OPINIÃO

Correr contra a esclerose múltipla

No Dia Mundial da Esclerose Múltipla, uma história de superação. 100 Metros narra a vida de Rámon Arroyo, um espanhol que vive com esta doença mas não deixou que isso o limitasse. Para a enfrentar, correu no Ironman, o triatlo mais difícil de Espanha. O seu percurso deu um filme.

Texto de Ana Patrícia Cardoso

A conversa flui, só interrompida por Inma, a mulher de Rámon, no Skype com os filhos de ambos. «Aí está a minha Iron Woman. A mulher da minha vida». Estarão separados apenas uns dias, o tempo que Rámon passará em Portugal com o realizador Marcel Barrena, para promover o filme sobre a sua vida. E que vida. A de Rámon teve vários momentos chave.

O primeiro aconteceu em 2004, quando recebeu o diagnóstico que iria mudar tudo: esclerose múltipla, uma doença neurológica que afeta o sistema nervoso central, provocando lesões cerebrais e medulares. Tinha 33 anos, uma carreira, estava noivo de Inma. «Os nossos pais conheceram-se no hospital. Foi um período complicado, mas ela casou comigo mesmo assim.»

No filme, o casal de protagonistas já tem o primeiro filho e a personagem de Inma está grávida do segundo quando Rámon recebe a notícia. «Este filme é ficção. Não queríamos fazer um documentário, queríamos contar esta história incrível. Mas tinha de o fazer de uma forma que as pessoas compreendessem. Tive de encurtar temporalmente os acontecimentos para caberem em duas horas», explica Marcel Barrena, o realizador do filme, que descobriu Rámon quando estava a fazer zapping e viu uma notícia sobre a sua participação na difícil prova desportiva.

Se a entrega do ator trouxe humanidade à interpretação, o que mais comoveu Rámon foi a capacidade que Dani mostrou de perceber a incerteza que pauta a jornada de quem passa por esta doença.

«Estava à procura de um guião que quisesse mesmo fazer. Esta história caiu-me do céu.» Não demorou muito tempo a contactar Rámon, que lhe desligou o telefone na cara. «Achei que eram os meus amigos a brincar porque estavam sempre a dizer-me que deveria fazer um filme».

Quando percebeu que Marcel falava a sério, decidiu embarcar na aventura. Começou assim uma jornada que iria envolver também o ator mais conhecido de Espanha: Dani Rovira.

«Quando conheci Dani entendemo-nos imediatamente, treinávamos juntos, passámos muito tempo a conversar». Tornaram-se amigos. «Tive um surto durante os treinos, estava cansado, não queria sair de casa e era o Dani que vinha buscar-me e dizia-me “hombre, vamos”. Não podíamos ter escolhido melhor pessoa».

Se a entrega do ator trouxe humanidade à interpretação, o que mais comoveu Rámon foi a capacidade que Dani mostrou de perceber a incerteza que pauta a jornada de quem passa por esta doença. «É tão incerta. Um dia estamos bem, no outro estamos sem conseguir andar. Eu queria que isso passasse e acho que está no filme.»

Este é o triatlo mais difícil de Espanha, acontece em Barcelona e consiste em 3,8 quilómetros de natação, 180 de ciclismo e 42,195 quilómetros de corrida. São 17 horas de prova.

Esse sentimento é visualmente conseguido na cena preferida de Rámon, a do penhasco. «Foi uma ideia de que gostei logo à partida porque dá-te bem a noção de vertigem que é esta roda gigante. E acho que é a partir daí que o personagem de Manolo [o sogro, na ficção] finalmente percebe o que estou a passar.» Mais não se pode contar, há que ir ao cinema.

Considera-se um super-herói, como o Ironman? Rámon responde que não. «Nem de perto. Sou uma pessoa normal que fez uma loucura e que tem uma família incrível a apoiar.» Ainda que a modéstia não lhe permita admitir, a verdade é que o que Rámon alcançou é difícil até para uma pessoa sem a doença. Este é o triatlo mais difícil de Espanha, acontece em Barcelona e consiste em 3,8 quilómetros de natação, 180 de ciclismo e 42,195 quilómetros de corrida. São 17 horas de prova.

Em 2013, quando Rámon decidiu participar, tinha toda a família na meta à sua espera e Marcel usou inclusive as imagens reais desse momento no filme. «Não foi nada planeado, eu estou a chegar e a Inma vem abraçar-me com os nossos filhos e nós cortamos a meta juntos. Também não poderia ser de outra forma, sempre encarámos a situação em conjunto. O Dani disse uma coisa que é verdade. Eu não escolhi ter esclerose múltipla. A Inma sim.»

O filme demorou dois anos entre produção e lançamento. É um processo rápido, tendo em conta o tempo normal de um filme. Marcel admite que ele próprio ficou surpreendido. «Às vezes, estas coisas milagrosas acontecem no cinema, encontras a história certa, tens os atores certos e tudo funciona».

Esta co-produção entre Espanha e Portugal conta ainda com a participação de atores nacionais como Manuela Couto, Ricardo Pereira e Maria de Medeiros.

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Ser uma inspiração

No dia da ante-estreia em Lisboa, Rámon abraçou um fã. Mais do que isso, Rámon abraçou alguém que também tem esclerose múltipla e que vai seguir-lhe as passadas e participar no Ironman este ano. Alexandre Dias tinha 25 anos quando recebeu o diagnóstico. Estava na faculdade em Coimbra, tinha uma vida como a de tantos outros estudantes. Teve de fazer ajustes, demorou um pouco mais que os colegas a acabar o curso de Economia, devido aos surtos esporádicos.

Aos 28, estava cansado, desanimado e com excesso de peso. «Desvalorizei-me completamente por causa da doença. Fui-me mesmo abaixo». Foi aí que começou a treinar, a correr e que ganhou uma paixão para a vida.

A qualidade do dia-a-dia melhorou consideravelmente e começou gradualmente a participar em corridas e maratonas. Isto aconteceu há quatro anos. Hoje, para além de economista, é também atleta.

Quando pensou em participar no Ironman, o exemplo de Rámon estava presente. Só há um pequeno obstáculo: não sabe nadar. Está a ter aulas e tem a convicção que no dia da prova, 1 de outubro, estará «como peixe na água». Conhecer Rámon «foi uma honra e um prazer. É um ser humano sem barreiras». Os seus dias agora passam-se a treinar depois do trabalho, sempre com a meta final na cabeça. «Só assim faz sentido».

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