OPINIÃO

Doaa Al-Zamel: «Tenho a certeza que voltarei à Síria. Mesmo que a guerra não tenha terminado»

O olhar é doce e triste e a voz, por vezes, ainda treme. Doaa Al-Zamel tem 21 anos e nasceu na Síria, o seu «paraíso». Com a guerra, fugiu com a família para o Egito, apaixonou-se, ficou noiva e tentou vir para a Europa num barco com outras 500 pessoas que fugiam da guerra, em 2014. A embarcação naufragou e apenas 11 sobreviveram. Bassem, o homem com quem ia casar morreu à sua frente. Salvou duas crianças e andou à deriva quatro dias e quatro noites até ser resgatada, quase sem vida. Entrevista à jovem síria cuja história de sobrevivência resultou no livro «Uma esperança mais forte que o mar» e que Steven Spielberg e J.J. Abrams querem adaptar para o cinema.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Hoje Doaa vive na Suécia com a família, estuda para ser advogada e não se habituou ainda ao frio. Este relato de sobrevivência chamou a atenção de Melissa Fleming, diretora de Comunicação e porta-voz da Agência da ONU para os refugiados (ACNUR). Juntas, escreveram o livro Uma esperança mais forte do que o mar, da Porto Editora. Guerra, família, amor e perda. A conversa com as duas mulheres que querem dar voz à crise dos refugiados.

Sobreviveu quatro dias e quatro noites à deriva em mar alto, salvou duas crianças e viu o seu noivo afogar-se à sua frente. Como se ultrapassa uma dor assim?
Doaa: Não sei descrever este sentimento, é algo que vive comigo diariamente. Só desejo que ninguém tenha de sentir a dor que eu senti.

Masa, uma das crianças que salvou, vive também na Suécia com a família. Mantém contacto?
D:
Não nos vimos mais. Sei que vamos encontrar-nos no futuro e que vai ser um momento muito bonito.

Como foi a adaptação à Suécia, um país tão diferente do seu?
D: É muito frio. É a parte mais difícil. Mas as pessoas são muito amáveis, o sistema educativo é muito bom. Gosto de ter a minha família comigo.

Como era a Síria antes da guerra?
D:
Era um país lindo. O tempo, as pessoas. Passávamos muito tempo a conviver entre família e amigos. O cheiro das flores, dos frutos, das casas. Para mim, era o paraíso, é a melhor forma que tenho de explicar.

Pensa voltar um dia?
D: Foi muito difícil deixar a Síria. Eu não queria. Ainda que tenha ido para o Egito e agora a vida continue na Suécia, tenho a certeza que um dia voltarei. Mesmo que a guerra ainda não tenha terminado, voltarei.

Quando os protestos começaram, no seu país, era muito nova, tinha 16 anos, e mesmo assim foi para rua reivindicar os direitos do povo sírio. Sentiu que tinha uma voz que tinha de ser ouvida?
D: Apesar de ser nova, sentia que havia algo de muito injusto a acontecer. Eu queria ir para a rua pedir justiça. Mesmo que fosse uma participação pequena, era o que eu podia fazer. Então, fui. As pessoas protestavam pacificamente e eram recebidas com tiros, com violência. Ver isto a acontecer à minha frente só me fazia querer lutar ainda mais.

«Como ser humano, tenho os meus direitos, tenho direito a uma vida melhor e a procurar segurança. Porque não percebem isso? Não somos nós a fazer esta guerra, nunca quisemos a guerra», Doaa.

Quando conheceu o seu noivo Bassem, no Egito, e decidiram tentar vir para a Europa, como imaginavam que seria?
D: Era o Bassem que tinha esse sonho de vir, eu não fantasiava com a Europa, queria voltar para a Síria. Ele é que me convenceu e passou a ser o nosso sonho. Ele dizia-me que seria como o paraíso. Agora que vivo na Suécia, não penso que seja o paraíso, é apenas normal, a vida normal. Um lugar onde podemos encontrar educação e segurança.

Fica revoltada com a forma como os refugiados sírios são vistos e tratados em alguns países, indesejados ou apelidados de terroristas?
D: Não me sinto revoltada, sinto-me triste. Porque são racistas connosco quando nós não somos com eles? Como ser humano, tenho os meus direitos, tenho direito a uma vida melhor e a procurar segurança. Porque não percebem isso? Não somos nós a fazer esta guerra, nunca quisemos a guerra.

Doaa Al-Zamel e Melissa Fleming estiveram em Portugal para falar do seu livro Uma Esperança Mais Forte do que o Mar, da Porto Editora.

Como porta-voz do ACNUR, a Melissa trabalha diretamente com refugiados, ouve muitas histórias parecidas com a de Doaa?
Melissa: Os refugiados são talvez as pessoas mais vulneráveis do planeta, a sua história é distorcida, mal comunicada, precisam de ajuda eficaz. É isso que tentamos fazer no ACNUR. É um trabalho muito, muito desafiante. Antes eu trabalhava com a possibilidade de um cenário catastrófico. Agora, nos campos de refugiados, eu trabalho com a catástrofe mesmo à minha frente. Está a tornar-se cada vez pior. Todos os anos, os números aumentam.

Esta é uma crise com alguns anos e que durante muito tempo passou despercebida…
M: Nós tínhamos alertado para uma crise dos refugiados há muito tempo. Quando as pessoas começaram a chegar em massa à Europa, quando o problema passou a ser local, aí sim, os países com mais poder tiveram de admitir que há uma crise muito profunda a acontecer.

«Alguns políticos viram uma oportunidade nesta situação. Perceberam que se usassem a crise dos migrantes para causar medo, talvez ganhassem votos. É uma estratégia para ganhar eleições à custa do sofrimento dos outros», Melissa

Enfurece-a que alguns países fechem as suas fronteiras e neguem ajuda aos refugiados que passaram por tanto para chegar à Europa?
M: Sim, enfurece-me muito. Eu acho que todos os países deveriam assumir a responsabilidade de receber refugiados. Primeiro porque é uma responsabilidade legal. Mas não só. Como membros da comunidade internacional, não podem virar as costas ou fechar os olhos. Acima de tudo porque os governos têm o dever de cuidar das vítimas dos conflitos que estes não conseguem resolver.

Não a assusta o facto de movimentos nacionalistas e xenófobos estarem a ganhar terreno?
M: O que aconteceu foi que alguns políticos viram uma oportunidade nesta situação. Perceberam que se usassem a crise dos migrantes para causar medo, talvez ganhassem votos. É uma estratégia para ganhar eleições à custa do sofrimento dos outros. Mas também, por outro lado, temos exemplos concretos de que é possível ganhar eleições com a atitude contrária, mais agregadora. O Canadá, por exemplo. Justin Trudeau fez campanha para acolher 25 mil refugiados da Síria. E ganhou! Portugal é um bom exemplo. Duplicaram voluntariamente a quota de refugiados que podem ser acolhidos no vosso país. É um gesto que outros países poderiam copiar.

Porque escolheu a história de Doaa para escrever um livro?
M: Fui atraída para a história de Doaa quando soube do naufrágio. Uma tragédia enorme! Ouvi falar de uma adolescente que tinha sobrevivido quatro dias e quatro noites à deriva com dois bebés. Depois tomei conhecimento que ela tinha nascido em Daraa, onde o conflito sírio começou e que tinha vivido um tempo no Egito, como refugiada, com toda a família. Há também uma história de amor. Apesar de todo o sofrimento, existe a possibilidade de olhar em frente e pensar no futuro. A Doaa também viveu de perto o problema do tráfico, tentou fugir duas vezes, foi apanhada e presa. Este é um problema gravíssimo que não podemos ignorar.

Como foi o processo de escrita do livro? Foi doloroso reviver todos os momentos ou acabou por ser uma catarse?
D: Reviver a história foi doloroso, mas a verdade é que esta é uma dor que vive comigo, que nunca irá desaparecer. Eu aceitei o convite da Melissa porque achei que poderia ser uma voz para as pessoas que estão a sofrer como eu.

M: Foram muitas horas de conversas, dávamos longos passeios, por vezes, acabávamos o dia a comer gelados. Fomos criando um laço que permitiu a Doaa partilhar comigo detalhes da sua experiência muito pessoais e dolorosos. Agradeço-lhe a confiança em mim.

«Às vezes, fico muito frustrada. Não acredito por vezes que seja possível causar tanto sofrimento a outro ser humano deliberadamente. Na Síria, hospitais são bombardeamentos, escolas também. É um cenário difícil de descrever», Melissa.

Um dos maiores problemas que esta guerra gerou é o tráfico humano, como a Melissa referiu. Podemos dizer que a falta de interesse dos países europeus em ajudar estas pessoas a encontrarem um lugar seguro para viver o facilitou?
M: Claro. Não houve um investimento suficiente nos países que estão a acolher refugiados para que estas pessoas possam chegar em segurança, possam ter uma vida normal. Vivem em tendas, as crianças não podem ir à escola, os adultos não arranjam trabalho. Não tem sido dada a atenção necessária para que os refugiados possam refazer as suas vidas.

O que pode ser feito?
M: Enquanto comunidade internacional, temos de nos unir e perceber que este já não é um conflito regional, é um conflito internacional. Por isso, devemos unir esforços para acabar com um conflito que está a causar tantas mortes e sofrimento. Não podemos continuar a ignorar o que vemos nas notícias como se não fosse connosco. É com todos. O diálogo tem de se tornar mais ativo para que as coisas comecem a mudar.

Depois de tudo o que já viu nestes cenários de guerra, ainda têm esperança na humanidade?
M: Às vezes, fico muito frustrada. Não acredito que seja possível causar tanto sofrimento a outro ser humano deliberadamente. Na Síria, hospitais são bombardeamentos, escolas também. É um cenário difícil de descrever. Quando ouço falar de fronteiras a serem fechadas, de xenofobia, racismo, violência com pessoas que passaram por tanto fico realmente revoltada. Não compreendo. O que me ajuda é que, por outro lado, sou testemunha de várias histórias de compaixão, entre comunidades, entre pessoas. O programa de intercâmbio de estudantes sírios que têm a oportunidade de vir para cá estudar é um exemplo incrível de como podemos ajudar e garantir um futuro a estes jovens. Se todos os governos adotassem o mesmo sistema, imagine a quantidade de pessoas que continuaria a estudar! Estariam a investir de forma concreta no futuro da Síria.

Steven Spielberg e J.J.Abrams leram o livro e estão interessados em fazer um filme sobre a sua história. Ficou surpresa com o interesse?
D: Não fiquei surpreendida. O que me interessa é a forma como as pessoas olham para os refugiados. Foi por isso que concordei em contar a minha história neste livro. Com um filme, pode chegar ainda a mais pessoas. É bom.

M: Há uns dias falei com o Steven pelo telefone e ele mostrou-se muito interessado em conhecer a Doaa e toda a família. Estão a começar a escrever um argumento. Estas coisas demoram tempo, mas a preocupação deles é lançar o filme neste momento em que é uma história tão revelante.

 

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