OPINIÃO

Um domingo sobre outro domingo

Conhecia os homens que estavam nas mesas de voto, da mesma maneira que conhecia todas as pessoas da vila. Mas também eles eram diferentes, ganhavam estranheza com aquela solenidade burocrática, a conferirem nomes e números em listas, como se fingissem não saber quem éramos.

Eu estranhava aquela invasão de um mundo noutro mundo. Tínhamos escolhido o nosso lugar na sala com tanto critério, representava tanto, mais perto ou mais longe da professora, os bons alunos na primeira fila, os maus alunos na última fila. O lugar definia-nos como o nome na ordem alfabética da chamada – nome começado por «a», presente; nome começado por «b», presente – e, no entanto, naquele dia, as carteiras tinham sido afastadas, estavam empilhadas junto à parede do quadro.

Quando era pequeno, o meu pai levava-me sempre. Eu gostava de acompanhá-lo, ia protegido pela sua confiança. Conhecia os homens que estavam nas mesas de voto, da mesma maneira que conhecia todas as pessoas da vila. Mas também eles eram diferentes, ganhavam estranheza com aquela solenidade burocrática, a conferirem nomes e números em listas, como se fingissem não saber quem éramos. No largo do terreiro, no balcão do café, nas ruas, falavam de outra maneira, as suas vozes eram mais leves.

Eu encostava-me ao meu pai, mas não olhava para o boletim, sabia que o voto era secreto. Esse mistério fascinava-me. Queria saber em quem tinha votado, essa informação parecia essencial para conhecê-lo, e, ao mesmo tempo, não queria saber, queria prolongar o segredo. Esse desconhecimento lembrava-me tudo o que não sabia sobre ele. Talvez o meu pai não fosse apenas quem eu pensava que era – esta dúvida assustava-me e entusiasmava-me.

Nesses domingos, ainda em casa, o meu pai limpava o vapor do espelho da casa de banho com a mão, fazia a barba com uma lâmina que lhe deixava a pele suave, avermelhada, perfumava-se e vestia um pullover de lã. Um dia, vais ter 18 anos, dizia-me o meu pai.

Eu duvidava. Não era capaz de imaginar que, um dia, seria eu a chegar com o meu mundo, que estranharia os trabalhos afixados na parede, as pinturas a guache, as colagens com a roda dos alimentos, o ciclo da água, as estações do ano. Eu, com a cabeça cheia de outros lugares, a passar por filas de cabides à altura do peito, a reconhecer o cheiro acre do giz. Eu, de barba feita, perfumado, com um pullover de lã.