indeciso entre a tristeza e o riso. Vocês haviam de conhecê-lo. Tinha oitenta anos e no entanto comportava-se como miúdo traquina. Não será injusto dizer que era o louco da aldeia de Tourém, um povoado granítico no lado transmontano do Gerês onde se vive do gado e do centeio. Quando a meio da noite alguém dava pela porta de um curral aberta, por um vitelo à solta, por um tumulto nos milhos acabados de arrumar, era certo e sabido que havia ali mão do Salvador.

Conheci-o há uns bons 15 anos, quando uma reportagem me levou até ele. É que, antes de ser louco, Salvador era carteiro. Todos os dias, antes de o sol raiar, saía de Tourém a pé com a mala da correspondência às costas. E cumpria a cada jorna sessenta quilómetros de caminho, trinta até chegar a Montalegre, outros tantos no retorno. A mulher dele, a Ti Lucinda, chegou a mostrar-me o contrato que ele tinha assinado com os CTT. Nos vinte anos que antecederam o 25 de Abril, aquele foi o seu ofício. Largava a pé de madrugada e regressava à tardinha, fizesse sol, chuva ou neve.

Um dia, o homem lá conseguiu juntar dinheiro para comprar um cavalo. Não havia estradas como há hoje, era pelos mesmos matos onde se fazia contrabando que Salvador ia apanhar correio. E, logo na primeira manhã em que saiu com montada, apareceu-lhe uma alcateia por diante. A ele os lobos não lhe tocaram, mas o cavalo foi-se. E o susto foi tamanho que Salvador tornou-se um homem mudado. Abria torneiras, uivava nas portas das casas, soltava os bichos. O povo zangava-se, mas também se ria. Salvador podia estar louco, sim, mas era o louco deles.

Quando o Paulo me ligou a contar da morte do Salvador percebi que aquela era uma tragédia para a povoação inteira. Porque o louco da aldeia é a personagem que torna suportável a vida comunitária, ali ou em qualquer outro lugar. Está no fim da cadeia social e no entanto é o único que não hesita na hora de subir ao palanque. É capaz de pôr toda a gente a rir e de, ao mesmo tempo, estragar a festa. É o bobo da corte e é o pobre coitado. O louco da aldeia cumpre o papel de nos lembrar constantemente da ambiguidade na vida, de que nada é linear, de que nada é garantido. O louco da aldeia é, bem vistas as coisas, um bem público. E a sua perda é perda para toda a gente.

Nessa noite, num jantar em casa de amigos, conversámos longamente sobre os preços das casas em Lisboa. Repetiam-se as histórias de aumento das rendas, de pessoas que se viam a ter de abandonar a cidade, de buracos absurdos pelos quais se cobravam fortunas. No fim do jantar, dei por mim a atravessar a Praça do Saldanha e lembrei-me de João Manuel Serra. Há oito anos que o Senhor do Adeus – como todos os lisboetas o conheciam – desapareceu daquele passeio onde acenava aos carros que passavam. E nesse momento eu percebi a dimensão do infortúnio de Tourém. Quando faltam loucos aos lugares, são os próprios lugares que enlouquecem.