OPINIÃO

Filipa Pais: «Ainda é muito difícil dizer ‘eu sou branca mas não te venho trazer um saco de arroz’»

Filipa Pais é formada em psicologia e vive há seis anos na Guiné-Bissau, onde trabalha com uma ONG de ajuda internacional. A realidade de um dos países mais pobres do mundo, as «falsas ajudas» do estrangeiro e como podemos ajudar efetivamente. Porque a ajuda é - muito - necessária.

Entrevista de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Gustavo Bom

Quando chegou à Guiné-Bissau, há seis anos, qual era a ideia mais errada que levava na mala sobre o país?
É normal chegarmos com algumas ideias preconcebidas, até porque na Europa a ideia que nos vendem é que «nós vamos porque os outros precisam de nós». A tónica é muito colocada em nós e no que vamos mudar no outro. Quando cheguei, muito mais facilmente me encantava com determinadas histórias – que são muitas – de necessidade, de pobreza. Estás mais reativa e pensas «pronto, eu compro-te isso, ou dou-te um saco de arroz». Hoje, a minha ideia de ajudar é bem distinta. É responsabilidade nossa pensarmos o quão sustentáveis são os nossos comportamentos.

Que tipo de comportamentos?
Por exemplo, levar camisolas do Benfica para um orfanato porque estás ali aquele mês e, no mês seguinte, outras pessoas levam canetas ou chupa-chupas. É inconsequente, principalmente num contexto em que estão envolvidas crianças.

Acha errado levar canetas ou cadernos para escolas ou orfanatos?
Acho errada a forma como se dão essas canetas e cadernos. Não deveria ser a Joana ou o António que chega a uma comunidade e desata a distribuir cadernos. Ninguém sabe quem é a Joana ou o António e eles não sabem como aquele material vai ser utilizado. Acima de tudo, é melhor perguntar às pessoas antes «o que vocês precisam?». Os cadernos podem nem ser a primeira necessidade. É um erro muito comum.

Um erro cometido com boa intenção.
Claro que sim, sem dúvida. Mas vivemos numa era de informação, não é difícil encontrar nas redes sociais pessoas ligadas a associações que vivem as realidades de perto para fazerem a pergunta «o que precisam?». Uma das ideias assumidas mais prejudiciais é de que, por exemplo, és um engenheiro civil em Lisboa mas queres ir para África mudar fraldas. Porquê? Há pessoas para fazer isso e podes, inclusive, estar a tirar trabalho a essas pessoas. Porque não conciliar as tuas competências com as necessidades do sítio? Existem poucos engenheiros na Guiné, talvez seja essa a necessidade maior. Para mudar fraldas, há sempre os sobrinhos ou filhos dos amigos em Portugal.

É uma coisa quase de espetáculo passado, uma semana fazer as trancinhas, ou atirar chupa-chupas às crianças. Não são cães.

O que está a dizer é que, muitas vezes, o voluntariado ou mesmo o trabalho em associações está mais focado na satisfação pessoal do indivíduo do que nas necessidades básicas do país para onde se deslocam?
Sem dúvida. Há muitas associações viradas para esse tipo de intervenção que, a meu ver, pode ser desrespeitoso. Não me levem a mal, eu acredito mesmo que quem vai para a Guiné, um dos países mais pobres do mundo, não o faz com má intenção. Agora, temos de perceber que estamos a colocar-nos acima dos locais. Quando leio textos de associações como «uma boneca sem braços na Europa já não vale nada mas em África vale tudo», quer dizer…tenham paciência. Tenham respeito. O meu sobrinho em Portugal merece ter brinquedos novos e os meninos em África, não?

A falta de conhecimento da cultura é o que mais a incomoda no comportamento dos estrangeiros que vão à Guiné?
Acima de tudo, a falta de respeito para com as pessoas que lá vivem. Eu não vou para a Caparica e desato a tirar fotografias das crianças. Por isso, também não o vou fazer na Guiné. Há muitos estrangeiros que não conduzem com cinto de segurança. Não faz sentido. Ou vão a casa de um guineense e não pedem uma colher. É raro não terem uma colher, mesmo que comam com as mãos. Não há nada de errado nisso. E eles sabem que crescemos num ambiente diferente, com colheres. Não vale a pena ter certas atitudes – que são forçadas – não é isso que vai levar à inclusão. É uma coisa quase de espetáculo passado, uma semana fazer as trancinhas ou atirar chupa-chupas às crianças. Não são cães. Há que evitar este show off que só serve para servir o ego do próprio, como que a dizer «eu venho para África e por causa dos meus doces estas crianças vão sorrir». Isto é uma «masturbação inteletual do ego» que me faz alguma confusão.

Mas nesse caso, as pessoas que o fazem não estão a tentar resolver o problema de África, estão de certa forma a proporcionar um alívio àquelas crianças que estão numa situação de privação, não é?
Claro, é um alívio, sem dúvida. Mas também não podemos esquecer-nos que são seres humanos. Por que não procuram uma família que não consegue suportar os custos da escola dos filhos e pagam a educação de uma criança? Quanto custa? 20, 50 euros? Ok, eu pago. E associações como a nossa podem fazer essa ponte e garantir que a criança vai à escola. As demonstrações rápidas de afeto podem ser prejudiciais. Por exemplo, no orfanato onde trabalhei, as crianças recebiam semanalmente visitas de brancos. Enquanto psicóloga, eu preocupo-me imenso com esta situação. Afeiçoam-se à Maria que tira fotografias e dá presentes, mas a Maria vai embora. E passado uma semana vem o Rui. Para estes miúdos, que não têm pais, é de uma violência emocional muito grande. Não é mau levar cadernos, como falávamos. Mas talvez haja uma escola onde começam a fazer a alfabetização das mulheres e precisam realmente. Elas precisam mais.

O que a levou a escolher a Guiné? Ou escolheu primeiro África?
Há seis anos, mudei-me por razões muito diferentes daquelas que me fazem hoje ficar. Por algum sentido de responsabilidade face ao meu trabalho – sou formada em psicologia – não fazia sentido trabalhar em psicologia em Portugal. Quis experimentar um contexto diferente. Mas era uma experiência temporária para perceber melhor como eu me adaptaria a cenários diferentes. E o primeiro trabalho foi na AMI, em Bolama, uma ilha isolada, e focava o meu trabalho em jovens e mulheres. Permitiu-me trabalhar diretamente com a comunidade durante um ano e ganhar mais certeza de que queria continuar a trabalhar em África, em particular na Guiné.

Num universo de um milhão e seiscentas pessoas, seiscentas são portuguesas. E contemos depois com os estrangeiros de outras nacionalidades a trabalhar em organizações internacionais. É uma percentagem considerável de habitantes que veio de fora, com os seus hábitos e educação.

Por isso voltou com um projeto diferente?
Sim, regressei à Guiné com a Cooperação Portuguesa, num projeto financiado pela União Europeia que já era mais estruturado e para lidar com o serviço público do país, principalmente ao nível da proteção das crianças. E também com algumas estruturas da igreja, até porque um dos parceiros de implementação era a Caritas. De facto, num país como a Guiné-Bissau, a igreja é das estruturas que tem mais capacidade de resposta. Foram quatro anos de capacitação destas estruturas que estavam espalhadas pelo país e prestavam apoio não só às crianças, como às famílias.

E agora trabalha para uma ONG espanhola?
Desde outubro que trabalho para a AIDA (Ayda, Intercambio y Desarrollo) que está Guiné há dez ou doze anos. O princípio da AIDA é trabalhar com o menor número de expatriados. Numa equipa de quase 40 pessoas somos três estrangeiros, dois espanhóis e eu. Estamos a trabalhar no sentido de capacitar as pessoas para que, com o tempo, se tornem autónomas. Temos projetos diferentes. Nos hospitais, prestamos assistência sócio-comunitária, medicamentosa, cirúrgica. Eu coordeno um projeto que trabalha com o sistema no sentido de identificar a violação de direitos dentro do sistema de saúde. Estamos a prestar assistência técnica ao Comité Internacional para o Abandono das Práticas Nefastas. Trabalhamos as questões da mutilação genital feminina, o casamento precoce, a não escolarização das meninas. Temos acordos com hospitais de quatro países europeus – Portugal, Espanha, Itália e Suíça – onde são operadas as crianças com doenças crónicas. E atuamos também nas comunidades rurais, sobretudo a leste.

O país continua a ter práticas nefastas horríveis, como a mutilação genital feminina, o casamento precoce e por mais que digam que são tradições culturais, uma pessoa não tem de ser tolerante, não pode ser tolerante. O dia em que aceitar isto é o dia em que saio de lá.

Ainda vamos para África com um comportamento colonizador?
Vamos. É inevitável alguma diferenciação. Obviamente que África é muito diferente, são muitos países, cada um com a sua identidade. Focando-me no caso da Guiné, há poucas pessoas qualificadas guineenses. Num universo de um milhão e seiscentas pessoas, seiscentas são portuguesas. E contemos depois com os estrangeiros de outras nacionalidades a trabalhar em organizações internacionais. É uma percentagem considerável de habitantes que veio de fora, com os seus hábitos e educação.

Notam-se os resquícios da guerra colonial?
O partido maioritário ainda se chama PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde). Guiné e Cabo Verde eram praticamente o mesmo país, só que Cabo Verde teve um período pós-independência muito mais tranquilo. Na Guiné, o último golpe foi em 2012, portanto estamos a falar de uma nação ainda muito frágil. Em relação às memórias coloniais existe a questão da língua. Os meninos sentem-se desconfortáveis em falar português, existe um complexo. Ouve-se muitas vezes, entre os jovens, «tens a mania que és melhor porque tentas falar português». Rapidamente preferem o crioulo para comunicar. Existe uma grande subserviência em relação aos brancos na forma como a maioria dos guineenses se comporta. De vassalagem, pode dizer-se. Por outro lado, em contextos mais formais, nos ministérios, há certo desprezo, a mensagem já é «agora, o país é nosso».

Ainda não deixa de se chocar com a realidade que vê?
Não, nem poderia. A situação da mulher mexe muito comigo. O país continua a ter práticas nefastas horríveis, como a mutilação genital feminina, o casamento precoce e por mais que digam que são tradições culturais, uma pessoa não tem de ser tolerante, não pode ser tolerante. O dia em aceitar isto é o dia em que saio de lá. A Fatumata Djau Baldé, que é a presidente do Comité Nacional para o Abandono das Práticas Nefastas à Saúde da Mulher e da Criança, é um exemplo incrível porque foi mutilada quando era nova e fez desta luta a sua vida e lida de perto com as fanatecas, as mulheres que continuam a praticar a excisão, mesmo depois de a lei que a condena ter sido aprovada. Existem casos reportados de bebés que chegaram ao hospital com hemorragias, o que indica que se faz. Agora, sem a festa – antes toda a comunidade reunia-se – para não serem apanhados. Claro que nós nunca vamos habituar-nos a isto. E ainda bem.

O que diria a uma pessoa que pensa fazer voluntariado ou ir trabalhar para a Guiné-Bissau?
Antes de mais, há que estar informado. Falar com pessoas no terreno, procurar organizações que tenham a ver com as suas competências. E perceber o que são as organizações. Por exemplo, se és um médico, os Médicos Sem Fronteiras, que são uma estrutura de emergência, podem ser uma opção. Vais para algum país dar consultas, prestar cuidados imediatos. Não são todas assim. Na AIDA, eu preciso de um contabilista, por exemplo. Não é o trabalho mais emocionante, a meu ver – que não gosto de contabilidade – mas é extremamente necessário. Ou seja, vais fazer o mesmo trabalho que fazes em casa, mas num contexto muito diferente e com mais calor, isso é certo.

Como é a recetividade dos locais perante a ajuda das associações?
Como todos os países que vivem maioritariamente da ajuda internacional, as pessoas entram numa lógica de dependência dessa ajuda. Neste momento, há algumas entidades que estão focadas sobretudo na mudança dessa lógica. Se temos um projeto de agricultura – que é a grande fonte de rendimento – não queremos trazer alfaces ou bagos de arroz, queremos tratores, materiais e ensinar as pessoas a trabalhar com esses materiais. Mas é muito difícil, estamos a lutar contra quase 40 anos de cooperação internacional em que foi apenas dar, dar, dar. Levavam medicamentos e sacos de arroz e amanhã logo se vê. A ajuda tem de ser muito mais focada. Tem havido muitos relatórios no sentido em que África tem uma agenda própria. São os países que têm de dizer o que precisam. Ainda é muito difícil dizer «eu sou branca mas não te venho trazer um saco de arroz».

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