Lá em casa trabalhas tu. Trabalharmos os dois dá muito trabalho

[…]

– Terça-feira tenho jantar com a malta do escritório. Não te esqueças.
– Já não me lembrava. Que chatice. Precisava de sair mais tarde.
– Já tínhamos falado disso. Não venho a casa nesse dia. Tens de ser tu a ir buscar os miúdos aos meus pais e tratar das coisas em casa.
– Tratar do quê? Tudo?
– O que houver para fazer, sim. O costume. Banhos, jantar, cama.
– A que horas chegas?
– Não sei. Mas é um jantar. Às dez não estou em casa.
– Mas se estiveres às onze ajudas-me a adormecê-los. Só com os dois é mais difícil.
– Eu sei que é. É o que eu faço nos dias em que não estás. Nos muitos dias em que não estás. Comigo é só um dia. É só na quarta e já está marcado há uma data de tempo.
– Eu sei, não me lembrava. Mas justamente por estares mais habituado sozinho com os dois é que contigo corre melhor.
– E então? O que é que isso quer dizer? Que eu tenho de sair de um jantar a correr para vir fazer uma coisa que faço quase todos os dias e que a minha mulher não é capaz de fazer uma única vez?
– Não é isso. E só porque és mais rápido.
– Arranja-te. Sai mais cedo. Em vez de os ires buscar às oito, vai às seis.
– Não posso sair às seis depois de quinze dias de férias.
– Então sai à hora que quiseres. É contigo. Resolve tu.
– Vai lá ao teu jantar e eu cá me arranjo. Se for preciso adormecem mais tarde.
– Isso. Estão de férias, não há escola, é menos grave. E assim vais-te habituando.
– Vou-me habituando ao quê?
– A que eu saia mais tarde e tu tenhas de os ir buscar. A partir do mês que vem é o que vai acontecer.
– Mas isso sempre vai para a frente?
– Vai. Claro. Eu disse que sim. Falámos disso antes de eu dar a resposta.
– Pensei que ainda estivesses a pensar.
– Não. Já pensei. A partir de setembro, passamos a ser uma família com verdadeira igualdade de género e essas coisas todas que defendes.
– Tu também defendes.
– Pois defendo, mas agora vai ser de outra maneira. Vai ser melhor. Até aqui éramos só uma família moderna. Daqui para a frente vamos passar a dividir tarefas. São coisas diferentes.
– E estás todo contente com isso.
– Estou. Porque vou andar menos cansado por fazer tudo em casa e porque vou dar um salto na minha carreira. Durante vários anos não dei nenhum, para tu poderes saltar à vontade na tua.
– Mas falámos sobre isso. Foi uma decisão conjunta.
– Pois foi. Tal como a decisão de eu agora aceitar outras funções foi uma decisão a dois. Mas tu estás a fazer- te esquecida, porque agora vais ter de trabalhar em casa também. E vais deixar de fazer o que fizeste estes anos todos.
– E não fazia pouco. Trazia dinheiro para casa.
– Eu também trazia. Não vivi às tuas custas.
– Não foi isso que eu disse.
– Mas pensaste. Tu trabalhavas, eu também, mas ainda fazia tudo em casa. Ganhavas mais dinheiro, por isso tinhas de trabalhar até mais tarde. Eu saía mais cedo, ganhava menos, tratava eu dos filhos até tu chegares. Tudo certo. Mas a partir do mês que vem, vamos ganhar mais ou menos o mesmo. E tanto sais tu tarde como saio eu tarde. Agora é que vamos ser uma família igualitária. Uns dias vais tu buscá-los, outros dias vou eu. Uns dias dás tu banho, outros dias dou eu. Podes começar já na quarta-feira.

[Publicado originalmente na edição de 14 de agosto de 2016]