Resistentes à mudança do mundo inteiro, uni-vos

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Isso de passarmos a ver-nos com outros olhos depois de sermos pais e descobrirmos, com a paternidade, caraterísticas ou traços de comportamento que nem sequer sabíamos ter é uma coisa antiga. Mas, no leque de aprendizagens sobre mim próprio que fiz desde que nasceu a minha primeira filha – e no leque ainda mais alargado que tive de abrir quando chegou a segunda –, vi-me obrigado a perceber que, em situações-chave com crianças com os meus genes e que me chamam «pai», sou rapaz para ter um poder de encaixe de uma parede de betão.

Pior do que isso: só me convenci verdadeiramente deste facto ao fim de alguns arrufos com as miúdas. Da birra à birrinha, da choraminguice à birra de sono, da fome ao ciúme, da disputa por um brinquedo à disputa pela atenção do pai, aprendi que as minhas filhas querem mesmo ser tratadas… como crianças. Eu não espero que elas saibam a fórmula química do azoto ou que reajam de forma adulta a uma notícia triste ou complicada. Mas, como sempre me orgulhei de não abebezar conversas com elas e, com isso – dizem os nossos amigos, as tias e os padrinhos, essas fontes imparciais –, contribuir para um vocabulário desenvolvido e uma inteligência emocional apurada, agora dou por mim a ter de arrepiar esse caminho. Raios, já não está a resultar. A poucos meses dos 4 anos, a mais velha revela, afinal, que nem sempre quer as coisas explicadas sem floreados. Ela às vezes precisa dos floreados. Mais: precisa que eu me adapte. E nisso, caramba, eu não sou o melhor.

Não é que eu seja resistente à mudança (a minha mulher deve reservar-se o direito de não concordar com esta frase), mas a verdade é que em casa costumo precisar de um pouco mais de tempo até conseguir adaptar-me a uma situação nova. E com crianças… bom, com crianças… elas estão sempre a crescer. A exigir coisas diferentes. E se eu não sou capaz de me adaptar a isto, então estamos mal… A ficha só me caiu à terceira vez que a minha mulher fez a mesma piada. Das duas primeiras vezes que perguntou «quantas crianças de 2 ou 3 anos é que há nesta casa?», não liguei muito. Mas lá acabei por entender que cruzar os braços (mesmo que apenas mentalmente) e ficar com ar amuado ou triste porque uma miúda de 3 anos não faz o que eu quero não é a melhor solução. Ou bem que sou capaz de lhe dar a volta, ou não sou. E de cada vez que não for capaz e ficar triste e pesaroso com isso, ninguém fica a ganhar. Muito menos eu.

Admito que há pessoas que têm mais jeito para estas coisas do que outras. E que responder muitas vezes com um «não tenho paciência para essa birra», na esperança de que ela passe, também possa ser uma má opção. Qual a solução, então? Considerando que esperar que elas entrem para a faculdade não é uma boa alternativa – até porque me vou arrepender de todas as coisas boas que perdi –, não me resta outra coisa que não seja pôr mãos à obra. E não me refiro a procurar nas revistas da especialidade ou a consultar todos os sites de comportamento infantil. A coisa só lá vai com tentativa-erro. Experimentar e voltar a experimentar. Um dia com uma história, outro dia com um jogo. Um dia com uma brincadeira, outro dia com uma sessão de televisão. Um dia com um chupa-chupa, outro dia com um passeio.

O que há de novo aqui, então? Se calhar para vocês nada. Mas para mim, que funciono com um certo delay em relação a algumas coisas, a ideia do work in progress constante e da eterna procura da solução ideal é uma coisa que me assusta um pouco. Não por preguiça. Apenas por feitio. Qual é a parte boa no meio disto? É que isso me obriga a mudar. A mim. Para fazer face às mudanças das minhas filhas, eu tenho de mudar também. E não há exemplo maior e mais perfeito de simbiose feliz do que esse.

[Publicado originalmente na edição de 8 de maio de 2016]