OPINIÃO

Férias com os amigos?

Só com regras...

Se para alguns as férias com amigos podem ser uma experiência gratificante, também há quem, no regresso, admita que dava tudo para não ter partido. Sem fórmulas mágicas que garantam a harmonia, os psicólogos dizem que o diálogo honesto e a planificação prévia são meio caminho andado para passar neste verdadeiro teste à amizade.

É ótimo ter as crianças entretidas com miúdos da mesma idade. E ter por perto outros adultos com quem conversar e rir pela noite fora. Pelo menos, é assim que pensamos quando programamos férias de verão em conjunto. Depois de onze meses a ansiar pelas ditas, o que poderá correr mal? Na verdade, muitas coisas. É que partilhar tanto tempo livre com os outros pode não ser tão pacífico como se esperaria. Mesmo quando se trata do seu melhor amigo. Aquele que já conhece há anos e anos e com quem partilhou incontáveis aventuras e momentos importantes. A dada altura até ele é capaz de deixá-lo com os nervos em franja.

Marta Santos, de 35 anos, está habituada a passar férias com os amigos. E não tem corrido mal… até ao ano passado. À semelhança de experiências anteriores, o grupo de amigos alugou uma casa com piscina no Algarve durante uma semana. «Estávamos todos ansiosos por uns dias de descanso, livres de preocupações. Só queríamos praia, piscina, banhos de sol, conversas que se estendiam pela noite dentro. Sem horários ou calendários. Sem atividades programadas.» Mas desta vez a realidade era diferente da dos outros anos. Havia crianças na «bagagem» – Mariana e Francisco, de 2 e 3 anos – e um casal de amigos mais recentes, Ricardo e Inês, juntou-se ao grupo à última hora. E eles tinham outros planos em mente.

Catarina Lucas, psicóloga, acredita que os desentendimentos nas férias podem residir nas expetativas e preferências de cada um. «Há aspetos em que não pensamos e que por vezes podem trazer desentendimentos. Cada pessoa tem ritmos e interesses diferentes. E isso pode gerar conflitos e stress, obrigando-nos a fazer coisas que não queríamos e ir a locais que não desejávamos, afastando-nos assim das férias idealizadas.»

Os especialistas dizem que não se pode generalizar, mas reconhecem que podem surgir algumas fontes de tensão quando diferentes personalidades e feitios partilham durante algum tempo o mesmo espaço. «Podem ter horários diferentes, conceitos distintos acerca do que é divertido fazer. Algumas pessoas veem nas férias tempo de sesta, ler um bom livro, ficar em silêncio, apreciar paisagens; outras querem desportos radicais, agitação, ruído, cor e dança. Dá logo asneira», diz o psicólogo Vítor Rodrigues.

E foi isso que aconteceu com Marta. Inês e Ricardo estavam em polos opostos. «Queriam o convívio, mas também férias mexidas. Essa era a definição de descanso para eles.» Passar o dia inteiro à beira da piscina, a jogar conversa fora, era impensável. Por vontade deles, «as manhãs eram na praia, as tardes na piscina ou a passear, e os serões quase sempre fora de casa. Este era o programa de férias ideal deles». E, pronto, estavam abertas as portas para os primeiros desentendimentos. Afinal, nada disto tinha sido conversado com o grupo.

«Saber negociar bons momentos para todos, procurando aprender a apreciar o que outros apreciam, seguindo num dia a sugestão de um e, noutro dia, a sugestão de outro» é o conselho de Vítor Rodrigues quando existem ideias diferentes em relação ao que fazer. Mas e se se saltar a etapa da negociação e o conflito for iminente?«Lembre-se de ser assertivo, ou seja, diga aquilo que sente e pensa mas sem magoar a suscetibilidade da outra pessoa. Como o pode fazer? Sendo empático, isto é, colocando-se no lugar da outra pessoa e agindo da forma como gostaria que agissem consigo», explica Catarina Lucas.

A comunicação honesta e sincera pode ajudar a entender melhor as necessidades dos outros e a encontrar soluções que equilibram as situações. E foi o que Marta e os amigos fizeram. Ajustaram-se expetativas, fizeram-se cedências de parte a parte e, nas situações em que não conseguiram agradar a gregos e troianos, lá tiveram, como diz Marta, de «aturar o mau feitio dos que estavam em minoria».

Está a ver aquela ideia de que só se conhece realmente alguém depois de partilhar o mesmo teto com essa pessoa por alguns dias? Também se aplica aos amigos. Confinados aos mesmos espaços, as manias e os defeitos que até então desconhecia são revelados e, ao fim de alguns dias de convivência, tudo parece assumir proporções gigantescas. Não se iluda. Por mais sociável e paciente que seja, chegará a altura em que o verniz vai estalar. Pode ser quando for à cozinha e encontrar a loiça por lavar, pela terceira vez consecutiva. Ou quando alguém deixar roupa espalhada por toda a casa. Ou quando entrarem no seu quarto e mexerem nas suas coisas sem pedir permissão.

Estas situações nem sempre são visíveis no quotidiano que passamos com os amigos nem são impeditivas da amizade. Mas estar uma semana ou quinze dias juntos, na mesma casa, é uma realidade bem diferente. «As diferenças de cada um tornam-se mais notórias e os conflitos podem ser mais evidentes», diz Catarina Lucas.

Quando, há três anos, João Silva e a namorada foram de férias com a amiga Patrícia e o namorado desta, o Gonçalo, e outro casal, Pedro e Marina, não imaginavam o pesadelo que os esperava. Patrícia não conseguia abrandar. «Não conseguia ficar mais de quinze minutos sem se ocupar com alguma coisa diferente.» E tudo tinha de ser planeado ao pormenor. «Era incapaz de se deitar sem saber o que ia fazer no dia seguinte. A que horas íamos à praia. O que ia ser o almoço. Se fôssemos para a praia de manhã, íamos acabar por almoçar mais tarde e por não cumprir o horário da refeição, o que era um drama. E o jantar, ia ser em casa ou íamos ao restaurante?… Era um stress!», lembra João.

A verdade é que nem todos conseguem sair logo da rotina de trabalho e entrar no espírito do dolce far niente. «Muitas pessoas partem para férias ainda agitadas, cheias de espírito competitivo, e tendem a vivê-las como se fossem um percurso de obstáculos, com objetivos a cumprir… O que impede as férias de serem férias. E não é fácil entrar noutro ritmo», explica Vítor Rodrigues.

Mas esse não foi o único contratempo que abalou o descanso de João Silva. O outro casal que os acompanhou, Pedro e Marina, passava os dias a discutir. «Era um inferno. Todos os dias desentendiam-se e nós tínhamos de assistir a tudo. Foi muito constrangedor.» Com um ambiente de «cortar à faca» e alguns atritos pelo meio, João e a namorada já só conseguiam pensar no final das férias. E quando isso aconteceu, pensaram os dois o mesmo: «Dava tudo para voltar atrás e não termos feito férias com eles.»

Não existem fórmulas mágicas para o sucesso das férias em grupo, mas há alguns aspetos que podem ajudar. «A melhor forma de resolver eventuais problemas é a planificação prévia: perceber o que cada pessoa prefere fazer e tentar ajustar as fontes de discórdia», assegura Catarina Lucas. Assim, para que as suas férias não se convertam numa maratona «Big Brother», é importante falar antes sobre como querem vivê-las e, em função dos objetivos, expetativas e interesses do grupo, estabelecer regras. Mas sem que isso retire espontaneidade às férias ou impeça de desfrutar o momento. Além do mais, não têm de andar sempre todos juntos a toda a hora. Podem e devem, como a psicóloga realça, reservar «algum tempo para si ou para o casal [se for o caso]. Um passeio ou jantar a dois ou sozinho pode sempre trazer alguma tranquilidade».

Se ainda assim não conseguir manter os conflitos afastados, há uma arma secreta que pode ajudá-lo: «O sentido de humor parece- me fundamental em férias, ainda mais do que em época de trabalho. Ajuda a relativizar tudo e a tomar distância face a nós mesmos e ao que está a passar-se. Cultivá-lo ajuda», conclui Vítor Rodrigues.

As regras da casa

_ Planifique previamente as férias e estabeleça regras, que devem ser discutidas em conjunto.

_ Garanta o equílibrio entre os interesses de uns e outros, para que todos possam ter bons momentos.

_ Ao primeiro momento de tensão, fale honesta e abertamente sobre o que o causou. Com humor e empatia, de preferência.

_ Fazer férias em conjunto não significa andar sempre «em rebanho». Crie tempos e espaços para si e para os seus.

Carla Mateus
Ilustração de Corbis