OPINIÃO

Maria Rueff: «Estou sozinha porque justamente acredito no amor»

Maria vive para a filha e para a sua arte. No dia 8 de março celebra-se o dia internacional da mulher. Nunca como agora se falou tanto do seu papel e dos seus direitos. Oprah winfrey disse que chegou o tempo delas. Falámos com cinco mulheres com percursos, histórias e escolhas diferentes para perceber que sim. O tempo chegou. Está a chegar.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Jorge Simão

Maria. Ou Mariazinha, como lhe chamavam na leitaria do bairro da Graça onde se cruzava com a Natália Correia. Ou mãe da Laura, de treze anos. Ou Zé Manel Taxista, para o público com memória. Com todas as peles que foi vestindo, Maria Rueff é uma mulher completa aos 45 anos. Nome inconfundível do humor em Portugal, vive apaixonada pelo que faz. «Tenho dois grandes amores, a minha filha e a minha arte.»

«O amor acontece‑nos. Não vale a pena ir para o Tinder provocá‑lo. Isso são cambalhotas. O amor é outra coisa.»

Com horários de trabalho pouco convencionais, a atriz mantém uma relação de companheirismo com a filha. «Levo sempre a Laura pelo menos um dia para o trabalho. A mãe está a fazer isto, não desapareceu. Depois, tenho dias a meio da semana só para ela. Nem todas as crianças têm essa sorte. Ela é muito lúcida. Num teste em que teve uma nota menos boa, pediu à professora “por favor, diga depois de a minha mãe estrear a peça”. Tenho uma grande filha. E depois tenho amigos que me ajudam imenso.»

Sozinha há vários anos, a atriz sente que fez «um mergulho profundo» para dentro de si e que conseguiu encontrar a serenidade. «Estou sozinha justamente porque acredito no amor. Sou independente, estou a criar uma mulher e acho que devo ser um exemplo de que é possível ser ‑se só e feliz. O amor acontece‑nos. Não vale a pena ir para o Tinder provocá‑lo. Isso são cambalhotas. O amor é outra coisa.»

Nunca sentiu necessidade de se justificar mas colocou um travão quando as perguntas se tornaram demasiado insistentes. «Não, não tenho um caso escondido, um senhor casado. Por mais que vos custe, estou bem assim. Prefiro um livro ou um filme e a minha própria companhia, pode ser?», chegou a responder. Mas o preconceito continua lá, no dia ‑a ‑dia.

«Muitas mulheres não têm coragem para o fazer. Acham que “mais vale mal acompanhada do que só”. E olhe que não é nada verdade»

Para lidar com isso, serve‑se do humor e não dá grande importância porque, diz, «talvez a minha única coragem tenha sido este salto de fé para o vazio. Muitas mulheres não têm coragem para o fazer. Acham que “mais vale mal acompanhada do que só”. E olhe que não é nada verdade».

É uma grande admiradora da resiliência feminina. «A quantidade de mulheres anónimas que são verdadeiras heroínas. Levantam ‑se às quatro da manhã, já trataram dos filhos, do marido, vão trabalhar e mantêm sempre o sorriso e um amor infinito pelos seus. Se sairmos do Facebook e olharmos para o lado, vamos perceber. A vizinha viúva que criou os filhos sozinha e ainda me fez um bolinho e fica com a minha filha uma hora para eu ir trabalhar… isto não é de uma bondade desarmante?»

«Há rábulas minhas e do Herman que passaram sem “pis” na altura – há 20 anos – e agora na RTP Memória têm “pis”.»

Começou cedo no humor, um meio maioritariamente masculino, mas teve a sorte de encontrar um grupo de pessoas «bem formadas» que acreditavam no mérito e no talento. «Comecei com o Herman José, a Ana Bola, o Vítor de Sousa. Estas pessoas eram revolucionárias. O Herman é o maior revolucionário do nosso país.»

Ainda assim, aponta o dedo a uma moralização excessiva atualmente. «Há rábulas minhas e do Herman que passaram sem “pis” na altura – há 20 anos – e agora na RTP Memória têm “pis”.» Se morresse amanhã, estas seriam as suas últimas palavras: «Não fiz só o que pude, fiz essencialmente o que me deixaram.»

Assume a tristeza pelo Programa da Maria não ter continuado e de não ter tido outro em nome próprio, desde então. «E não é por não ter proposto projetos. Por alguma coisa é, faço ‑me entender? O machismo tem sempre que ver com o poder. Uma mulher independente provoca medo porque não se vende por uma cama ou por uma carteira.»

Feminista convicta, acredita que só teremos conquistado alguma coisa quando já não houver necessidade de um Dia da Mulher. «Estes dias servem para colocar a lupa num assunto que ainda não foi resolvido. Vamos lá chegar mas, por agora, há ainda muito por varrer.»

LEIA TAMBÉM DA SÉRIE «MULHERES: 5 RETRATOS UMA MÃO CHEIA DE HISTÓRIAS»:

Raquel Macedo: «O argumento que mais me irrita é ‘tu não tens filhos, não percebes’»

Mónica Antunes: «A luta das mulheres da Triumph é a luta de todos os trabalhadores»

Maria do Céu Santo: «A principal queixa das minhas pacientes é a diminuição da libido»

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.