O dia em que eu o vi

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É uma fotografia oficial, de pose, 24 homens e uma mulher, tanta gente que obrigou nove a ficar em cadeiras. É no pátio de um claustro, e um cartaz de pano quase esconde os arcos do Convento de La Merced, em Cartagena das Índias. O pano diz: «PerioLibros, Reunión de Directores de Diarios», e eu estou obviamente a mais. Mas estou, de pé, segunda fila, e suficientemente ao centro para não me ter calhado a desventura duma perna esquerda, à qual amputaram o resto do corpo e continuou sentada ao lado do então diretor-geral da UNESCO, o espanhol Federico Mayor.

Em 1994, o Diário de Notícias era um dos promotores do PerioLibros, a iniciativa da UNESCO que queria publicar, com jornais, livros em tiragens de milhões, em português e espanhol. A reunião era de diretores mas o meu jornal fez-se representar por mim, repórter que seguiria depois para Cali e Medellín, escrever sobre os cartéis da cocaína – Pablo Escobar tinha acabado de ser abatido. Entretanto, eu estava entre importantes. Na fotografia, além de Federico Mayor, reconhece-se o ex-presidente mexicano Miguel de la Madrid. E aquele senhor baixo que explode de branco na imagem: guayabera e calças, e também os mocassins, sem meias – tudo alvo, incluindo o famoso bigode.

Tínhamos chegado em carruagens abertas, os cavalos fazendo soar o empedrado velho de Cartagena. Eu saboreava o superlativo absoluto simples da cidade colonial da minha infância: um lugar do Caribe, as muralhas a evocar assaltos de piratas, as paredes inventando amarelos e azuis, a pedra debruando janelas e portas, varandas de madeira encimadas por telhas dos beirais… Os cavalos deixaram de fazer toc-tocs surdos, compus a gravata e entrei no Convento de la Merced. Eu ia com os outros mas em solidão. Ia estar com Gabriel García Márquez – nessa tarde, talvez ele aparecesse. Morava duas ruas ao lado.

Apareceu. A guayabera, foi o que vi primeiro. O branco dos sapatos era brilhante, pala cruzada por uma faixa. Mais baixo do que eu pensava, se é que tinha pensado nisso, o que sublinhou o abrir de nós todos, em meia-lua, quando ele entrou. Durou pouco a reverência, que passou a frenesim de fã – ninguém, porém, ousou chamar-lhe Gabo. Ainda não se tinham inventado as selfies e fui obrigado por um nipo-peruano a fazer-lhe a foto com o escritor, e logo um argentino pediu-me o mesmo. Recuei e decidi que mais ninguém faria perder o tempo que eu devia dedicar a Gabriel García Márquez, o meu escritor. Quando quero sou muito possessivo. As reuniões do PerioLibros tinham-me dado tempo suficiente para me perder em Cartagena mas recusei seguir os passos que eu conhecia de Florentino e a sua mãe Tránsito Ariza pelas ruas da cidade, em O Amor nos Tempos de Cólera. Nem persegui os últimos dias de Simão Bolívar, em O General no Seu Labirinto. Gostei de ambos, mas o meu livro é Cem Anos de Solidão, que não acontecem em Cartagena, mas em Macondo. Que não existe.

Então, Gabriel García Márquez, aquele homenzinho talvez enfastiado, a dois metros de mim. A distância que mantive. Apesar dos papos nos olhos, não devia padecer da insónia dos Buendía. Reparei, quando lhe serviram um copo de sumo, que não olhou para o cubo de gelo. Decidi não lhe dizer que um dia mandei gravar numa Parker «José Arcádio Buendía». Também não o importunei pedindo-lhe para me fotografar com ele. Ao longo destes 21 anos, tenho-me perguntado: fiz bem?

Na semana passada, as cinzas do escritor foram depositadas num busto. Num pátio de convento. Nenhum pano esconde as arcadas. Um dia, vou lá e levo a fotografia. Se Remédios, a Bela, aparecer, mostro-lha: «Aquele, na fila de trás, a cinco homens dele, sou eu.»

[Publicado originalmente na edição de 29 de maio de 2016]