OPINIÃO

Uma aventura (in)esquecível

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Vi muitas fotografias da construção e da inauguração da Ponte 25 de Abril e estranhei: não me recordo de nada. Eu vivia em Lisboa e tínhamos televisão, comprada por causa do Mundial de Futebol. Lembro-me do jogo Portugal-Coreia do Norte, Eusébio a transformar o 3-1 num 3-5 que me fez partir um divã aos saltos. Lembro-me do golo perdido nos pés de Simões contra a Inglaterra num jogo que podia ter-nos levado à final, Eusébio a chorar com todos nós. Nesse ano, deixei a escola primária do bairro e entrei para um colégio interno que me fez chorar mais do que ele.

E no entanto houve um episódio excêntrico que aconteceu no dia a seguir, e que, se não fosse o telefonema de uma amiga de toda a vida, eu não sabia que tinha tido na origem «a inauguração». A Dulce ligou os pontos vagos na minha memória: uma aventura que começou num cacilheiro, o meu irmão Rui e eu levados a passear por um dos irmãos dela. O Luís tinha um dom especial para entreter crianças, levava-nos ao cinema ver o Tom & Jerry e ria-se mais do que nós, era o melhor baby-sitter de sempre. Nesse 7 de agosto, lá fomos nós, chapelinhos na cabeça para proteger do sol. Chegados a Cacilhas, ele anunciou-nos que ia roubar um carro para irmos até ao Cristo Rei, e encaminhou-se intrépido para um belo descapotável. Como é que vais fazer isso? Tenho uma chave mágica que abre as portas dos carros todos. Este diálogo estou a inventar agora mas não há de ter sido muito diferente. Instalámo-nos no carro, risos nervosos de sensação de perigo, e subimos para ver as vistas. Para ver a ponte, penso eu agora. E aí aconteceu a única coisa de que me lembro realmente: uma rabanada de vento roubou o chapéu do Rui e ficámos aflitos, a mãe ia ralhar, que grande desgraça.

A nossa mãe não era tão severa que nos pudesse perturbar assim, por que me recordo eu dessa atrapalhação? Quando descemos, um homem tinha o chapéu na mão, a perguntar a quem pertencia. Recuperámos o chapéu que tinha voado e fartámo-nos de falar nisso depois.

Só mais tarde soube que o descapotável era do namorado da Dulce, que os dois tinham atravessado a ponte no entusiasmo da inauguração e desistiram de regressar pelo mesmo caminho, tal o engarrafamento. Desceram a Cacilhas, apanharam o barco e pediram ao Luís que fosse buscá-los.

A memória prega-nos partidas. Uma vez o meu filho mais velho ficou chocado porque eu não me lembrava de um golo. Não um qualquer, como hoje percebo, mas «o golo» de Carlos Manuel contra a Alemanha que levou a seleção ao Mundial do México. Foi em 1985 e ele garante que gritámos os dois, lado a lado no sofá da casa dos meus pais que eu sei que estava no mesmo lugar onde parti o divã em 1966. Fiz perguntas e descobri que aquele exato golo faz parte de uma espécie de património nacional. Revi-o agora, graças à memória armazenada na net, uma jogada extraordinária, como esqueci? E como se recorda o meu filho, que tinha cinco anos?

Se me falarem em construção da ponte, o que tenho claro na cabeça é o avanço sistemático dos pilares e das plataformas da Vasco da Gama. Trabalhava com vista para o Mar da Palha e aquilo tudo era uma beleza. Também vi as demolições e as construções de toda a Expo’98, o fim da lixeira de Beirolas, do matadouro, as novas ruas, a plantação de árvores por todo o lado, cada edifício um deslumbramento, ainda hoje um enorme orgulho. Da Ponte 25 de Abril, nenhuma imagem me chega do passado. E logo ela, que veio mudar as nossas vidas e que é lindíssima.

[Publicado originalmente na edição de 14 de agosto de 2016]

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