OPINIÃO

Fez-me sentir que existo

[…]

Não era preciso dar pela vaga perturbação causada pelo equinócio nem pela folha do calendário a anunciar o início do outono, bastava sentir no ar o cheiro das castanhas assadas numa esquina. Ou entrar no mercado e deparar com dióspiros, castanhas, tangerinas, romãs, frutos colhidos no país e sem aquele aspeto um pouco forçado dos produtos importados. No restaurante do costume, a proposta de marmelos assados para sobremesa acompanhou a mudança de cores das árvores, o chão coberto de folhas secas, os dias curtos e os relógios acertados. Tudo isso está em marcha, cumprindo a normalidade da mudança de estações, mesmo se o outono se instalou sem ligar ao sol quente, como se o verão de São Martinho se estivesse nas tintas para a contenção que dele esperamos.

E então uma pessoa vê, ouve e lê: mil crianças ficaram a viver em contentores em Calais, depois da demolição do campo de refugiados. Estão «em stress e confusas, vivem na total incerteza de não saber o que as espera», dizem os voluntários e organizações humanitárias que não podem socorrê-las. «Não têm acesso a alimentação nem água em boas condições.» Estão aqui ao lado, naquele lugar de França que fica mesmo pertinho de Inglaterra, tão perto que foi sempre o desejado ponto de passagem, de ataque e de defesa dos exércitos europeus. Foi cercada e dizimada na Guerra dos Cem Anos e ficou ocupada pelos ingleses durante mais de dois séculos. Napoleão reuniu ali em vão as tropas com que pretendia invadir os antigos invasores. Foi destruída e ocupada de novo pelo exército nazi, rodeada de bunkers com que tencionavam – em vão – evitar a chegada das tropas aliadas.

E é a essa Guerra, a de 1939-45, a tal que matou e pôs em fuga milhões de pessoas, que vou parar quando pesquiso mais e mais sobre os meninos de Calais. Encontro um vídeo que fala das cartas que refugiados desse tempo enviaram a crianças fugidas da Síria. Facilito a pesquisa a quem quiser saber esta história. É só teclar [este endereço] e encontrar esta ponte de pessoas para pessoas, a enviar um minúsculo mas infinito sinal de esperança. Diz Sajeda, 16 anos, que acaba de ler a carta enviada por Helga Kissel, 87: «Se me perguntassem o que foi de mais precioso que deixei na Síria, eu diria: eu mesma. As memórias, tudo.» Sajeda agradece a Helga: «Ela fez-me sentir que existo.»

Mil crianças em Calais são uma gota de água na presente crise de refugiados, mesmo se cada uma delas é uma vida cercada de obstáculos. Há episódios com fim feliz, como o da síria Fátima Khalouf que, lê-se no site do ACNUR, se juntou ao marido na Alemanha. Atravessou o mar Egeu e parou na Sérvia, onde uma cesariana fez nascer os gémeos que transportou depois ao colo. Na fotografia tirada em Dresden, lá está Fátima com um filho em cada braço, e o resto da família finalmente reunida: seis adultos e oito crianças.

De manga curta e a pensar como deve estar bom na praia, iniciei as cerimónias outonais. As tigelas de marmelada estão cheias e cobertas de papel vegetal humedecido em vinho do Porto. A erva-doce e a canela esperam o momento de aromatizar a água de cozer as castanhas. Esta é a normalidade possível, mesmo se tanta coisa no mundo e na minha vida está de pernas para o ar. Oiço a música de um funileiro na rua. A previsão meteorológica para Calais é de chuva e frio para este fim de semana.

[Publicado originalmente na edição de 06 de novembro de 2016]


Sobre este tema pode também ler: «Os últimos dias de Calais»

Fotografia @