OPINIÃO

Feminismo de saltos altos?

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A questão voltou à ordem do dia. Pode-se ser feminista com os pés torturados nuns stiletti? As opiniões dividem-se.

Os saltos altos são a nova arma de arremesso na luta feminista. Ou, melhor dizendo, os saltos altos são o calcanhar de Aquiles do feminismo, do mais sufragista ao mais moderno,e até pós-moderno, pop incluído. Depois do voto, da queima de sutiãs, da luta pela igualdade de salários, parece que restam os saltos altos como o último reduto da opressão feminina. Essa que, mesmo não dita, dita as regras.

Quem defende o poder dos saltos altos alega que as mulheres fazem o que querem, se vestem como querem e calçam o que lhes apetece, mesmo que isso implique ficar com os pés em carne viva. Os que, pelo contrário, consideram que os saltos altos são uma imposição social, falam de uma convenção castradora, que impele as mulheres a hábitos que elas, por já os terem interiorizado, nem sabem que podem negar.

Nesta semana, o assunto voltou à discussão pública e os ânimos exaltaram-se. Viram-se os pés nus de Julia Roberts debaixo do seu Armani Privé, na passadeira vermelha de Cannes, a mesma cujas regras obrigaram Kristen Stewart a usar saltos altos na première do seu filme Café Society. A regra dos saltos altos vinha sendo sussurrada nos jornais desde o ano passado, quando algumas mulheres que não estavam de stiletti terão visto a sua entrada barrada no Festival de Cinema. O boato nunca foi confirmado, mas a atitude de Roberts e a entrevista em que Stewart falou da regra parecem indicar que era mesmo verdade.

No entanto, estes eram dilemas de mulheres que andam pelas passadeiras vermelhas. Já o drama da jovem Nicole Thorp veio recentrar a questão no âmbito da vida comum das pessoas normais. Thorp pôs a consultora PWC em tribunal por esta a ter obrigado a usar saltos altos no seu trabalho de rececionista da empresa, na City. Quando se negou a fazê-lo, alegando que tinha todos os outros requisitos da empresa, foi mandada para casa, sem salário.

Uma petição que atingiu mais de cem mil assinaturas em dois dias deu a medida da importância do assunto. E agora os saltos altos estão de novo na berlinda. Pode uma mulher sentir-se livre e emancipada de dedos esmigalhados e calcanhares doridos? Os saltos são femininos… mas podem ser feministas?

É verdade que as mulheres usam saltos altos porque eles lhes trazem benefícios do ponto de vista social – elas usam-nos mais ou menos da mesma maneira que os homens usam a gravata, embora com mais sofrimento. Mas que poder é esse? O psicólogo Paul Heels, da Universidade de Portsmouth, responde, num texto sobre o assunto publicado nesta semana na revista americana Atlantic. «É um estímulo supernomal. Andar de saltos exagera alguns elementos especificamente sexuais do andar feminino, encorajando maior rotação pélvica, mobilidade vertical na anca, passos mais curtos, e um número maior de passos por minuto.» Além disso, há uma série de ilusões óticas a ter em conta: aumentam o comprimento das pernas, fazem perder quilos, endireitam as costas, tornam mais protuberante o rabo.

Ou seja, há muitas e válidas razões para usar saltos altos, e não é a menor delas que uma mulher se sinta mais bonita e mais elegante ao usá-los. Mas que tipo de poder lhe podem trazer, se todas essas razões se encontram no terreno básico da sedução?

[Publicado originalmente na edição de 22 de maio de 2016]