OPINIÃO

As paredes têm ouvidos

A exposição já terminou, mas pode sempre dar um salto à galeria de Pedro Batista, em Lisboa, para conhecer o trabalho do pintor.

Começou tímido em casa dos pais, mas as personagens de Pedro Batista cresceram entretanto e explodem agora em grande formato, cheias de cores trazidas de uma viagem a Marrocos. Paper-thin Walls está aberta ao público até dia 20, em Lisboa.

Pedro Batista começava a acu­sar a frustração de fazer de tudo um pouco sem verda­deiramente se sentir bom em nada quando decidiu que iria ser excecional a desenhar e a pintar. Fascinavam-no as experiências de graffiti dos amigos que, como ele, viviam e estudavam em Carcavelos no início dos anos 1990, era ainda um miúdo. Skater con­victo, ouvia hip hop e identificava-se com o movimento de street art, a poderosa arte criada nas ruas, distinta das manifestações institucionais e do vandalismo. Pedro põe hoje nas suas personagens de tinta o mesmo fervor com que em tempos manobrou o ska­te. Aos 33 anos, vive sem angústias da sua ar­te. Paper-thin Walls é a mostra de cor que exi­be agora no Espaço Boavista 73, o seu estúdio em Lisboa, e está patente até ao dia 20.

«Este novo conjunto de quadros começou com uma viagem a Marrocos, três ou qua­tro dias em Marraquexe, de onde trouxe uma série de pigmentos e de ideias que me inspiraram a mudar a linguagem», conta o artista, animado com as transformações. «O formato é de grande escala porque achei que funcionava bem com a explosão cromá­tica. Não pensei se as pessoas têm, ou não, espaço para levar os quadros para casa: arrisquei e rezo para que tenha sorte.» Pedro gosta de pintar a óleo sobre tela e aqui usou sobretudo papel, folhas gigantes, para agarrar melhor os pigmentos e extrair toda a cor. «O resultado é mais vibrante as­sim», observa.

Após uma fase de timidez inicial, em que pintava em casa e mostrava o que fa­zia só aos amigos mais chegados, em 2004 licenciou-se em Design de Comunicação na Universidade Lusófona de Lisboa. O de­sign nunca chegou a fazer sentido, não lhe dava a liberdade que procurava. Em com­pensação, naqueles quatro anos teve dese­nho e agarrou-se à pintura. Seguiu-se um programa de residência de verão na Esco­la de Artes Visuais de Nova Iorque, duran­te três meses, em 2009, onde expôs coleti­vamente e conheceu muita gente que lhe abriu os horizontes. No ano seguinte, este­ve seis meses em Berlim e pintou sem freio até sentir vontade de regressar a Portugal.

«Obrigo-me a vir ao ateliê todos os dias. Mesmo nas fases menos produtivas, em que ando em banho-maria, forço-me a es­tar ao lume», revela Pedro Batista, pouco dado à visão romântica de acordar a meio da noite para plasmar uma ideia. «Sou dis­ciplinado, só me levanto para beber água ou ir à casa de banho. Se tenho uma ideia, anoto-a. Tudo o resto faço no ateliê, depois de um pequeno-almoço de hora e meia em que aproveito para ver as notícias.» Qual­quer imagem de jornal ou revista pode vir a servir-lhe de inspiração, como os livros, os filmes, pessoas que conhece e fotografias que tira quando adivinha o potencial de al­go. «Este é o meu trabalho de casa.»

«Nesta exposição continua a haver uma personagem central, como havia nas séries anteriores. O cenário mudou, a cor mudou, mas a energia mantém-se», conta. Tal co­mo se mantém uma certa nostalgia no fi­nal: «As personagens que habitam estas obras carregam um vazio enorme.Estão paradas no tempo, congeladas. E a cor en­tra para preencher este vazio. Ela salva as personagens através da sua força, anulan­do as zonas mortas e realçando a história que cada uma tem para contar. Afinal, as paredes têm ouvidos», diz.

Enquanto artista, Pedro Batista tem par­ticipado regularmente em mostras indi­viduais e coletivas nos Açores, em Lisboa, Nova Iorque e Atenas. Concebe uma cole­ção por ano, findo o qual muda a lingua­gem plástica e a sua ligação aos quadros que pinta, como se fechasse um ciclo para dar lugar ao próximo. Tudo muda à luz da sua imagem inquieta, exceto o gosto pela visão humanista. «Há figuras que correm mui­to bem à primeira e é maravilhoso quan­do isso acontece, mas é também dessas que me distancio mais rapidamente.» O pintor entende-as como uma paixão. «Há outras que me dão muito mais trabalho, mas pare­ce que depois a coisa fica em amor.» Foi as­sim com o retrato de dois metros que pin­tou do seu cão Artur, um podengo branco de 2 anos, a figurar na nova exposição. «Ba­sicamente, é uma versão cómica de um cão pequeno, mas com uma grande importân­cia para os donos.»

Em todas as imagens, mais do que um conceito, Pedro procura uma relação emo­cional com quem as vê. Vende essencial­mente em Lisboa, a particulares, e há clien­tes que lhe vão comprando sempre uma pe­ça de cada série, apesar de um quadro grande de papel e pigmento custar 3800 euros, perto de cinco mil se fosse a óleo so­bre tela. A inquietude das personagens re­tratadas faz que seja fácil o público identifi­car-se com elas. Essa mesma empatia, acre­dita, levou a Galeria de Arte Urbana da Câmara Municipal de Lisboa a convidá-lo, em 2013, para desenhar um mural retra­tando Almada Negreiros. «Não tenho muito jeito para falar das coisas que faço. Acho que as imagens têm de viver por elas, falar por elas.» Há umas que comunicam mais com as pessoas do que outras e faz tudo parte do processo. «A arte não tem de agra­dar a toda a gente», acentua.

Depois desta Paper-thin Walls, o pintor vai começar a fazer contactos e a preparar nova série para expor em Londres, ainda não sabe em que moldes. «É uma cidade com uma energia brutal, ótima para fazer networking… Está na calha para breve», as­segura o artista, motivado. Não é homem para se consumir em ânsias enquanto pre­para o futuro. Prefere gastar as energias a fazer surf, um vício por que é mais fanático do que pelo desenho. «Quanto mais velho, mais aficionado. Se pudesse ia todos os dias para o mar, seria profissional das ondas.» Pedro depende dessa ligação para manter os pés em terra. De ir com a prancha para Carcavelos, para a Caparica, Ericeira, para o Guincho, Praia Grande, e trazer a ca­beça arejada. «Um artista tende a necessi­tar de pôr coisas cá para fora, de reinterpre­tar o que vê, mas não acredito nessa ilusão de a arte me definir enquanto pessoa.» Por mais que se desdobre em muitos quadros, não há no mundo materiais suficientes para exprimir o que lhe vai na alma.

Ana Pago
Fotografia: Gerardo Santos/Global Imagens