OPINIÃO

Há utopias que acontecem mesmo

[…]

É estranho estar a escrever no dia em que as eleições nos EUA e a Web Summit concentram todas as atenções sem ter hipótese de saber como cada um deles vai terminar. É terça-feira 8 de novembro e os eleitores dos Estados Unidos escolhem quem vai ocupar a Casa Branca, no culminar de uma campanha suja em que valeu tudo. O resultado de uma pequena vila já chegou e dá a vitória a Hillary por quatro votos. Hillary e o marido já votaram. Estas são as minúsculas notícias destas minhas horas e em breve deixarão de ser relevantes. Por agora, entretêm os noticiários.

Em Lisboa, a Web Summit avança entusiástica, uma enchente extraordinária de pessoas com as ideias mais variadas, umas prontas a dar frutos, outras menos praticáveis, a imaginação e a tecnologia de mãos dadas. A energia é magnífica, e não posso ignorar que a cimeira acontece numa zona de Lisboa que foi renovada há escassos 20 anos, e que ocupa, além da FIL, o belíssimo Pavilhão da Utopia, como se chamava o agora Pavilhão Meo Arena quando foi construído para a Expo’98.

Mas este texto que escrevo só será publicado no domingo e qualquer coisa que diga sobre os dois assuntos do dia chegará desfasada e ultrapassada à página da revista. E então procuro outras notícias, com menos impacto neste momento, e encontro um número gigante – 59 milhões: a quantidade de oliveiras a ser plantadas no vale do rio Bailong. É um riozinho com metade do comprimento do Tejo, mas que há seis anos foi notícia mundial porque as chuvas intensas o fizeram transbordar enormemente, causando deslizamentos de terras e a morte de centenas de pessoas.

E a imaginação começa a funcionar. A árvore mais antiga de Portugal é uma oliveira que foi datada recentemente: tem 2855 anos, nasceu muito antes de Cristo. Mora há 2855 anos em Santa Iria da Azoia, nos arredores de Lisboa, e tem um tronco que precisa de pelo menos seis pessoas para abraçá-lo. Está ali sozinha, venerável e venerada, sobreviveu a todos os percalços que ocorreram em quase três milénios. Bravia, ela foi fruto do acaso num tempo em que os olivais não eram alinhados e certinhos como os que hoje cobrem hectares e hectares para produzir azeite em grande escala.

O vale do Bailong, na zona oriental daquele país gigante que é a China, vai ter dentro de alguns anos um enorme olival a ocupar uma extensa superfície, 59 milhões de árvores com ADN mediterrânico a alterar o que antes existia. Em dimensão milionária, é a viagem de um sabor nosso, tal como um dia recebemos as batatas das Américas e a pimenta das Índias.

O que me diverte é imaginar o voo da árvore que é sagrada para cristãos e muçulmanos até a um vale no centro da Ásia, para criar raízes e interferir no sabor de uma alimentação milenar. Talvez daqui a 2855 anos alguém, com um método sofisticadíssimo, vá medir uma oliveira no vale do Bailong, única sobrevivente e já sem valor para a produção, e conclua que nasceu naquele tempo em que era uma novidade e um ultraje uma mulher ser presidente de um grande país.

Ah, os astronautas nas estações espaciais já votaram, recebo um aviso no telemóvel. E logo a seguir fico a saber que no próximo ano faremos levantamentos em multibanco sem cartão. (Hum, isto dos avisos no telemóvel tem muito que se lhe diga, mas fica para outro dia, quando já souber quem ganhou a votação do meu hoje de terça-feira.

[Publicado originalmente na edição de 13 de novembro de 2016]

Fotografia @