OPINIÃO

Amor nas Ramblas

Não se vive de olhos bem abertos para a vida sem consciência do peso da morte. Sobretudo quando ela irrompe desgovernada no meio de uma tarde igual a tantas outras.

A rua que liga a Rambla ao mercado de La Boqueria, em Barcelona, tem o nome de Ramón Cabau. A história de vida deste farmacêutico e advogado que acabou a revolucionar a gastronomia da cidade chega para um filme. Mas mais cénica ainda foi a sua morte, a 31 de março de 1987.

Ramón começou a manhã no mercado, como fazia sempre. Deu as habituais opiniões, cumprimentou os amigos, entregou a cada um uma flor e alguns minutos depois das nove horas pediu um copo de água. Em pouco tempo caiu e morreu ali mesmo. Tinha misturado cianeto na água, pronto para se despedir da vida num lugar que tornou seu.

A morte de Ramón Cabau, uma trágica declaração de amor a La Boqueria, é uma metáfora do tanto que representa aquela animada zona de Barcelona. Um palco em que a vida cabe inteira nos seus dramas, na alegria vibrante e no seu contrário. Um espaço aberto por definição, que os catalães dizem conter dentro de si todos os paradoxos da cidade: uma terra que tanto dá génios como loucos, tão liberal que meio mundo quer viver nela, por vezes mística como o omnipresente Gaudí, por vezes furiosa com o turismo que lhe corre nas veias.

No empedrado das Ramblas (sim, só poderiam ser plurais) cruza‑se a memória de batalhas, de celebrações de campeonatos do Barça, de artistas que pisaram aquele chão e que continuam a fazer da rua o local de trabalho. Não se anda por ali sem muito barulho, sem o som do tilintar de copos que brindam nas esplanadas. Uma cidade que ama tanto a liberdade como Barcelona só poderia unir‑se como fez poucas horas após o atentado que mergulhou a Rambla num inusitado silêncio. «Não temos medo», gritaram milhares de manifestantes em uníssono.

Não é que seja totalmente verdade. Não se vive de olhos bem abertos para a vida sem consciência do peso da morte. Sobretudo quando ela irrompe desgovernada no meio de uma tarde igual a tantas outras. E quando não se sabe o que vem a seguir. O terrorismo não se combate com flores.

Precisamos de mais coordenação e diálogo entre as polícias europeias, de mais atenção às causas complexas dos extremismos, de um olhar global para um problema que mexe com a nossa visão linear do mundo. É um combate para durar, que faz vítimas em todo o mundo – e mais nos países islâmicos do que na Europa – e que nos sobressalta pela capacidade de a todo o momento mudar de local e de estratégia. «Não temos medo» não pode ser um simples grito de ingenuidade.

É a afirmação de que o que nos desconcerta não nos tomba nem nos desvia do caminho consistente da vida, da luta sem tréguas pela liberdade, pela tolerância, pela universalidade que é a marca indelével das Ramblas.

Agimos politicamente com as escolhas que fazemos nas urnas, com as causas que abraçamos, com as lutas em que nos envolvemos. Mas há igualmente ação política nas coisas mais pequenas do quotidiano. Nas decisões em que nem pensamos muito. Na forma como nos movemos, como seguimos pela rua e nos cruzamos com a diferença sem olhar por cima do ombro.

Teremos sempre os mosaicos coloridos do Parque Guell, os labirintos do Bairro Gótico, o mar prolongado no azul da Casa Batlló, as tapas ao cair da noite, os bares e praças do bairro de Gràcia, o teleférico de Montjuïc ao entardecer. Teremos sempre Paris, Roma, Istambul, Palmira ou Petra. O medo pode inspirar‑nos respeito ou paralisar‑nos. Escolhemos o respeito que abre janelas.