OPINIÃO

Livraria de uma finlandesa em Lisboa

Um sonho de mulher.

É uma pequena loja de livros usados, escritos exclusivamente em inglês, oferta rara na capital e sonho de Leena Marjola, concretizado em março, mal a finlandesa percebeu que Lisboa era uma escolha de vida.

Por vontade da proprietária, nascida em Helsínquia há 47 anos, contabilista por formação e desde sempre apreciadora de livros, no número 11 da Avenida Luís Bívar não há pressa. «Quem entra pode apreciar, folhear e escolher cada livro, sentar-se e conversar com outros clientes ou comigo, esquecendo por um tempo o telemóvel», tal é a proposta da escandinava, «pensada à medida dos portugueses». E os que entram são sobretudo portugueses, alguns deles disponíveis para «longas conversas», porque, afirma a sorridente Leena, «aqui há tempo». Ela própria assume o contágio: «Quero acalmar. Na Finlândia trabalhava muito, essa foi mesmo uma das razões que me trouxe a Portugal. Aqui, com este sol, não penso matar-me a trabalhar.» Ter, ou ser, calma: «O que não me acontecia em Helsínquia, acontece em Lisboa.»

Ficção geral, mistério, crime e thriller, fantástico, biografia e memórias, romance histórico, culinária, viagens – a Bookshop Bívar, em meticulosa organização, marca da proprietária, oferece livros de bolso em segunda mão (alguns deles ainda cheiram a novo), a preços que variam entre os 3,5 e os cinco euros. Numa estante, em «saldo», alguns Dan Brown a um euro cada e no chão, empilhados contra a parede, vários tomos da enciclopédia britânica, ainda sem preço atribuído, são algumas das raras exceções. Cerca de cinco mil livros, contabiliza Leena, muitos deles ainda em caixotes, arrecadados em duas pequenas salas vedadas ao público. Por enquanto.

Quatro meses de funcionamento não são suficientes para identificar os autores ou os livros mais procurados. As primeiras remessas chegaram do Reino Unido em fevereiro. Provavelmente muitas outras terão a mesma origem. «É o mais certo, mas ainda não sei qual vai ser a nossa principal fonte. Sou nova no negócio, ainda estou a aprender». Já aprendeu que, por cá, «um livro ainda é considerado um objeto precioso»: «As pessoas não emprestam livros, não doam livros. Sou capaz de entender esse apego, mas a verdade é que o mundo está a mudar. A questão é ambiental e financeira, e mais dia menos dia acabará por se pôr em Portugal.»

A desafio do marido, inglês apaixonado por este país desde adolescente, Leena aterrou pela primeira vez em Lisboa na primavera de 2011, decorria a Feira do Livro. «Para quem gosta de livros, a feira é um espetáculo. Juntando a isso o facto de haver muitas livrarias na capital, fiquei com a ideia de ter chegado a um lugar de livros. Resultado: apaixonei-me em dois ou três dias.» Encontrou uma cidade «com o tamanho certo» e agradou-lhe a «cultura de café». Tal como «as pessoas, a vista, a luz».

Regressaria no outono de 2011. Outra luz, outra vista: «Vim com mais tempo, e foi então que percebi que em Portugal o livro é um bem caro e a oferta, em inglês, muito reduzida. Estranho, numa cidade com tantos estrangeiros.» Por isso, Lisboa pareceu-lhe ser a cidade ideal para este projeto, em mente há muito tempo. «Esperei dois anos para ter a certeza de que queria ficar e, depois, parti para a ação.»

O espaço – três pequenas salas, com direito a cozinha, num prédio de fachada pintada de amarelo garrido, vizinho de embaixadas e a poucos números da Alliance Française – encontrou-o «por acaso, em dezembro passado», passeava com o marido pela pacata avenida, freguesia de São Sebastião da Pedreira. «Vi, adorei e comecei logo a fazer projetos: poderia arrancar com uma primeira sala e posteriormente abrir ao público o restante espaço», na conjugação há muito desejada de livros e arte. Nas paredes brancas da livraria estão telas coloridas da amiga, também finlandesa, Soili Helena Hortana, «inspirações cruzadas de Lisboa com Moçambique», nas palavras da autora (os preços variam entre os 700 e os 1200 euros). Oriunda de uma família desalojada dos territórios anexados pela ex-União Soviética, na sequência da Segunda Guerra Mundial, Soili chegou a Portugal há 30 anos e ficou.

Leena, de regresso aos planos: «Tenho muitos, resta saber quais irão realizar-se. Gostava muito de manter o complemento dos livros com exposições e de usar para isso as salas vagas.» E está empenhada em desfazer um mito: «Não é verdade que os nórdicos sejam mais trabalhadores do que os povos do Sul. Há pessoas preguiçosas e pessoas que trabalham no duro em todo o lado, as generalizações nunca fazem sentido. O sol ajuda a desfrutar a vida, e a verdade é que, pela falta dele, os escandinavos são mais graves. Mas também me parece que uma boa parte de tanta atividade é puro fingimento. Como se estarmos permanentemente ativos fosse um sinónimo de status, um reconhecimento de valor. Tolice.»

O negócio ainda não lhe permite retirar salário, mas o balanço é outro: «Estou a divertir-me muito. Na loja conheci já muitas pessoas adoráveis que, tal como eu, são felizes com a minha livraria. Ainda não tenho clientes suficientes mas, com o tempo, eles chegarão.» Lá está: não há pressa no número 11 da Luís Bivar, Lisboa.

Alexandra Tavares Teles
Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens