Há pilotos do mundo inteiro a estudar em Ponte de Sor

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Atrás do caso dos filhos do embaixador do Iraque havia outra história: uma escola de aviação no meio do Alentejo.

Há três anos, a abertura de uma escola internacional de aviação começou a trazer gente do mundo inteiro para uma pequena cidade do Alentejo. E mudou-a para sempre, sem que ninguém tivesse reparado. Em agosto de 2016, o país escandalizou-se com a agressão dos filhos do embaixador do Iraque a um rapaz de Ponte de Sor. Atrás daquele caso, no entanto, havia outra história por contar.

QUANDO, NO FINAL DE AGOSTO do ano passado, Allyana Galasi chegou ao aeródromo de Ponte de Sor, tirou as malas do táxi, olhou em redor e pensou: «Vou passar o próximo ano aqui e aqui não há distrações. Quando sair, vou estar pronta para voar.» A rapariga tem 24 anos, é filipina mas cresceu no Dubai. «Sempre soube que queria ser piloto», diz. «Mas nunca pensei que viesse aprender o meu sonho do outro lado do mundo, em Portugal. E ainda menos num lugar tão pequeno.» Acabou por gostar. «Há uma serenidade aqui que me permite concentrar no que quero fazer. Esta escola é única – e é única porque está precisamente no meio de nenhures. É uma sorte incrível ter vindo parar ao Alentejo.»

Allyana é uma das duas centenas de jovens que treinam em Ponte de Sor para ser pilotos de aviação comercial. Um, filho do embaixador iraquiano em Portugal, pôs a escola nas bocas do mundo, no verão passado, por causa de um caso de agressão. Mas a GAir abriu aqui a sua base de treino há já três anos e, desde então, a escola tornou se um dos maiores centros europeus na formação de comandantes. «No mercado onde operamos existem três a cinco players a nível mundial», explica Nelson Ferreira, vice-presidente e porta-voz da empresa. «São escolas sediadas na Europa, mas que realizam o seu treino de voo fora, essencialmente nos estados norte americanos da Florida e do Arizona.» Regiões que, tal como o Alentejo, oferecem mais de três mil horas de sol anuais e permitem uma prática quase ininterrupta aos alunos. «A GAir está em forte expansão internacional e o objetivo é fazer parte do grupo de topo até ao final de 2018. A recente política de vistos norte-americana joga a nosso favor, pode acelerar todo este processo.»

Os mais de mil alunos que já fizeram aqui o curso desde a abertura das instalações são provenientes de 79 países – e, em boa verdade, de todas as partes do mundo (ver infografia). Além dos portugueses, que representam quase um terço da população da escola, há grupos constantes a chegar de Itália e Angola, Argélia e Egito, China e Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, Namíbia e Nigéria, Omã, Irão, Paquistão. «De repente, Ponte de Sor, a pequenina Ponte de Sor, transformou se numa das cidades mais multiculturais do país», diz Hugo Hilário, presidente da câmara municipal. «Houve alguma estranheza ao início mas rapidamente as pessoas adaptaram-se. A cidade ganhou uma nova vida – social, cultural e económica – e uma dinâmica como nunca antes teve. Eu ficaria contente com metade da transformação a que assistimos. Mas isto superou todas as minhas expetativas.»

Não é difícil identificar os pilotos em Ponte de Sor: circulam pelas ruas da cidade com os inevitáveis blusões de cabedal castanho e toda a gente aqui parece perceber o nível de especialização de cada um. Se no ombro usam três listas, então são instrutores. Duas listas servem os que já pilotam aviões multimotores, uma para os que estão a iniciar se nos comandos de uma aeronave. Mais de noventa por cento são homens, neste momento não frequentam a GAir mais de cinco mulheres. O povo vai se habituando a vê-los, mas para todos os efeitos eles ainda são «os do aeródromo». Há uns meses, quando uma rapariga do Dubai começou a andar pela cidade com lenço na cabeça, houve quem se queixasse, que não queriam ali gente de burqa. «Começou por ser estranho, sim, mas rapidamente toda a gente se habituou», diz João Simões, dono de um café. «Muita rapaziada nova daqui acabou por ficar amiga dela. A moça, na verdade, era uma simpatia.»

As tensões que se criaram com a chegada dos forasteiros atingiu o seu pico de visibilidade no verão passado. Uma zaragata num bar da cidade acabaria por criar um embaraço diplomático entre dois países, a saída do embaixador iraquiano de Lisboa e um pedido de retirada da imunidade diplomática aos seus filhos – acusados pelo Ministério Público de agredirem violentamente um rapaz da terra.

Um dos agressores era aluno da GAir e acabou por ser expulso da escola. Mas isso não espelha necessariamente a realidade das relações com os futuros aviadores. «Os problemas que existem acontecem com grupos de jovens locais, que muitas vezes se veem sem grandes possibilidades de construir uma vida digna e encontram nos que chegam de fora a imagem de tudo o que não conseguem alcançar», diz uma fonte das forças de segurança, que prefere não se identificar. «Os do aeródromo são pessoas bem parecidas, com algum dinheiro, bons carros. Há muitas raparigas da terra a suspirar por eles e isso chateia os que cá vivem. A maioria das escaramuças nascem destes problemas de saias. Mas não são assim tão significativos. Em três anos, não houve mais de meia dúzia de situações em que a polícia tivesse de ser chamada. Se aqueles rapazes não fossem filhos de quem eram, não teria havido metade do alarido.» Ao longo dos dias seguintes, vários sorenses alinhariam pela mesma batuta, ainda que pedissem sempre anonimato. A mesma fonte explica assim o consenso: «Ninguém quer matar a galinha de ovos de ouro da terra.»

LOCALIZADA BEM NO MEIO da Estrada Nacional 2, que atravessa o país de Chaves a Faro, a pequena cidade alentejana de Ponte de Sor enriqueceu no último quarto do século XX com três negócios essenciais: a exploração da cortiça, a paragem dos automobilistas e uma fábrica de componentes automóveis que dava emprego a quase 500 locais. A construção da rede de autoestradas, no final dos anos 1990, foi fatal para grande parte dos negócios e o encerramento da Delphi em 2009, depois de 29 anos de atividade, atirou a economia local para uma verdadeira agonia. A população jovem e ativa partiu para as grandes cidades ou emigrou. Em 2010, a taxa de desemprego atingiu o seu valor recorde: 17 por cento. Em 2016, no entanto, o número tinha baixado para 8,7 por cento.

«O aeródromo dá emprego a trezentas pessoas, o que no nosso contexto é muito relevante», diz o presidente da câmara. «Mas não é só o emprego, é a dinâmica económica que se estabeleceu nos últimos anos. O mercado imobiliário cresceu como nunca e também os negócios de hotelaria – cafés, restaurantes e bares. E isso dá um novo balão de oxigénio à população.» A GAir estima que a injeção direta de capitais na região ascenda aos seis milhões de euros, contabilizando apenas salários, pagamentos a fornecedores e contratação de serviços.

Fernando Albuquerque abriu uma imobiliária há sete anos, no olho da tempestade. «Nessa altura ninguém conseguia vender nada. As pessoas estavam a sair, as habitações eram caras e os bancos não emprestavam dinheiro», conta no seu escritório no centro, uma das poucas casas tradicionais alentejanas que existem na cidade. De repente, no início de 2014, as coisas viraram. «Começou a chegar gente da escola e precisava de casas. Então, em menos de nada, criou-se um mercado de arrendamento que até aí não existia. A GAir alugava diretamente apartamentos com três, quatro quartos e esse dinheiro revelou se essencial para muitas famílias.» A oferta deixou de chegar para a procura e, segundo ele, um T3 que há cinco anos era alugado por 250 hoje atinge facilmente os 600 euros.

Muitas casas vazias começaram a ser recuperadas. E outras foram construídas de raiz, o que se revelou um balão de oxigénio também para as empresas de construção civil da região. «Mais houvesse e mais se alugaria. O grande problema hoje é que não temos T1 nem T2 para os que já cá estão há uns anos e querem viver sozinhos. Muitas vezes têm de pagar o mesmo que despenderiam por uma casa grande.» Numa cidade que tem 7 750 habitantes, segundo os últimos Censos, a capacidade de dar resposta às necessidades é limitada. Albuquerque estima que existam hoje sessenta casas alugadas, quase todas no bairro do Monte da Pinheira, um dos mais recentes de Ponte de Sor.

É a zona dos recintos desportivos, dos bares e dos cafés, das lojas mais modernas. Há uma que se chama da Ponte e vende roupa de marca. Tem ar moderno e uma parte da clientela chegou com os aviões. «Já me compraram uma bicicleta de 1850 euros no próprio dia, mas o que mais vendo são botas da Timberland, de alta qualidade, que ficam bem com os uniformes dos pilotos», diz André Lopes, o dono. «E também óculos de sol de alta qualidade. Quem trabalha em aviação sabe que nem todas as lentes servem e aqui temos algumas das melhores.»

Em setembro de 2016, e também para responder aos problemas de falta de alojamento, abriu no aeródromo a G4U, uma mistura entre hotel e residência universitária que alberga uma centena de alunos da GAir. Tem quartos decorados com motivos de aeronáutica, salas de conferências com nomes de aviadores famosos, um bar que foi transformado em sala de convívio e um restaurante chamado Wright, onde Mário Barroso comanda as operações atrás do fogão. «Servimos todos os dias pratos de carne, peixe, vegetarianos e de pasta, porque temos sempre muitos italianos. Se os estudantes são internacionais, então a comida também tem de ser.» Há tostas e hambúrgueres, espetadas de borrego e pratos de galinha. «É muito raro servir porco, porque um grande número de alunos vem de países árabes. Agora, se há coisa que aprendi desde que estou aqui foi a trabalhar com especiarias. Tenho alunos da Índia ou dos Emirados Árabes Unidos que me trazem esses sabores das terras deles e me ensinam a usá-los na comida. Também mandamos vir carne halal (cortada segundo as regras islâmicas) e encomendamos vários tipos de pão às padarias locais, para agradar a uma clientela tão específica.»

ENTRE OS QUE FREQUENTAM A G4U há os que preferem permanecer ali os dias inteiros e os que vão jantar à cidade – e para esses há dez carrinhas a cumprir continuamente o circuito entre o aeródromo e Ponte de Sor – quatro quilómetros. Stefano Limota, um italiano de 23 anos, pertence nitidamente ao primeiro grupo. «Pensei muito bem nas opções que havia e percebi que era aqui que tinha de estudar. Esta escola tem excelente reputação e fortíssimas conexões com as companhias aéreas.» Ele está no Alentejo com um único objetivo: ser piloto. «Repare, se nos mudamos para uma pequena cidade em Portugal não faz sentido concentrarmo-nos noutra coisa que não seja a nossa aprendizagem. Da janela do meu quarto vejo aviões descolar e aterrar o dia todo. Tudo aqui respira aviação. Quando fico farto, ou quando tenho saudades, posso ir visitar a família a casa e demoro pouco mais de três horas. Mas este lugar, para mim, é uma espécie de mosteiro aeronáutico.» As idas à cidade têm normalmente um único objetivo: compras.

Junto à entrada da G4U concentra se um grupo que não podia pensar de maneira mais diferente. Chegaram há quatro dias ao Alentejo e um rapaz sul coreano que já cá está há dois meses vai leva los a conhecer a vida noturna sorense. Então seguem dois marroquinos, um mexicano e dois canadianos na carrinha. Trazem amuletos das suas terras e andam sempre com eles nos bolsos para dar boa sorte. «Vamos a um dos principais restaurantes da cidade e depois bebemos um copo.» Esta é a vida da maioria, os dias a aprender a voar, as noites a matar o tempo a quatro quilómetros da pista.

No Olivença, um dos melhores restaurantes da cidade, a chegada dos pilotos ajudou a esbater a quebra do negócio que Ponte de Sor sofreu depois da abertura da A23 – e que roubou tráfego não só às estradas como à restauração. «Este é o lugar onde eles trazem as famílias, quando os pais e as namoradas os vêm visitar», diz Joaquim Telles Godinho, que abriu a casa há vinte anos. «Sentam se aqui e traduzem as ementas com os telemóveis, mas diga me lá que tradutor é que converte pezinhos de coentrada para inglês?» Acabou por contratar uma funcionária que fala a língua, reforçou a ementa em peixes, mariscos e hortaliças.

Mesmo ao lado do aeródromo, na aldeia de Tramaga, João e Teresa Simões falam da amizade que foram fazendo com alguns alunos da escola. «Sempre que um acaba o curso e ganha as asas vem para aqui comemorar», diz a mulher. O Nascer do Sol é um restaurante popular, doses fartas a preços económicos, muitos grelhados, comida bem confecionada. «Os italianos e os angolanos são loucos por porco preto, os árabes vão mais para o frango. E não bebem.» Logo a seguir escangalha se numa gargalhada, «quer dizer, alguns bebem…» Acolhe muitos grupos, e é assim desde que o aeródromo começou a ser construído, na viragem do milénio. «Fomos recebendo todos. Primeiro os trabalhadores que montaram a pista, depois os que instalaram os hangares, agora os alunos e os instrutores. Os estrangeiros são mais recentes. Quando chegam, vêm com manias esquisitas, querem omeletas de não-sei-quê, saladas de não sei que mais. Mas a gente educa os. No Alentejo come se carne e a carne é boa. Provam um bom bife e perdem as manias num instantinho.» Muitos vêm quase todas as noites, e alguns tratam-na por mãe.

No Splash, um bar junto às piscinas, juntou-se uma clientela bastante internacional. «Há aqui dois instrutores que já estão a passar das marcas», brinca Celso Rodrigues, empregado da casa. «Já vai cada um em três garrafas de Água das Pedras.» Os homens, um italiano e outro holandês, percebem qualquer coisa de português e riem se, mas atiram imediatamente uma justificação: «Amanhã temos de voar cedo. Sexta e sábado vingamo-nos.» Desde que os estrangeiros chegaram, a vida noturna de Ponte do Sor expandiu se, vendem-se shots como cerejas em julho, gins tónicos mais do que cerveja. Os bares passaram a estar cheios, mesmo em noites de semana, mesmo em noites de copioso dilúvio.

Eva Aguiar, 19 anos, vai hoje mudar de casa. Passou os últimos meses no campos da G4U, mas diz que precisa de convívio, a vida não pode ser só entre as aulas e um quarto. «Vou partilhar apartamento com dois amigos e isso acaba por sair mais barato. Além disso quero ter o meu espaço, pendurar as minhas molduras, encher a cama de almofadas.» Vem de Beja, é uma de duas portuguesas da GAir. Quer viver no meio dos alentejanos, o seu povo. «Aqui há tudo, em pequena escala. Lojas, cafés, jardins, ginásios. Vir para a cidade traz nos outra normalidade e acalma as saudades de casa.» O pai é comandante na TAP, ela tem o destino traçado desde a infância. «Não há muitas mulheres neste mundo, mas fazem falta. Os rapazes preocupam se mais com modelos de aviões e peças de motores, as raparigas gostam de perceber os sistemas físicos que colocam um avião no ar. Nesta complementaridade entre as duas visões da aviação é que está o ponto ideal.»

MESMO PARA OS ALUNOS QUE VIVEM em Ponte de Sor, o foco da vida é aquela pista de aterragem, são aqueles aviões, os simuladores e os hangares. A GAir ocupa todo um pavilhão para a teoria, são ali as salas de aulas e de testes, é também ali que os novos alunos são avaliados para perceberem se estão ou não aptos para o ofício de piloto. «Muita gente chumba em testes psicológicos, mas a maioria das rejeições acontecem por dificuldades na visão», esclarece Ana Vasques, presidente da empresa. «E às vezes é muito devastador arruinar o sonho de alguém por ser daltónico. Mas as coisas são o que são, e a segurança da navegação aérea nunca pode ser posta em causa.»

A empresa foi criada por Carlos Saraiva, um piloto de aviação que abriu uma série de negócios na área de hotelaria e cuja empresa, os hotéis CS, acabou por falir. Uma investigação da SIC sobre a má gestão no Banif apontou o caso como um mau exemplo dos investimentos do banco. É inevitável confrontar o município, mas a resposta vem pronta: «O impacto da aviação no nosso concelho está à vista de toda a gente. Em quinze anos investimos trinta milhões, metade dinheiro da câmara, metade fundos comunitários. É muito dinheiro, sim, e também é verdade que trouxemos para cá a escola antes de eu ser presidente da câmara. Mas os resultados falam por si. Foi uma excelente aposta do meu antecessor. O retorno é muito superior ao investimento.»

HOJE ESTÁ DE CHUVA e o instrutor António Corallo vai dificultar a vida a Ivan Maisano. São ambos italianos, mas toda a conversa é feita em inglês, língua oficial da escola. Ivan tem 30 anos, é um dos alunos mais velhos. «Quando acabei o liceu, queria ser piloto mas os meus pais não tinham dinheiro para me pagar um curso.» Na GAir, o curso de piloto de aviação comercial custa em média setenta mil euros, e dura ano e meio. «Poupei bastante e agora estou a seguir o meu sonho.» O sonho, hoje, mais parece um pesadelo. Num dos três simuladores, testam uma viagem até Évora, com as condições atmosféricas a deteriorarem-se. Primeiro, chuva. Depois, noite. Por fim, visibilidade nula. «É aqui que testamos os piores cenários», diz o professor. «No fim avaliamos o que correu mal e tentamos retificar.» Ivan só veio fazer as aulas práticas ao Alentejo, como ele há muitos alunos que cumprem as aulas teóricas noutras escolas e completam aqui o ciclo de estudos. A própria GAir tem três outras instalações – em Tires, Milão e Dubai –, mas é aqui que estão estacionadas os 27 monomotores Cessna e quatro multimotores em que os alunos aprendem a voar. Também há quatro helicópteros, mas as aulas de especialidade reduziram se drasticamente após dois acidentes, um em 2014 e outro em 2015. O último matou os dois tripulantes, instrutor e aluno. «Há sempre riscos nesta profissão», diz a presidente da escola. «Mas eles são bastante mais reduzidos no que é a nossa especialidade, a formação de pilotos para aviação comercial.»

Ivan sabe que vai sair de Ponte de Sor em breve e o dia da partida, admite, vai custar-lhe. «Apaixonei me por esta terra e por estas pessoas. E pela comida portuguesa, também. Terei sempre muito boas memórias deste país, voltarei sempre que puder.» Há mais gente a pensar como ele. Até há o caso de Rui Henriques, 31 anos. É instrutor desde a abertura da escola, apesar de ter crescido em Oeiras, não pensa sair tão cedo da cidade alentejana. Há um ano e oito meses conheceu Inês Dias, uma farmacêutica de 28 anos que decidiu voltar à terra no fim dos estudos. «Um aluno do Dubai meteu se com ela e pediu me para traduzir, mas eu ignorei o, comecei a falar com ela e no dia seguinte convidei a a dar uma volta de avião comigo.» Ginga de piloto tem as suas vantagens, não tardou para começarem a namorar.

«Quando ele me convidou para entrar no avião hesitei», diz a rapariga. Era um desconhecido, afinal de contas. «Mas fui. Pensei que ou morria ou era amor para sempre.» Rui é dos poucos que arranjaram um T1 na cidade, casamento e filhos não estão num horizonte longínquo e ele sabe que é aqui que vai passar o resto dos seus dias. «Não quer dizer que seja instrutor toda a vida, mas posso ser piloto numa companhia portuguesa e viver no Alentejo sem problemas. Estou a hora e meia da capital.» A rapariga sorri. Num aeródromo no meio de nenhures encontraram ambos uma vida inteira.

Daqui a dias abrirá um hotel que esteve fechado durante anos na cidade, cinquenta quartos para acolher comitivas de outros países, familiares dos pilotos, empresários com propostas que só uma pista de aterragem permite. Em maio haverá aqui um grande encontro de todo o setor aeronáutico nacional, o Portugal Air Summit. O próprio aeródromo está em franco crescimento. Além de sediar a GAir, acolhe também a Autoridade Nacional de Proteção Civil. Agora, vão abrir portas duas novas companhias – a Tekever, que produz drones, e uma empresa francesa que produz máscaras de oxigénio para aviões. O Instituto Politécnico de Setúbal abriu um curso de especialização em técnicos de aeronáutica e o município quer que as universidades tragam para aqui licenciaturas, que fixem gente nova e cimentem na terra a riqueza dos ares alentejanos. A vida em Ponte de Sor continua a mudar.

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