OPINIÃO

Por que gostamos tanto de ver gatos na internet?

Hoje é Dia Mundial do Gato e nós resolvemos tentar perceber as razões por detrás do triunfo dos gatos na internet, que rendem milhões de visualizações, o que pode dar tanto dinheiro que alguns donos já deixaram de trabalhar para gerir a carreira do seu gato. Há quem se espante com o fenómeno, há quem o tenha estudado e até houve um museu em Nova Iorque que lhe dedicou uma exposição. Afinal o que têm os gatos de tão viral?

Se este texto fosse escrito em inglês, o título também poderia ser Citizen Cat, inspirado no Citizen Kane, de Orson Welles, que em português deu O Mundo a Seus Pés. O Mundo a Suas Patas não tem glamour, mas bem poderia contar a história de como os gatos, vadios ou de raça, bebés ou adultos, fofinhos ou feiosos, construíram um império na internet, tornando-se, sem grande esforço, virais e rendendo milhões de páginas, imagens, vídeos, memes, visualizações, interações, partilhas, likes e por aí fora, incluindo neste «por aí fora» muito dinheiro. A questão – rosebud transformado em meow, em inglês, ou miau, em português (sim, parece que os gatos também falam línguas diferentes) – é porquê?

Parece tonta a pergunta. Que raio, tanto assunto realmente relevante que o jornalismo tem para pensar, analisar, denunciar, cá dentro e lá fora, e nós a falar de gatinhos? Também eu abanaria a cabeça em sinal de desaprovação antes de ter digitado no Google a expressão «cats and the internet». É um bocadinho demorado, querendo ter o artigo escrito ainda neste século, percorrer os 59 milhões e 500 mil resultados que a pesquisa devolve, mas dá para perceber que é assunto que tem ocupado muita gente e que não passou ao lado de títulos tão prestigiados como o The New York Times, o The Guardian, a Vanity Fair, a Time, a Wired ou o Washington Post, entre muitos, muitos outros. Afinal, são imensos os jornalistas que têm procurado descortinar as razões por detrás do sucesso dos gatos no mundo digital.

Para isso, há que dizê-lo, contribuíram bastante três acontecimentos em meados de 2015: o Museum of Moving Image, em Nova Iorque, ter inaugurado a exposição «How Cats Took Over The Internet» (Como os Gatos Tomaram Conta da Internet); terem sido revelados os resultados de um estudo da Universidade de Indiana sobre o fenómeno, conduzido por uma investigadora e professora de comunicação, Jessica Gall Myrrick, com base em sete mil entrevistas online; e ter sido organizada em Los Angeles a primeira convenção dedicada aos gatos – CatCon –, que contou com a participação de algumas celebridades felinas da Internet e respetivos donos, que discutiram a pungente questão de como tornar o seu gato uma celebridade online e ficar rico.

Gato ou cat, sobretudo cat, uma das palavras mais pesquisadas online. Há milhões de vídeos protagonizados pelos bichos no YouTube, cada um deles atraindo milhões de visualizações, que rendem muito dinheiro.

Mas se pensarmos bem, não é para menos (que os jornalistas se interessem pelo fenómeno). Gato ou cat, sobretudo cat, uma das palavras mais pesquisadas online. Há milhões de vídeos protagonizados pelos bichos no YouTube, cada um deles atraindo milhões de visualizações, que rendem dinheiro, e até há nos Estados Unidos, claro, um Internet Cat Video Festival. Um dos gatos mais famosos, o Grumpy Cat, cujo nome verdadeiro é Tardar Sauce, tem uma página oficial no Facebook, com quase nove milhões de likes, foi capa do Wall Street Journal e da revista New York, faz vídeos no YouTube e publicidade a marcas não só de comida para os da sua espécie, mas também de carros ou café (isto só vasculhando os posts mais recentes), gera merchandising que nunca mais acaba e protagoniza até um jogo eletrónico. O dono da Lil Bub, outra felina célebre, deixou de trabalhar, assim como a sua mulher, para responder às solicitações criadas pela fama do animal de estimação, que também tem página no Facebook, conta no Instagram, canal no YouTube e uma loja online, onde vende produtos com o seu focinho estampado.

E mais, os bichos ultimamente até em questões políticas se metem. «Trump your cat» é uma das tendências mais recentes, iniciada quando o agora presidente dos Estado Unidos se candidatou ao lugar. Imagens de gatos com o peculiar penteado do milionário acompanhadas do slogan «Trump your cat, don’t trump America» espalharam-se pela rede. A mensagem pode não ter surtido grande efeito, mas teve graça. Como teve, se isso é possível, no meio da tragédia dos atentados terroristas em Bruxelas, no ano passado, as redes sociais terem sido invadidas de imagens de gatos para estancar a divulgação pelos media de informações que poderiam ajudar os terroristas a escapar, ou, em junho último, a onda de Cats Against Brexit (Gatos contra o Brexit), como forma de protesto pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia.

A história de amor entre os gatos e a Internet não é recente, mas é, para alguns, surpreendente. Tim Berners-Lee, um dos pioneiros da dita e criador da World Wide Web (WWW), quando perguntado por ocasião dos 25 anos da sua «invenção» sobre o que mais o tinha surpreendido na evolução da rede, respondeu: «Os gatinhos.»

Os vídeos de gatos são um dos conteúdos mais usados para a procrastinação. E pior, qualquer culpa que pudessem sentir pelo não cumprimento das suas obrigações é suplantada pelo prazer de ver gatos a fazer coisas tão parvas como entrar e sair de uma caixa.

Jessica Gall Myrrick, a tal investigadora da Universidade de Indiana, que tem como objeto de estudo a relação entre media e emoções, deixou-se intrigar pelo fenómeno e, em 2015, publicou uma pesquisa que, de acordo com a Science of Us, da revista New York, concluiu, entre outras coisas: que as pessoas mais facilmente postam nas redes sociais uma fotografia ou um vídeo do seu gato do que uma selfie (agora, imagine, considerando a praga que são as selfies, o que isto significa: estamos a falar do dobro); que os vídeos de gatos são um dos conteúdos mais usados para a procrastinação, ou seja, as pessoas veem vídeos de gatos enquanto estão a trabalhar ou a estudar, e pior, qualquer culpa que pudessem sentir pelo não cumprimento das suas obrigações é suplantada pelo prazer de ver gatos a fazer coisas tão parvas como entrar e sair de uma caixa; por último, que estes vídeos diminuíam a ansiedade, a tristeza e o aborrecimento e aumentavam a energia e a boa disposição. Pistas para a revelação do segredo.

Um amigo que percebe destas coisas da internet dizia outro dia que o que as pessoas ali querem encontrar é emoção, coisas que as divirtam ou comovam, que as façam rir ou chorar. Talvez seja isso que torna os gatos virais. Os sacripantas dos bichos têm o dom de provocar emoções. Ao estilo amoroso da Hello Kitty ou arrogante e sarcástico do Garfield, nunca ficam na mó de baixo. Como dizia um jornalista da Wired num dos mil artigos que li: «The cat is the thing that will not be humiliated». Seja em que circunstância for, um gato mantém sempre a sua dignidade. E isso causa admiração e empatia.

Por momentos, o meu olhar desvia-se do ecrã do computador e fixa-se no Sushi, o meu gato, muito mais bonito do que qualquer um dos que se tornaram estrelas da Internet e renderam milhões aos seus donos. Nunca saberemos, no entanto, se ando a alimentar o meu bilhete premiado do Euromilhões para receber em troca apenas marradinhas e ronronares orgulhosos, quando podia estar rica. Tenho de escrever, não tenho tempo para fazer vídeos de gatinhos para o YouTube.

[Este texto foi publicado originalmente na Notícias Magazine, em fevereiro de 2017]

 

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Catarina Pires
Fotografia Getty Images e Shutterstock