OPINIÃO

Este país não é para mulheres

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Perante a capa desta edição, um título bom para esta crónica seria o original «Este país não é para velhos». Mas não vou falar outra vez de como devia mudar o paradigma de uma sociedade em que tanta gente vive até aos 100 anos. Em abono desta ideia – de que se falou nesta crónica há três semanas – e para acabar de vez com o assunto, digo apenas que a maior parte dos que chegam aos 100 anos passaram bem mais do que 65 ativos, não se reformaram na idade legal e, sobretudo, nunca se deixaram ficar no sofá.

Já às mulheres, um pouco mais de tempo de sofá não fazia nenhum mal. Esta é pelo menos a minha conclusão depois de uma sondagem realizada entre os dias 25 e 28 de setembro de 2015. O universo-alvo foi composto «pelas indivíduas» entre os 35 e os 50 anos recenseadas como minhas amigas e conhecidas residentes em Portugal continental e ilhas. Foram obtidos os inquéritos válidos suficientes para tirar conclusões, sendo 100% dos inquiridos mulheres. Todos os resultados obtidos foram depois ponderados de acordo com a experiência de vida de mim própria. A taxa de resposta foi de 100%. A margem de erro máximo tem um nível de confiança de 99,9% – e isto porque não foram ouvidas as opiniões dos maridos.

Desenganem-se os que pensam que a igualdade está próxima porque há mais X mulheres nas listas eleitorais, ou nos conselhos de administração de empresas, ou a trabalhar, ou a ganhar salários compatíveis. Na verdade, segundo esta sondagem que me caiu de bandeja numa série de conversas coincidentes do último fim de semana, as mulheres da minha geração estão mais ou menos no ponto em que estavam as suas mães e avós.

Talvez até pior: além de fazerem o que faziam essas antepassadas, ou, como diria o Paulo Portas, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos, agora também têm de ser excelentes profissionais, interessantíssimas como pessoas, com a conversa inteligente na ponta da língua, giras de morrer e boas como o milho, ou pelo menos em forma.

Os tempos modernos parecem ter chegado cedo de mais a Portugal. E nem os homens portugueses estavam preparados para tanta igualdade nem as mulheres portuguesas estavam preparadas para mudar tão rápido a ordem tradicional das coisas. Resultado, temos as mulheres a fazer o que sempre fizeram em casa e uma série de outras coisas lá fora. É assim, sem floreados. «Tempo para mim normalmente é o que uso para ir ao supermercado fazer compras para a família», desabafava comigo neste fim de semana uma executiva com uma carreira de sucesso. «De manhã tenho de ir levar os miúdos à escola, enquanto ele vai ao ginásio. E a comida, penso eu, planifico eu, ainda que ele vá fazer as compras», dizia outra, também quadro superior de uma empresa.

Ou seja, o que temos à vista desarmada é uma evolução da humanidade: mulheres poderosas, elegantes, desempoeiradas, carreiras de sucesso. Mas, salvo raras e espetaculares exceções, por detrás do verniz da unha e do cabelo esticado está a idade das cavernas: uma escrava do lar. Que além de ter de perder mais umas quantas horas por semana a tratar de si para corresponder aos standards, tem ainda de organizar a vida familiar, tem a maior parte da responsabilidade com os filhos e, quem sabe, também com os pais, já velhos.

Não há política que faça avançar a igualdade, porque ela começa em casa. Quando elas deixarem de ser quem apanha sempre as peúgas sujas do chão, talvez haja um mínimo de esperança.

[Publicado originalmente na edição de 4 de outubro de 2015]