OPINIÃO

O missionário da literatura brasileira

«O Brasil é muito mais do que bunda», diz Domício Coutinho.

Domício Coutinho estudou para espalhar a palavra de Deus e acabou a divulgar os escritores do seu país em Nova Iorque. Aos 83 anos continua a mostrar aos americanos que «o Brasil é muito mais do que bunda».

Domício Coutinho não devia estar neste prédio no centro de Manhattan, rodeado de mais de seis mil volumes escritos em português, a explicar como fundou a única biblioteca de literatura brasileira aberta ao público nos EUA. Filho de mãe solteira no Brasil dos anos 1930, o pernambucano é um fundador improvável para o Brazilian Endowment for the Arts (BEA), a prestigiada instituição que celebrou em 2014 o seu 10.º aniversário. Mas a vida trocou-lhe sempre as voltas: quando decidiu ser padre, aconteceram-lhe as mulheres, quando tentou tornar-se escritor, começou a fazer dinheiro, muito dinheiro. E foi assim, forçado por um destino que lhe foi desarrumando os planos, que chegou aos 83 anos sendo reconhecido como um dos mais importantes missionários da literatura brasileira nos Estados Unidos. «O Brasil está na boca do mundo. A comida, o carnaval, a música, as meninas, tudo é celebrado, mas a nossa literatura infelizmente não é», explica o brasileiro na Biblioteca Machado de Assis, joia da coroa da sua instituição.

Com cerca de 35 escritores associados e centenas de eventos realizados, o brasileiro ainda conta com os dedos das mãos as pessoas que participam nas noites literárias da BEA. «Mas as coisas começam a mudar Já temos a visita de americanos, sobretudo empresários e turistas que querem aprender algo sobre o país antes de lá irem», diz.

Coutinho nasceu três meses depois de o pai ter morrido. Com sete filhos para criar, a mãe vendeu tudo o que tinha e deixou a pequena cidade de Caaporã, perto de João Pessoa, para se instalar em Pernambuco. Nesses anos, um menino pobre como ele tinha três caminhos para a prosperidade: juntar-se a uma banda de sucesso, ser bom a jogar futebol ou tornar-se padre. Coutinho escolheu a terceira opção e foi para o seminário com 12 anos. Uma década depois foi estudar na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Acabou por desistir antes de ser ordenado. «Senti que, por vários motivos, incluindo o celibato, o sacerdócio não era vida para mim», explica.

Viajou com um amigo pela Europa. Visitaram Itália, França, Suíça, Alemanha e, finalmente, Áustria. Foi lá que conheceu uma bela loura de 16 anos. «Namorámos muito diplomaticamente», diz Coutinho. «Prometi-lhe que ia acabar os estudos no Brasil, porque não conseguia arranjar trabalho como teólogo, e voltava.» Durante três anos trocaram cartas de amor. Depois de terminar a licenciatura em anglo-germânicas, comprou um voo para a Áustria que fazia ligação em Nova Iorque durante uma semana.

Quando passou por uma igreja, decidiu confessar-se. À falta do inglês, continuou em latim. O padre ficou impressionado e convidou-o para ser sacristão. «Ser sacristão não é grande coisa no Brasil, mas o padre disse que pagavam o salário mínimo e ofereciam duas refeições por dia», lembra Coutinho, que escreveu de imediato para a Áustria: «Vou ficar alguns meses. Vejo-te no verão.»

Pouco depois, arranjou trabalho como bagageiro no aeroporto. Não sairia mais de Nova Iorque. Lá casou-se com uma brasileira, Socorro Vanzan, e teve dois filhos, Charles e Joe. Depois de anos a alugar casa, comprou um edifício de três apartamentos em Queens por 14 mil dólares. Três anos depois, vendeu por 55 mil. Comprou outra casa, que tornou a vender. Depois uma terceira, e outra, e outra. Fez uma fortuna.

Em criança tinha recebido um prémio por um conto e nunca parara de escrever. Planeou publicar umas memórias chamadas Aventuras de Um Pau-de-Arara, mas essas lembranças acabaram transformadas em poemas, publicadas no seu primeiro livro, Salomónica ou Poemas Eróticos e Outros Poemas, ao mesmo tempo que o negócio imobiliário começava a crescer. «Quem sabe o que poderia ter feito se tivesse permanecido focado na minha escrita?»

Em vez de escrever, voltou para a escola. Tirou um mestrado e um doutoramento em Literatura, na City University of New York (CUNY). Acabou a dar aulas de Literatura em português na mesma universidade. Em 1998, publicou o primeiro, e último, romance. A ideia nasceu num dia em que regressou à sua antiga igreja e não a encontrou. Quando questionou um homem com um cão, este apontou para um terreno vazio. «Ali», disse, e Coutinho reconheceu a voz. «Alfredo?» Era o antigo cozinheiro da igreja. Abraçaram-se e Alfredo partilhou o destino da igreja: depois de umas inundações, as paredes tinham começado a ruir. A cidade dera o edifício como condenado. «E o irmão Alfonso?», perguntou Coutinho, dizendo o nome do padre. «Matou-se.» O cão que trazia era o mesmo que o padre levava para todo o lado. «Porquê?» Ninguém sabia. Foi esse o ponto de partida para o seu romance, Duke, o Cachorro Padre.

Coutinho tornou-se membro da União Brasileira de Escritores. A organização convidou-o a abrir um capítulo em Nova Iorque, o que fez, em 1999, começando a pensar num projeto que idealizava há décadas.

«Quando cheguei a Nova Iorque, a falta de notícias do Brasil era tremenda. Era um deserto comparado com hoje», conta. A sua casa tornou-se ponto de encontro para os intelectuais da diáspora. Coutinho, o bagageiro, andava sempre com outros quatro poetas: o lava-pratos, o coveiro, o lavador de carros e o rapaz que empurrava turistas em cadeira de rodas. «Ganhava uma nota. Era quem ganhava mais dinheiro deste pessoal», garante Coutinho. «Na altura, falávamos sempre da necessidade de uma biblioteca, um centro cultural, e essa ideia ficou comigo.»

O grupo cresceu e, anos depois, começaram a reunir-se no consulado, onde existia uma pequena biblioteca. No início dos anos 2000, o espaço estava muitas vezes indisponível e tornava-se pequeno para os milhares de volumes que se acumulavam. Perto dos 70 anos, Coutinho já não alimentava ilusões de ser um escritor de sucesso. Apesar de viver de forma simples, tinha feito fortuna e acabara de comprar um edifício da Rua 52, que tinha o rés-do-chão vazio. O brasileiro ofereceu o espaço como sede. Todos ofereceram apoio. E assim, em fevereiro de 2004, nasceu o Brazilian Endowment for the Arts.

Na última década, a BEA organizou centenas de eventos, incluindo conferências internacionais – como a que em 2011 homenageou Joaquim Nabuco, o escritor, diplomata e abolicionista pioneiro –, mostras de cinema, aulas de português e, todas as últimas quartas-feiras do mês, uma noite literária.

Apesar dos esforços, a esmagadora maioria dos norte-americanos continua a desconhecer o trabalho de autores como Machado de Assis, João Guimarães Rosa ou Jorge Amado. Kenneth David Jackson, professor de Português e Literatura, na Universidade de Yale, admira a luta de Coutinho. «É uma pessoa encantadora e muito dedicada à causa. Merece todo o respeito por tudo o que tem alcançado», diz o norte-americano, que já participou em eventos da BEA. «Mas a sua organização não consegue responder às necessidades de uma presença cultural do Brasil em Nova Iorque, nem perto disso.»

Jackson critica o Brasil por não ter uma representação oficial na cidade, com uma ligação forte às universidades e ao mundo da arte. «É anacrónico ver este esforço quixotesco, por um indivíduo sozinho, numa das capitais culturais do mundo», diz o norte-americano, evocando o herói literário criado por Miguel de Cervantes, e a sua inglória luta contra os moinhos de vento.

Alexandre Soares, em Nova Iorque
Fotografia: Alexandre Soares