OPINIÃO

O meu nó

Dos pés ao pescoço. Aí, outra ausência: nunca uso gravata. Enfim, tomem o nunca como primeira resposta dada a um polícia, houve casos em que prevariquei. Mas no dia-a-dia, todos os dias, uso uma «cravate» dos hussardos croatas na corte de Luís XIII, mas com um esmero que empresta ao meu caminhar uma perpétua passerelle vermelha: um nó Steinkerque.

Quem me conhece sabe que sou um dandy, dos pés ao pescoço. Nos pés, por manifesta garridice, nunca ponho sapatos spectator, numa esbelta homenagem aos sapatos spectator. Já lhes dediquei várias crónicas. Sapatos de dois tons – negros ou castanhos mas com dorso branco. Era garoto (8 anos) e a minha mãe ofereceu-me uns, e nunca mais tive outros.

Eram o símbolo dos meus dias de criança (não queiram saber como a minha infância foi culta, utópica e revolucionária), quando eu decidi ser pela vida fora um cabo-verdiano de Luanda ou, pelo menos, um contrabandista de uísque de Chicago. Não tendo as coisas corrido como eu queria, reajo em negação.

Então, a minha atual elegância requintada, embora psicologicamente distorcida, assenta no meu andar: sapatos, quaisquer uns. Ténis, muitas vezes (eu chamo-lhes keds, da primeira marca que conheci). E fáceis, faço questão: os sapatos conquistam-me a dedo. Quer dizer, o meu indicador, passando rápido pelo contraforte por onde entra o calcanhar, é que me diz se vou calçado a gosto ou não. Assim, com o número certo, sou indiferente à cor da gáspea e à forma da biqueira.

O meu tique fashion: homenagear os sapatos spectator da infância, a ponto de nunca mais os descalçar e, por lealdade a eles, não ligar a todos os outros não spectator que fui calçando. Chamo a isso o meu momento Sacha Distel. Vocês sabem, talvez, Distel foi um bom guitarrista de jazz, tocou com Stéphane Grappelli e acompanhou Sarah Vaughan. Mas, para o que aqui interessa, estava uma noite amarrado ao bar do Club Saint-Germain, em Paris.

Uma mulher pousou os olhos nele, anunciando-lhe quanto o par dela a aborrecia. Ela partiu, não sem voltar a pousar nele um olhar. O barman disse a Sacha Distel: «É Jeanne Moreau, a atriz.» Distel já tinha conhecimentos suficientes para lhe saber o telefone ainda nessa noite. Mas só lhe ligou de manhãzinha.

Com a voz grave que todo o homem agradecido ainda recorda, ela disse-lhe, antes de Distel se apresentar: «Estava à espera da sua chamada.» Foram seis meses assim, com ela aconselhando-o a ler Rimbaud e Aragon para se tornar melhor guitarrista. Um dia, ela deitou outro olhar, que não foi para ele, e partiu. E Sacha Distel, que vivera com Juliette Gréco e iria amar Brigitte Bardot, deixaria nas memórias que Jeanne Moreau foram os sapatos spectator que ele nunca mais deixou de usar.

Reparem na minha maior lealdade, eu nem uns bonitos sapatos brigitte bardot voltei a usar. O que ponho nos pés é só qualquer coisa para me proteger, do frio, das pedras da calçada, e calço sempre o meu sonho dos 8 anos. Elegantíssimo, como talvez vocês não se deem conta.

Dos pés ao pescoço. Aí, outra ausência: nunca uso gravata. Enfim, tomem o nunca como primeira resposta dada a um polícia, houve casos em que prevariquei. Mas no dia-a-dia, todos os dias, uso uma «cravate» dos hussardos croatas na corte de Luís XIII, mas com um esmero que empresta ao meu caminhar uma perpétua passerelle vermelha: um nó Steinkerque. Eu sei que os tradicionalistas preferem o nó Cavendish e os apostadores na bolsa, um simples nó Onassis. Mas eu, nisto de moda, ou é tudo ou nada.

Na batalha de Steinkerque, na Guerra dos Nove Anos, em 1692, franceses contra o resto do mundo, as tropas de Luís XIV foram apanhadas pela canhonada inimiga, se não com as calças na mão, pelo menos com as longas echarpes ao pescoço sem nó, nem um broche para abrilhantar o pano. Os gentilshommes franceses saltaram para os cavalos naqueles preparos e só tiveram tempo de enfiar as franjas do longo lenço num buraco do casaco. Terá sido a mais démodé e unfashionable ação militar daquela garbosa guerra, mas a França ganhou.

Até Voltaire escreveu sobre aquele bendito desmazelo, que todos os peralvilhos passaram a imitar em Paris e arredores. Infelizmente para os franceses foi moda passageira e o falso nó Steinkerque foi rapidamente esquecido. Um pouco mais de um século depois, a 44 quilómetros de Steinkerque, em Waterloo, o bicórnio de Napoleão não podia ser mais airoso. E, no entanto…

É por isso que eu dou sempre um nó Steinkerque, que consiste em não dar nó à gravata, e, ousadamente, também não ponho a gravata a que não dou nó. Muita gente não repara. Mas de um verdadeiro dandy, dizia Brummel, as pessoas na rua não se dão conta da elegância.