OPINIÃO

Entre génios e loucos

Detalhes de vidas excecionais ajudam a compreender melhor vidas mais "normais", diz Adrián Gramary.

Fascinado pela relação entre a loucura e a criatividade, o psiquiatra galego Adrián Gramary escreveu um livro em que analisa vidas famosas, de F. Scott Fitzgerald a Adolf Hitler, que mais se assemelharam às de «acrobatas extraordinários dançando à beira do abismo».

QUEM É ADRIÁN GRAMARY?
Tem 48 anos, nasceu em Vigo, licenciou-se em Santiago de Compostela, mas foi no Porto que decidiu viver e trabalhar, já lá vão 18 anos. Psiquiatra no Hospital Senhor do Bonfim, em Vila do Conde, investigador com uma experiência vasta, publicou recentemente Palco da Loucura, uma aproximação biográfica a figuras célebres como Virginia Woolf, Marilyn Monroe ou Ernest Hemingway numa perspetiva psiquiátrica.

O Palco da Loucura é um livro que deve tanto à paixão pela psiquiatria como à que nutre pela literatura?
_É verdade. Sou um leitor compulsivo. E neste livro há muita paixão. Paixão pela leitura e também pela reflexão surgida da leitura. Tierno Galván, um famoso presidente da Câmara de Madrid, disse que um bom leitor reconhece-se porque se comporta como um pássaro a beber. Cada certo tempo deve parar e levantar a cabeça para refletir e digerir aquilo que leu. Por outro lado, curiosamente, a leitura deixa um sedimento em nós que muitas vezes só dá frutos passado bastante tempo. A leitura é uma coisa misteriosa e também uma autêntica droga dura, das piores que eu conheço.

Gostava que este livro fosse lido essencialmente como uma biografia com laivos médicos ou o oposto?
_Sim, embora me assuste um pouco chamá-las biografias, talvez sejam isso, breves biografias escritas por um psiquiatra, que, portanto, não pode deixar de ter um olhar específico sobre as vidas destas pessoas famosas. Contudo, tentei fugir, sempre que possível, de certo modelo de patobiografia cheia de certezas absolutas sobre o psiquismo de pessoas famosas mortas. No meu caso, muitas vezes, partilho mais dúvidas do que certezas sobre a mente destes seres.

Cada um dos episódios narrados contém uma pequena fábula no seu interior. Quis, desta forma, distanciar-se de uma abordagem mais fria e clínica?
_É provável que isto tenha acontecido de uma forma menos consciente. Mas a verdade é que quando juntei os artigos apercebi-me de que todos eles destilam reflexões sobre a resposta psíquica de seres humanos excecionais perante situações extraordinárias como o Holocausto, a infância roubada, a morte dos filhos ou a doença mental grave.

Conhecer detalhes sobre vidas excecionais pode ajudar-nos a compreender melhor vidas aparentemente normais como as nossas?
_Penso que sim. O título, de facto, surge de uma frase de O Rei Lear, de Shakespeare, que diz qualquer coisa como «vimos a este mundo, que é um palco de loucos». O mundo por vezes parece realmente delirante. E não sabemos como sobreviver sem perder a saúde mental. Curiosamente, a comparação entre as nossas vidas corriqueiras e as vidas muitas vezes mirabolantes ou extremas dos protagonistas do livro (Marilyn, Picasso, Scott Fitzgerald, Camille Claudel, Van Gogh), que juntam muitas vezes à genialidade a doença mental, pode trazer alguma luz sobre as nossas dúvidas. No fundo, todos somos humanos, e, como dizia Caetano Veloso, visto de perto ninguém é normal.

Em que medida a psiquiatria é um auxiliar útil nessa matéria?
_Para mim a psiquiatria é apenas um instrumento para tentar compreender os mecanismos psíquicos do ser humano doente. E esse saber só é útil se depois serve para ajudar a cuidar.

Mas porque é que a genialidade e a loucura caminham tantas vezes lado a lado?
_Essa é uma pergunta difícil que, por sua vez, dá origem a outras muitas interrogações. A doença mental traz associado algum acréscimo de criatividade por ela própria? O bom senso diz-nos que provavelmente um indivíduo não se torna genial só por ter esquizofrenia. Há pessoas com esquizofrenia criativas e não criativas. No entanto, é verdade que ao longo da história, muitos artistas tentaram provocar artificialmente estados alterados da consciência, como Rimbaud ou Baudelaire, nomeadamente através do consumo de drogas, convictos de que isso iria permitir perceber zonas da realidade não acessíveis num estado normal. Houve muitas teorias sobre esta questão ao longo do tempo e continua a haver psiquiatras, como a professora Kay Redfield Jamison, que defendem que a doença bipolar é muito mais frequente entre os criadores.

Se é certo que ninguém é absolutamente normal, concorda, por outro lado, que há em personalidades ligadas às artes uma maior propensão para o desenvolvimento de perturbações de foro clínico?
_É evidente que os artistas são por definição pessoas dotadas de uma sensibilidade maior e de um maior poder de introspeção; estas são virtudes que, em contrapartida, também conferem uma vulnerabilidade maior para diferentes formas de sofrimento psíquico. De facto, desde Aristóteles, há muitos pensadores que acreditam na relação entre a melancolia e a criatividade. O problema também está na ordem, o que é que surge primeiro? A melancolia traz criatividade ou é o ato criativo que nos deixa melancólicos?

Qual foi a perturbação mais comum que encontrou nas figuras analisadas?
_Sem dúvida, as perturbações do humor, isto é, depressões, ciclotimia e doença bipolar.

Embora os artistas estejam em maioria, fala também de outras figuras, como Hitler ou Hess. O que o impressionou mais em ambos? A banalização que o mal pode assumir?
_Estes dois casos interrogam-nos sobre os limites entre a maldade e a doença mental. É sobejamente conhecido que há muitas teorias sobre a eventual patologia psiquiátrica de Hitler. Há quem defenda que tinha uma perturbação de personalidade, ou até uma paranoia. O problema dos limites entre a personalidade anormal e a doença mental é outra eterna pergunta sobre a qual a psiquiatria é muitas vezes questionada. Qual é a explicação psiquiátrica para a incapacidade absoluta para empatizar com o sofrimento alheio? Como é possível explicar, por exemplo, a incapacidade do comandante do campo de Auschwitz para ter o mínimo remorso perante a responsabilidade moral pela morte de milhões de inocentes? Serve o argumento do fanatismo para explicar isto? Ou temos de recorrer à explicação do mal? E tem o mal alguma explicação psiquiátrica? São muitas perguntas inevitáveis, mas de difícil resposta.

Egas Moniz é uma das figuras de que fala no livro. Como se explica que tenha sido cúmplice no famigerado caso do internamento compulsivo de uma mulher aparentemente sã como Maria Adelaide Coelho da Cunha?
_É difícil de compreender como é que alguns dos vultos mais importantes da psiquiatria da época, como Egas Moniz, Júlio de Matos e Sobral Cid, puderam ter um papel tão dúbio à luz da perspetiva atual. A verdade é que aquilo foi qualquer coisa mais parecida com um julgamento moral do que com uma perícia médico-psiquiátrica. Aos nossos olhos, o internamento psiquiátrico e a posterior interdição foram apenas instrumentos para punir o comportamento de uma mulher que simplesmente tinha deixado de gostar do marido e estava apaixonada por outro homem. Ocorrem-me muitas possíveis explicações, mas nenhuma boa.

Que critério adotou para escolher as personalidades representadas no livro?
_Foram personalidades que me fascinaram ou pelas circunstâncias que envolveram a sua vida ou pela intensidade da sua obra.

Que figuras gostaria de ter incluído nesta lista que, por qualquer motivo, não foi possível incluir?
_Muitas. Por exemplo, Fernando Pessoa, Rimbaud, Kafka. Mas, quem sabe? Talvez esses fiquem para um segundo Palco da Loucura.

Sérgio Almeida
Fotografia: Adelino Meireles/Global Imagens